O Dilema de Jonas

Imagem - O Dilema

O complexo nada mais é que um conjunto de coisas simples. Pois bem, Jonas encontrou Linda, pela primeira vez, na festa de aniversário do sobrinho. Até aí um fato muito simples. Ao passar, esguia, com seus olhos cor de mel, brilhantes e atentos, Jonas ficou dominado pela sua presença. Parou por instante a animada conversa que mantinha com o grupo de amigos, fitando-a. Em seguida, procurou Madalena, sua irmã e colega de Linda, pedindo-a para apresentá-la a ele. Um agradável bate-papo foi iniciado entre os dois. Jonas estava encantado com Linda. Ela possuía uma pele lisa, ligeiramente rósea; não chamava a atenção pela beleza, mas sim pela simpatia e alegria constante. Era uma mulher que prendia os homens pelo seu modo de ser, uma maneira interna que não sabemos definir. Jonas, como um cão atrás da cadela no cio, perseguia Linda em todos os lugares. Ele aproveitava qualquer oportunidade para aproximar-se mais, conversar qualquer coisa, fazer gentilezas, brincar, em resumo, agarrar-se a ela.

Um primeiro encontro, para o dia seguinte, foi marcado. O namoro começou cheio de entusiasmo dos dois lados. Jonas, como ocorre em todas as paixões, acreditou ser Linda a mulher dos seus sonhos. Para si mesmo dizia: “Linda tem tudo que quero; com essa eu me caso”.

Encontro vai, encontro vem, o tempo foi passando. Maldito tempo e contatos que nos revelam detalhes, filigranas que não podíamos ver num encontro rápido e superficial. Aos poucos, virtudes visíveis e encantadoras de Linda começaram a ser examinadas de perto, através de olhos mais críticos e, também, menos apaixonados. Aos poucos, alguns atributos de Linda, avaliados, no período da paixão, como positivos, se transformaram em negativos. Seu encantador sorriso, seus cabelos claros, seu pescoço comprido de girafa, tudo isso e muito mais, no início do namoro foram classificados como belo, simpático e atraente, mas, depois, ao perder o encanto, se transformaram em características negativas e aversivas.

Essa nova maneira de Jonas avaliar Linda, nos diversos detalhes, foi provocada, fundamentalmente, por um fato pequeno e singelo, que podia ser sem importância, nem mesmo aparecer em sua mente. A característica chave ou principal, que podia nem ter sido notada, ou até considerada positiva, foi a que provocou a atenção, a preocupação e a emoção negativa continuada de Jonas. A cada dia mais, após cada encontro, ele notava ou imaginava, não sei bem, que ela era muito desinibida, extrovertida e fácil de se relacionar. Jonas, vendo-a falante e alegre, teve medo de perdê-la. Essa descoberta ou criação de Jonas, fruto de sua grande desconfiança nela e pouca confiança em si mesmo, contaminou diversos outros pensamentos seus, transformando a idéia central que ele tinha dela.

Jonas, obcecado pela maldita suspeita da extroversão exagerada – que poderia nem ter existido ou ser sem importância – pensava sem parar nos possíveis riscos que corria. A suspeita foi dominando seus pensamentos, impedindo a entrada de outras hipóteses diferentes e melhores que a principal. Uma vez aceita a categorização “desinibida” para a namorada, sua mente estimulada pelo câncer maligno adquirido deu origem a metástases, todas elas interligadas à suspeita básica e dominante: “Se Linda é desinibida, isto é, pouco tímida, ela, consequentemente, sorri diante e para outros homens. Também, sendo muito alegre e amável, ela, consequentemente, conversa facilmente com as pessoas. Se ela se abre com sorrisos e conversas com outras pessoas, e entre essas pessoas estão outros homens, essa conduta facilita a aproximação deles. Uma vez mais próximos, um ou mais deles – como ela é muito atraente – sem dúvida, poderá, caso tenha habilidade e simpatia, agradá-la e conquistá-la. Ora, como tudo isso é possível e muito lógico, ela, possivelmente, na minha ausência, poderá encontrar-se, ou já se encontrou, com outros rapazes sem meu conhecimento. Posso concluir que é provável que devo estar sendo traído por Linda com um ou com vários rapazes. Tudo isso é terrível! Sou um chifrudo e não sabia”.

Jonas, a partir dessa cadeia de suposições derivadas de uma suposição (crença) inicial incerta, acreditando na hipótese, sem examiná-la e sem questioná-la, desesperou-se à medida que seu raciocínio e sua lógica levaram-no a imaginar que Linda estava envolvida com outros possíveis namorados, ou seja, lhe traindo. A mulher de seus sonhos, para ele, era um pouco, talvez muito, “pra frente”, extrovertida demais, fácil de ser conquistada. Emocionado com seus próprios julgamentos, chegou a uma terrível conclusão: “Linda, minha namorada, é uma ‘piranha’. A partir desse maldito diagnóstico ele entrou em pânico.

Mas Jonas podia estar errado quanto à crença que deu origem a todo o raciocínio, bem como estar errado quando à forma com que elaborou seu pensamento. Interessante em tudo isso é que, ao mesmo tempo em que ele a acusava interna e emocionalmente, torcia para que ele próprio estivesse errado. Entretanto, sua cabeça desconfiada de mineiro lhe fornecia mais e mais suposições e possíveis dados que aumentavam suas dúvidas quanto ao comportamento íntegro de sua amada. Foi assim, munido dessa ferramenta mental deturpada, que ele observava e julgava a conduta da namorada, ou seja, sua mente, tendo como lanterna as suspeitas, focalizava suas observações somente nesse ângulo. Um simples sorriso de Linda, que antes da suspeita era julgado como uma forma de alegria, digno de elogio, agora, após a desconfiança, passou a ser julgado como sinal evidente de traição, e, consequentemente, risco de ficar sem ela.

Entretanto, talvez lamentavelmente, vários atributos físicos, emocionais e cognitivos de Linda continuavam a atrair Jonas, produzindo dúvida e um grande sofrimento. De um lado, havia uma forte atração e desejo por ela, levando-o a desejar estar sempre juntos; de outro lado, existia uma aversão, o risco e a vergonha que ela poderia trazer para ele.

Para complicar tudo isso, algumas características que Jonas criticava em Linda – a desinibição ou extroversão – eram, ao mesmo tempo, o que o atraía e o encantava. Assim, Jonas era atraído pelas mulheres desinibidas, alegres, sorridentes e ativas, mas, também, tinha pavor de casar-se com uma mulher muito livre e capaz de se entrosar facilmente com todos, ou seja, uma mulher classificada intimamente por ele, durante sua raiva, de “piranha”.

Ele, por um lado, estava preso e apaixonado pela Linda concreta e única, possível de ser observada. Por outro lado, tinha horror ao conceito “piranha”, um conceito que ele próprio havia fabricado para ela. O conceito “piranha”, como todo conceito – generalização de certas condutas concretas – não pode ser observado e testado pelos órgãos dos sentidos. Ele é somente uma criação do nosso intelecto, não uma percepção dos órgãos sensoriais. Diante dessa confusão mental surgida entre o observado e o construído e não-observável, Jonas não sabia que direção tomar. As condutas (sorriso, formato do nariz, cor da pele, olhos etc.) de Linda foram observadas, mas o nome usado para reunir tudo numa abstração – um conceito organizador – não pode ser observado, pois isso é impossível. Desse modo não podemos provar ou negar empiricamente – com fatos observáveis – a “piranhice” de Linda. Jonas não sabia o que fazer. Ir ou não ir em frente, continuar ou acabar com o namoro?

Jonas imaginou duas saídas: a primeira seria desistir de Linda. Esse pensamento lhe era muito doloroso; ele não conseguiria viver sem sua presença. A segunda opção era aceitá-la com todos os seus predicados e engolir ao mesmo tempo a semente e a casca. Mas como seria seu futuro?

Jonas sofria. Passava as noites pensando no seu problema e nas soluções; emagreceu seis quilos; entrara num beco sem saída. Desolado, refletia choramingando: “Se tentar esquecer Linda, irei perder o que me faz ficar feliz, mas, se me caso, terei de conviver com seu “defeito”, fazer uma aliança com o indesejável, hospedar um vírus que me destruirá”.

Sem encontrar uma solução satisfatória por si só, após muito pensar, ele decidiu pedir conselhos aos amigos e, também, aos padres, pastores e conselheiros espirituais das igrejas frequentadas. Após diversas discussões com os mentores espirituais, foi estabelecida uma tentativa de solução.

Aconselharam-no a não se modificar para adaptar-se à Linda existente conforme sua categorização, mas sim, pressionar Linda para ajustar-se aos seus princípios e desejos, pois, segundo os conselheiros, suas normas eram as certas. Em resumo: ela deveria se transformar e ele se esforçar para que ela mudasse sua forma de se comportar.

O objetivo era claro: transformar Linda numa pessoa mais inibida ou, segundo seu rótulo, menos “piranha”, numa mulher mais santa, ou, de outro modo, dominada mais pela razão que pelas emoções. A meta imaginada parecia simples; ele sabia, claro como água, o que desejava de Linda. Segundo suas previsões, bem como a dos amigos/conselheiros, ela, uma vez modificada – transformada de desinibida em inibida – seria amada sem restrições por ele, o conflito estaria encerrado e, logo, suas preocupações terminariam.

Jonas, confiante e revigorado, iniciou seu trabalho de catequização. Para isso usou algumas técnicas conhecidas: algumas aprendidas na própria família, outras fora do meio familiar, entre essas ele usou as recriminações, pedidos, exigência de submissão, conversa “lógica”, agressão verbal, estratégicas sofisticadas de manipulação, ida ao “pai de santo”, e ajuda das “sensitivas” e tudo o mais, conforme o ensinado pelos amigos. Cada uma das táticas imaginadas para mudá-la, dentro da estratégia, foram usadas e examinadas com avaliações constantes do processo usado e dos resultados obtidos em cada etapa. Tudo estava sendo avaliado também para se adequar aos valores dele e da família.

Milagrosamente, como num passe de mágica, Linda deixou de ser desinibida; para Jonas, “piranha”. Aos poucos ela foi ficando mais calada e mais tímida, passiva, menos comunicativa e quase sem sorrir. Jonas, radiante com o sucesso do tratamento, iniciou planos para o casamento. Mas, como disse o poeta: “todo começo tem seu encanto”. As relações de Jonas e Linda não fugiram à regra.

Jonas, que ficou inicialmente encantado com o sucesso de sua terapia, com a nova Linda que emergiu, lamentavelmente, teve sua alegria diminuída, não porque a terapia tenha parado de funcionar, mas porque o tratamento transformou-a numa pessoa bastante diferente da Linda amada e adorada por Jonas. À medida que ela foi se transformando, deixou de ser a antiga, a conhecida e amada. Linda tornou-se uma outra, a não-conhecida, também, a não amada.

Assim termina nossa história: não demorou muito para que Jonas começasse a ter saudades da antiga Linda, aquela que morreu assassinada por ele e seu grupo, a alegre, desinibida, pra frente, talvez, até “piranha”.

A nova Linda, nascida da antiga, a partir do “tratamento” utilizado, nada tinha a ver com a sedutora e encantadora jovem. Ao contrário da anterior, ela era insossa, pura demais, chata, orgulhosa, andava encurvada devido a sua arrogância e orgulho por não ser pecadora. Jonas, por mais que tentasse, não mais conseguiu enxergar na atual Linda a outra que ele tanto amara.

Sem mais se sentir atraído e, também, sem suspeitas de estar sendo traído, Jonas, desolado, decidiu fazer nova tentativa. Iniciou uma nova terapia para reverter o quadro existente, ou seja, transformá-la de novo na Linda da festa do aniversário do sobrinho, a antítese da atual. Ele estava inconsolável com a perda. Não imaginava como era bom conviver com a “piranha” que ele tanto agrediu. Era dela que ele gostava. Por azar, a terapia não deu resultado. Linda continuou a ser inibida e “não-piranha”, para sempre. A relação amorosa entre os dois terminou fria como as noites de junho.

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