O Sonho Distante

Imagem - Liberdade Jovens

A Bíblia fala que Adão e Eva viviam no jardim do Éden sem trabalhar, comendo frutas do jardim celestial, sem guerrear e sem atividade sexual, em paz com a vida e os outros animais; sem roupas e sem se envergonharem disso.

Gênesis 2:25

Muitos jovens, outros nem tão jovens, anseiam ter a vida contada na Bíblia, enxertada pelas idéias de seus deusinhos (dois modelos- paradigmas-: paraíso e da fama e diversão). Esses moços ambicionam no futuro, nada mais, nada menos, que o retorno ao mundo “bom, ordenado e belo”, imaginado, sonhado e descrito pelo mito do paraíso.

A rebelião dos jovens, que combate o estabelecido, explode ocasionalmente, conforme o tempo, o vento e tempestade passageira, na entressafra de suas “revoluções”; não ocorre um questionamento constante dos costumes por parte da juventude. O mal para a juventude sonhadora, pura e ingênua, é a sociedade e a vida atual; a infelicidade, para eles, está ligada à ordem social vigente formulada pelos seus pais.

Os mais idosos já desistiram, há muito, dessa luta inglória: transformar a atual sociedade imoral e corrupta numa decente e ordeira. A juventude sonha e luta, não de maneira eficaz, para salvar o homem “do mal do século”; transformar a história humana num conto de fadas com um final feliz.

Esses loucos utópicos – lembro ao leitor que todos nós já vivemos essa loucura durante nossa juventude – expressam de vários modos, conforme a época e a cultura, sua atração pelo paraíso: o uso de roupas grosseiras, desbotadas e rasgadas de fábrica, se possível, de marca; nudez diante dos outros, principalmente de uma câmera de TV ou de uma máquina fotográfica; exibição de coxas ou de seios entre as mulheres para mostrar o proibido pelas regras dos ordeiros e conformados. Mas a grande revolução contra o estabelecido não fica só nisso, outras estratégias inteligentes são usadas: badernas, gritos, urros e destruição durante jogos, formaturas, shows, missas, sermões e posse de presidente da república; colônias de nudistas para homenagear e defender o “naturalismo” numa praia ornamentada pela cultura de massa; ato sexual nos teatros, filmes e praças, para combater o moralismo tolo e ineficaz dos gagás.

Todas essas exibições teatrais, histéricas e misturadas a rituais religioso-pagãos, provocam em seus executores uma excitação tola e delirante: orgasmos demorados e aplausos da grande massa entusiasmada enquanto espera o retorno à Terra prometida.

Os outros seres humanos, surdos aos berros dos jovens, observam, afastados e incrédulos, o extraordinário entusiasmo enxertado à simplicidade hilariante. Para os jovens, lá, muito longe, no alto, bem acima de nossas cabeças de homens e da montanha, no céu azulado e estrelado, anjos decentemente enfeitados da nudez divina e primitiva, de mãos dadas, cantam e bailam alegremente, girando em volta do compenetrado, honrado e sempre vigilante Deus.

Entusiasmados com essa fantasia inebriante, em alguns lares desse mundo afora, pais não muito jovens, inoculados por essa pregação, passaram a cultivar o banho coletivo. Também, em algumas praias, como ocorre no paraíso, homens, mulheres e crianças despidas caminham; rapazes e moças desoladas exibem, diante da natureza viva, a natureza morta: seios e pênis tristonhos e abandonados; órgãos esperando por algum milagre produzido pelos que por ali caminham cabisbaixos.

Semelhante ao mito da nudez e do paraíso, de tempos em tempos, nasce o mito dos protestos estudantis cômicos. Estes, organizados por exploradores cobertos com disfarces de cordeiros, combatem com seus discursos inflamados o poder que, sem notar, eles exibem: roupas de marca, palavras bem escolhidas e reveladoras de erudição, corte de cabelo moderno e relógios, brincos e outras jóias de alto custo. Seu poder escancarado através de informações sem-palavras mostra claramente existir uma classe estudantil bem diferente da outra; de uma desconsiderada desde o nascimento.

Frequentemente, o grupo, através de gritarias em público, de algumas pedradas medrosas e cuidadosas, ataca o pobre policial que pertence à classe que, hipocritamente, os líderes, do lado de cima do limite, afirmam defender. Esta é a luta de classe deles: através de ações dificílimas, perigosíssimas, (jogar pedrinhas nos inimigos sonolentos) carregadas de emoções intensas, alcançar um mundo melhor ainda para eles, ou seja, o paraíso para um grupo especial e escolhido desde o nascimento.

Durante essas lutas coletivas, desordenadas e cômicas, transformadas em exibição teatral na praça pública, jovens fantasiados, tendo as caras pintadas com esmero, com roupas típicas plantadas em desejos inconfessáveis de cada um, gritam, por instantes, com muita raiva, enquanto esperam a hora de ir jantar e beber no restaurante limpo, chique e caro, onde os pobres não entram.

Ninguém sabe com clareza o que se pretende, a favor de quê e contra quê se luta. Todos sabem que há um protesto contra alguma coisa; rebelam-se, talvez, contra eles mesmos, pelas prerrogativas que uns poucos têm sobre a maioria, pelo poder que detém, pela arrogância de um lado e a humildade do outro. Reclama-se contra o atual em todas as áreas. Tudo está errado! Exige-se um futuro melhor.

Entretanto, o que é este futuro melhor? Nenhum deles sabe, nem nós, os mais velhos. Tudo é vago, distante demais, impossível de ser até mesmo imaginado, representado e muito menos verbalizado; a única coisa que eles sabem fazer. Ninguém consegue definir o que se quer, nem mesmo os líderes dos movimentos. Quase sempre a maioria deles fez – ou faz – parte e defendeu, com o mesmo vigor, o “outro lado”, o lado do “estabelecido”; o agora “combatido” com veemência.

Este mundo imaginário e buscado, principalmente pelos jovens sonhadores e rebeldes, é nebuloso. Se não se conhece o fim desejado, logicamente, não será possível saber que instrumentos usaremos para alcançá-lo. Provavelmente o que eles mais desejam é o retorno ao mundo antigo, calmo e ordeiro, sem lutas, com nudez e frutinhas naturais para serem saboreadas ao som singelo de harpas celestiais.

Lamentavelmente, os jovens são, ao mesmo tempo, apaixonados pelo mundo natural e atraídos pelo moderno, pelo desperdício do dinheiro na compra dos aparelhos de som e imagem ultra-sofisticados, pelo uso das últimas novidades em bebidas e drogas colocadas no mercado; tudo isso não tão natural assim.

Muitos discursos, artigos e livros dirigidos aos jovens buscam despertar crenças antigas, plantadas firmemente pelos pais quando eles eram crianças muito novas. Nós todos as temos. Essas histórias falam acerca de um mundo imaginário ordeiro, cheio de homens bons e honestos, igualdade e liberdade e direitos para todos.

Infelizmente esses ensinamentos existem nos discursos, nas teorias, mas nunca foram observados em nenhuma parte do mundo; essas pregações são mentirosas. Nossos pais as ouviram de seus pais e, de boca em boca, a história, teimosamente, continua a comandar nossas tolas cabeças. Este mundo imaginado nunca existiu e nem existirá. A juventude que procura alcançar essa utopia ainda acredita nela, mas, à medida que se torna adulto, o sonho vai desaparecendo.

Os jovens têm pavor de se transformarem em adultos; perceberem que o aprendido através das crenças defendidas com ardor não retrata a realidade vivida. Crescer para a juventude significa tornar-se igual aos pais, ao governo, assumir seu lugar nessa bagunça total, na farsa e corrupção desse estranho mundo habitado por anjos e demônios; metade céu, metade inferno.

Talvez o sonho máximo desse grupo seja viajar para o paraíso; caso o combustível não desse, pelo menos até Marte, no novo ônibus espacial a ser construído; talvez, quem sabe, na nave dos Ets. Para fazer essa viagem fantástica, “numa boa”, “de repente”, “com certeza”, “né” e junto com toda a patota, todos vestiriam um uniforme superchique (como o brasileiro que deu um passeio na nave) e moderninho.

Mas, quando lá chegassem, prontamente, eles iriam se despir. Após cada um “ficar” rapidamente com o outro ou a outra, eles comeriam, abraçados, as frutinhas celestiais distribuídas por São Pedro, dançando e cantando, diante do som “louco” produzido por uma banda supermoderna; evidentemente após o consumo inebriante de cogumelos, coca, maconha e outras plantas do pomar celestial.

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