Os homens ainda enxergam fantasmas

Se os genes de uma espécie foram construídos de modo a possibilitar formar modelos dos mundos ancestrais, os cérebros de Rose e Samuel, ou seja, de indivíduos particulares, abrigam modelos dos diferentes mundos vividos por cada desses nossos irmãos da espécie. Ambos os cérebros são usados para ajudar a sobrevivência do indivíduo quanto ao futuro. O genoma de cada espécie armazena a memória coletiva daquela espécie particular, remontando ao passado mal definido. A memória contida no cérebro de cada um é particular, contém lembranças de experiências do indivíduo desde o momento de seu nascimento.

A decomposição dos estímulos que bombardeiam a pessoa continuamente, seja do meio ambiente externo, seja do meio interno (do emitidos pelo próprio organismo) é uma função mais simples do que a do cérebro que irá reconstruir ou recompor as sensações isoladas, pois delas resultarão os modelos do mundo com os quais a pessoa compreenderá os eventos e ações. A mesma idéia serve para o caso de reconhecimento de uma fisionomia, de uma palavra ou uma letra. Durante esse processo algumas células são ativadas pela focalização de nossa atenção inconsciente ou conscientemente, enquanto outras, ao contrário, são inibidas.

Para reagirmos adequadamente a uma imagem qualquer – uma pessoa, um carro, uma cena da novela – torna-se necessário que nossa atenção focalize somente o importante para nós, o aspecto de nosso interesse, deixando de lado o restante, o que não interessa. Ao assistirmos um jogo de futebol, a maioria focaliza a atenção nas jogadas de um e outro time; entretanto, alguns estão prestando atenção na cor das camisas, na maneira do árbitro correr em campo ou até nas pernas e bumbuns dos jogadores. Há gosto para tudo. Qualquer que seja a observação e atenção, ela é uma atividade automática e, quase sempre, sem esforço. Constantemente as imagens focalizadas por nossa atenção mudam de tamanho, de forma, de luminosidade etc. conforme as olhamos de perto, de longe, de uma posição ou outra, se movimenta etc. Se fôssemos somar as imagens possíveis percebidas durante a corrida do maratonista, ou também no meu encontro com Maria quando ela caminhou em minha direção, seu número seria imenso.

A informação é o valor surpresa, o oposto do esperado. Já a redundância é a medida da não-surpresa, do conhecido como os rostos antigos. Assim, as mensagens redundantes não são informativas; o cérebro receptor que as recebe já as conhece e as espera, pois as têm armazenadas, prontas para serem usadas.

Todos vocês sabem que uma enorme parte da língua falada e escrita é redundante, daí a dificuldade de se fazer revisões de textos. Quando olhamos para uma palavra, rapidamente passamos a outra, pois ela é velha conhecida do nosso cérebro. Por isso, nosso cérebro não toma conhecimento da palavra escrita de forma errada, por ela estar “escrita” certa nele.

Tudo o que conhecemos sobre o mundo fora de nossa cabeça nos atinge através de estímulos causados por ondas sonoras, luzes, pressões etc. que são captadas por meio de células nervosas. É desse modo que captamos as sensações de um sorriso, de um lamento, uma melodia, ou, também, a falta de ar, uma dor de barriga, uma animação, a fome e a sede.

Esse conhecimento inicial, o sensorial, é um conhecimento sem-palavras; entretanto, nós homens, diferente dos outros bichos, em seguida, quase sempre, mas nem sempre, codificamos o estímulo recebido por meio de conceitos, isto é, traduzimos a informação sensorial inicial recebida através de códigos; símbolos mentais ou verbais: “Estou sentindo uma pontada no peito. Será infarto? Acho que dessa vez morrerei!”, “Que som bonito esse do violão!”, ou também, o tema do artigo, “Um fantasma apareceu pra mim”.

As células nervosas, portanto, ao filtrar a mesmice dos estímulos, nos informam acerca das mudanças – das não-mesmices dos estímulos – da luz, temperatura, pressão etc. Fica por conta do cérebro, uma vez informado das mudanças, reconstruir o restante da imagem. O sistema funciona porque o estado do evento, fato ou cena, num instante, não é, em geral, muito diferente do momento seguinte. Apenas quando a cena muda de forma aleatória e frequente – o que é raríssimo – é que seria preciso a transmissão pelos órgãos dos sentidos a transformação de seu estado.

Vamos retornar aos fantasmas. A partir das informações fornecidas pelos órgãos dos sentidos ao cérebro, principalmente sobre as linhas limites, ele, cérebro, reconstruirá os intervalos ou espaços que faltam entre as linhas delimitadoras. O cérebro tende a construir um mundo virtual que é mais completo do que a representação transmitida pelos sentidos. As pessoas vêem faces o dia inteiro, sem parar, a partir do nascimento. Somos atraídos por faces bonitas ou feias, aparentando bondade ou maldade e, incrivelmente, existindo ou não-existindo. Assim “descobrimos” faces nos tetos, nas nuvens, nas montanhas, nas manchas de tinta, nos vidros das janelas, nas toalhas sujas, no meio das folhagens.

Acostumamos-nos a viver no mundo virtual, um mundo falso, construído pelo nosso cérebro a partir pequenos estímulos, sendo que o restante é reconstruído por nós com nossas “sobras”. Estamos tão acostumados a viver no mundo irreal que não percebemos que se trata de um mundo simulado. Muitos confundem, totalmente, o mundo irreal ou virtual, com o possivelmente real; assim é que o cérebro, perito em simular modelos, lamentavelmente, corre o risco de enganar a si próprio. Quantos de nós, eu e você, não vimos quando criança, ou mesmo mais velhos, fantasmas ou outras faces monstruosas. Alguns, mais sortudos, vêem anjos, santas, mulheres ou homens lindos e maravilhosos, tudo fabricado por nossa cabeça ávida do que vê, ou seja, pelos nossos “softwares” de simulação. Esses podem construir um fantasma, um dragão ou uma virgem santa, tudo em milésimos de segundos, e transformar, com a mesma rapidez, a virgem numa víbora, capaz de, virtualmente, nos picar.

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