O Organismo/Fábrica e os Genes

São nossos genes, recebidos durante a fecundação, que determinam, de modo preciso, o funcionamento e a forma dos circuitos prontos para operar já no nascimento (tronco cerebral, hipotálamo e outros); uma fiação neuronal que interliga regiões do corpo, tubos onde circulam nutrientes (sangue, linfa, líquido cefalorraquidiano etc.). De outro modo, os genes são os materiais usados no levantamento da construção da fábrica, bem como a maneira que eles precisam ser arrumados ou organizados para formar a fábrica final (recém-nascido) existente no projeto imaginado pelos arquitetos, engenheiros e pessoal encarregado (a evolução).

Por outro lado, também, são os genes que propiciam a possibilidade do crescimento ou desenvolvimento de outros circuitos (outras linhas de ligações pós-nascimento) que ainda não estavam formados no nascimento, virtualmente, todos os sistemas regionais que sofrem modificações continuadas em virtude das experiências. Para que haja esse desenvolvimento torna-se necessário que o organismo seja ativado à medida que a pessoa interage ou relaciona-se com determinados ambientes físicos e sociais. Este crescimento se realiza com a ajuda da produção de neurotransmissores (dopamina, noradrenalina, serotonina, acetilcolina etc.) liberados em regiões dos córtices cerebrais e dos núcleos subcorticais.

É bem conhecido que a musculatura corporal irá aumentar somente se seu possuidor a usar, exercitando esse ou aquele músculo; também sabemos que a nossa fala, que parece tão natural, só acontecerá se o menino for estimulado pela fala de seus criadores. Um menino normal não irá aprender a falar se viver num conjunto composto apenas de pais surdos-mudos. Também, aprende-se a ler se esse hábito for estimulado.

Desse modo, podemos afirmar que os genes coordenam e preparam a estrutura cerebral inicial e precisa para trabalhar de mãos dadas com a outra estrutura que ainda vai ser construída; uma edificação que dependerá da maneira de viver do construtor. Assim, o edifício final dependerá da ação dos elementos:

  1. estrutura exata de seus componentes iniciais (tijolos, cimento, areia, água, fiações, ferragens etc.)
  2. atividade particular de cada indivíduo/fábrica e das circunstâncias do meio ambiente enfrentadas

A construção final erigida – a examinada num certo momento – dependerá da boa estrutura inicial do organismo, do ambiente humano e físico encontrado, das ações tomadas diante de tudo isso, mas, também, muito do acaso. O perfil imprevisível – aleatório – das experiências singulares de cada indivíduo/fábrica durante sua vida tem realmente uma fantástica importância na construção final da grande fábrica/organismo tanto direta como indiretamente.

Qualquer leitor se lembra que, por um acaso, ele encontrou uma pessoa que iniciou uma mudança em sua vida; por uma acaso fez uma viagem e sofreu um acidente que mudou tudo; por azar, foi ao cinema e lá conheceu Joana ou Pedro que acabou com sua paz. Também por acaso conversou com um professor que lhe falou certas coisas, que, por sua vez, fizeram uma grande virada em seus planos.

Cada leitor tem sua história particular; recupere-a por instantes e veja se tenho ou não razão de dar tanta importância aos acasos da vida. Lembre-se bastante, principalmente daquele dia que você virou outra pessoa a partir de um fato que poderia não ter acontecido.

Através das experiências do organismo no meio ambiente, os circuitos inatos serão estimulados; estes, por sua vez, irão estimular a construção dos novos circuitos cerebrais na parte mais “elevada” do cérebro. De outro modo, a partir de um mecanismo “pré-organizado”, existente no nascimento, desse projeto ou esboço inicial, é fabricado, sempre se transformando, o ser humano adulto e individual, para que ele possa sobreviver de maneira eficiente.

Para que ocorra um desenvolvimento satisfatório e bem adaptado é necessário que o conjunto de elementos que concorrem para a atividade ou funcionamento dessa estrutura orgânica – o projeto inicial ou pré-homem – esteja ligado, em sintonia, com o “mecanismo” existente no meio ambiente sócio-cultural; necessita um “bom acoplamento”, uma boa ligação do organismo com o meio exterior formando um único conjunto.

A importância da adaptabilidade de cada organismo individual ao “nicho” ou meio ambiente onde ele está inserido (cada macaco em seu galho) não é apenas para efeito da regulação biológica básica da pessoa. É esse acoplamento que permitirá o ser humano classificar, valorizar e interpretar adequadamente os fatos ou os fenômenos vivenciados conforme o meio ambiente vivido. É através desse meio que cada indivíduo aprenderá a rotular, avaliar, compreender a si mesmo e o mundo que o circunda, de maneira mais ou menos adequada à realidade existente, ficando melhor ou pior adaptado.

O organismo já tem preparado ao nascer um conjunto de preferências, critérios, tendências, julgamentos ou valores que, dependendo do meio ambiente, poderão ser ou não desenvolvidos, e mesmo modificados com o tempo e a experiência. O repertório das coisas boas e más vai crescendo com o desenvolvimento da pessoa, bem como a capacidade de detectar novas situações ou fatos atraentes ou repugnantes.

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