O Filhote de Pardal e os Sistemas Emocionais Inatos

Imagem - Filhote de Pardal

Um filhote de pardal, sem capacidade para voar e sem nunca ter tido contato com ser humano algum, caiu do ninho existente no terraço onde moro. Condoído pelos seus piados irritantes, percebendo a incompetência dele para dar uma solução a sua “queda do céu/ninho”, imaginei salvá-lo. Com extremo cuidado fui me aproximando do pardal, com as melhores intenções; estou falando a verdade, meu caro leitor. Entretanto, o filhote, que nunca vira ninguém, fugiu como pôde para um e outro canto do terraço tentando se esconder; ele ainda não era capaz de voar. Se por um lado eu pretendia e tentava ajudá-lo, por outro, o pardal se sentia ameaçado e cheio de medo. Após algum tempo, sem conseguir pegá-lo, desisti da empreitada. ‘

Sabemos que um passarinho no alto do ninho, que nunca viu outro pássaro, a não ser a sua criadora, não precisa conhecer por experiência própria que a presença de uma águia constitui um risco para ele, do mesmo modo que o pardal do meu terraço. Também Gustavo, logo que nasceu, sem nenhuma dificuldade, ao ser colocado junto a sua mãe, abriu a boca para engolir um pouco de leite morno dos enormes seios de D. Deolinda. Gustavo chorou, vertendo lágrimas e fazendo uma barulhada terrível diante da fralda molhada e, ao sentir dor de barriga, gritou socorro novamente. Além disso, sua respiração estava normal, dormia naturalmente, seu coração, bem como sua cor, estavam normais, urinava, defecava e fazia movimentos variados sem problemas.

Os sistemas ou centros emocionais existentes no organismo ao nascer foram estruturados pela história ou vida das espécies. Esses receberam também os nomes de sistemas primários ou emocional-motivacionais. A função desse sistema, ao fazer uso do conhecimento chamado puro, inato, direto ou sem-palavras, é detectar ou sinalizar situações concretas e específicas que estão ocorrendo fora ou dentro dos organismos capazes de provocar emoções e ações variando de intensidades muito grandes a mínimas, algumas agradáveis e outras desagradáveis.

O passarinho, sem conhecimento anterior próprio, reage à águia com alarme, geralmente tentando esconder a cabeça, devido à informação genética inscrita em sua espécie e essencial para sua sobrevivência; do mesmo modo que o filhote de pardal fez diante de minha presença e Gustavo fez ao ver a cara de seu pai decepcionado com sua feiúra. Nós, seres humanos, como Gustavo, diante dos seios de sua mãe, também temos ao nascer informações semelhantes relacionadas aos perigos e aos prazeres, entre outros, o seio cheio de leite de nossa mãe.

Portanto, algumas, apenas algumas, atividades de um passarinho e de Gustavo, incluindo a conduta do medo e de voar, ou de ficar só, são primeiramente guiadas pelas informações codificadas nos genes. Mais tarde, outras informações são aprendidas diante do contato do animal jovem com outros mais experientes da mesma espécie, isto é, ele desenvolve outras habilidades através de entradas sensoriais vindas do meio ambiente, ou seja, do aprendido após o nascimento.

Gustavo e outras crianças de três semanas riem diante do rosto do adulto e mostram “raiva” diante de uma dor na oitava semana de vida; também exibem “raiva” perante restrições impostas pelo criador. Todas as crianças assim o fazem, como o passarinho, devido às informações genéticas (inatas). Somente pouco a pouco, com o desenvolvimento do córtex cerebral, outra aprendizagem se desenvolve.

Nesse confronto de informações genéticas e condições específicas do meio ambiente, a criança, sem dúvida, usará e processará as informações recebidas do meio ambiente externo e interno de duas fontes: dos genes e do setor subcortical e, mais tarde, do aprendido após o nascimento devido ao meio ambiente externo. Em resumo: as regiões já prontas ao nascer, subcorticais, somadas às plásticas (capazes de serem moldadas) dos córtices cerebrais são capazes de desencadear as emoções inatas e aprendidas uma vez ativadas.

A atividade chamada de “resposta emocional”, como fez o filhote de pardal, orientará o organismo para uma conduta viável para si, na sua procura pela adaptação, pela harmonia interna, isto é, no esforço do indivíduo para administrar as perturbações ocorridas no seu interior, ou seja, na sua busca pela homeostase, provocada ou não por estímulos externos.

A criança, logo após o nascimento, detecta, externamente, padrões de luz, linhas, sons e outros estímulos vindos do ambiente, e internamente são disparadas ou produzidas mudanças neuroquímicas processadas no organismo. O organismo luta, continuadamente, pela conservação do equilíbrio de seus constituintes, de suas funções, da preservação de seus mecanismos internos, ou seja, pela sua homeostase ou equilíbrio interno.

Um organismo, do adulto ou da criança, experimentará mudanças internas ao enfrentar situações do meio ambiente externo e interno, que, como tudo, se encontra também em constantes transformações. Esse desequilíbrio do organismo, geralmente passageiro, produzirá, continuadamente, ativações dos padrões de estimulação de emoções mediadas subcorticalmente (abaixo do córtex). Este fenômeno, no seu modo mais imediato e simples, não exige a representação do que está ocorrendo em nossa consciência, utilização da memória ou dos processos de comparação, tanto no adulto como na criança. No caso específico dos recém-nascidos, nestes, os processos cognitivos de comparação e o uso de memória ainda não podem ser utilizados, pois, como sabemos, ainda não foram desenvolvidos. Nada mais idiota que descobrir “memórias” da vida no útero, pior ainda, de vidas passadas, através de um cérebro que, ao nascer, não desenvolveu ou armazenou memória alguma aprendida; a única “memória” existente é a comum a todos os organismos da espécie e não uma particular de Alberto, Maria e Teresa.

Um rato recém-nascido, bem como uma criança e um passarinho recém-nascidos, apresentam, portanto, um sistema nervoso apropriado (circuitos neuronais) capaz de produzir condutas adequadas para facilitar a sobrevida deles; por exemplo, procurar ligar-se a um outro indivíduo da mesma espécie e mais adulto para criá-lo, procurar alimento, fornecer sinais diante do sofrimento etc. Os circuitos ligados às emoções são geneticamente prefixados ou preestabelecidos e designados para responderem, incondicionalmente, isto é, sem experiência, ou seja, sem aprendizado, aos estímulos provocados por diversas circunstâncias e mudanças do meio ambiente. De outro modo, os animais, como nós, reagem, automaticamente, diante de informações detectadas do meio interno e externo, principalmente as inesperadas, perigosas ou muito atraentes. Vista da perspectiva evolucionária o medo é central para a sobrevivência do pardal (e todas as aves) do terraço e para todos os mamíferos desse planeta.

Do mesmo modo: José, hoje, levantou-se irritado. Não posso imaginar o que está acontecendo com ele; ontem cedo notei que ele estava triste; mas à noite estava alegre. O que sei é que José sempre foi um sujeito tímido e cabisbaixo; por qualquer motivo fica vermelho de vergonha. Sua mãe, Feliciana, é uma mulher tristonha, seu pai, Raimundo, é um raivoso crônico.

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