Normopatas: A chatura dos Homens Normais

Imagem - Normopatas - Homens normais

O Estado, bem como a religião e a lei, não só defendem, como também exaltam a conduta conformista, ordeira, sem erros, pró-social ou “santa” dos cidadãos. Para esses pastores de ovelhas, todos nós deveríamos nos esforçar e nos sacrificar para atingirmos o ideal supremo: a santidade. Não resta dúvida que caso esse milagre acontecesse o país viveria em paz e ninguém faria reclamações ou exigências para os governantes, que desse modo poderiam “deitar e rolar”; isso é tudo que todo governo quer. Entretanto, haveria, como efeito colateral da santidade do povo, a estagnação social. A sociedade se transforma e melhora porque há os insatisfeitos, os rebeldes e críticos crônicos. Em resumo, a cultura aprisionada ao modelo ético-religioso fez nascer o mito – inexistente – do homem santo, conformado, perfeito e sem reclamações.

A população sofredora e explorada corre atrás desse ideal mítico defendido pelos líderes e, de provações em provações, caminha em direção ao pregado pelos mais poderosos. Concretamente, desde cedo, somos ensinados a nunca reclamar dos bondosos chefes, pais, tios, avós, professores; a pagar pontualmente nossas dívidas, mesmos quando percebemos que fomos explorados; jamais sonegar o imposto de renda, IPTU, Copasa ou Cemig; chegar na hora certa ao médico, dentista e outros profissionais, mesmo quando eles jamais chegam à hora marcada; “tomar à benção” a todas as autoridades; não faltar ao serviço ou às aulas; saber de cor o hino nacional; ler a Bíblia diariamente; ir à missa, pelo menos uma vez na semana; não ter sexo a não ser após o casamento e, mesmo assim, para procriar; orar ou rezar todos os dias para agradecer a Deus, mesmo quando estivermos passando fome, endividados, com o filho doente ou atropelado; ajudar os necessitados em quaisquer circunstâncias e muitos outros deveres do bom filho, bom cristão ou do bom cidadão.

Alguns felizardos recebem prêmios, ganham medalhas, lugares de destaque no quadro de honra da escola ou da empresa por serem corretos, cumpridores do dever durante anos e anos. Os premiadores, muitas vezes, não são tão fanáticos com respeito à honestidade e à vida cristã pregada, isto é, não são tão crédulos como o premiado.

Dentro do grupo de normopatas poder-se-ia colocar alguns terapeutas-analistas que sempre me chamaram a atenção por ser tão normais. Esses homens “super-sãos” não mais riem, nem choram, não têm alegrias, nem tristezas, não agridem e não são agredidos, não têm família, nem história, em resumo, eles erradicaram, para sempre, as emoções humanas de suas vidas, bem como suas relações e problemas pessoais. Eles atingiram o Nirvana; o desejado por todos os esperançosos em alcançar o paraíso. Para esse grupo, conforme seu modelo de saúde, as emoções são negativas e somente apropriadas aos “doentes” ou animais irracionais; uma idéia existente na Igreja há 500 anos atrás quando foi proibido o riso. Eles conhecem, como ninguém, o limite entre os desajustados e os “perfeitos”. Por tudo isso, sempre tive uma enorme admiração e, por que não, inveja dos analistas.

Um cliente contou-me que, numa análise a que se submetia, questionou o analista pela sua falta de emoção, participação e espontaneidade nas discussões, exatamente o que ele dizia ser o desejado. Sua resposta foi um silêncio profundo e continuado, demonstrando, talvez, a idiotice da pergunta e, por isso mesmo, não ser merecedora da mente elevada do analista. Este, por certo, havia perdido sua espontaneidade ao entrar no mundo dos intocáveis.

Muitos psicólogos e psiquiatras assimilaram a crença do santo idealizado e a incorporaram em suas teorias e tratados psico-religiosos. Embutidos nesta idéia, alguns profissionais criaram o mito/modelo do homem de Saúde Mental Perfeita (SMP ou Sanista) ou, de maneira mais resumida, o normopata, na carona dos santos imaginados pelas elites; uma teoria mítica acerca da saúde mental total. Segundo a teoria – ou utopia – alguns privilegiados, após longos anos de análises realizadas sob a supervisão de profissionais santificados pelos “poderosos chefões”, poderiam, caso agissem conforme as normas da seita, serem escolhidos como candidatos a santos e, nesse caso, seriam reconhecidos pelo grupo como possuidores de saúde mental acima do povão. O candidato a santo, sob juramento, seguiria o artigo primeiro e único: “O importante não é tanto a conduta, na qual se pode praticar loucuras, mas a adesão ao dogma, onde nenhuma loucura é permitida”.

Uma vez alcançado o estado de graça existente entre os membros da seita, todos gozarão a paz completa. A partir da santificação, os escolhidos e catequizados não mais serão atingidos pelas emoções perturbadoras e incômodas do dia-a-dia que amedrontam e exasperam os simples, não-aceitos, não-analisados e estranhos ao grupo.

Exige-se dos candidatos a santos provações continuadas através de longos, penosos e custosos “ritos de passagem”. Os iniciantes serão tratados, inicialmente, como “pacientes” ordinários, sem regalias. Em seguida, ano após ano, enfrentarão provações a critério do analista. As provações serão aplicadas dentro do limite do tolerável, como têm sido relatadas nos romances hagiográficos/confessionais, isto é, sobre a vida dos santos. O objetivo final é testar a capacidade do candidato para suportar cargas pesadas e humilhantes. Concretamente, o candidato, semanalmente, ou, se necessário, mais vezes por semana, durante anos, sem ter prazo para terminar, fará confissões penosas, minuciosas, íntimas e humilhantes, revelando para o guru, seu orientador espiritual, suas mazelas. Somente após ter ultrapassado todos os insuportáveis obstáculos – caso o candidato consiga atravessar tudo isso – e, também, pagar pontualmente o preço estipulado pelo guru/analista, inclusive suas férias, feriados, dias santos e outros dias não trabalhados do santo/analista, por motivos jamais explicados, o candidato a santo receberá sua condecoração.

A partir desse momento, o da transformação, também chamada de ressurreição, o aprendiz a santo começará a gozar das prerrogativas dos aceitos pela seita intocável e, neste caso, terá direito de aliciar e instruir os novos pretendentes a santos a atravessarem a imensa ponte que separa os normais dos sãos/santos.

Alcançando o paraíso sonhado, os escolhidos tornam-se, conforme ordena o estatuto, indivíduos superiores aos moradores comuns da Terra, ou seja, da ralé/cliente e os não-analisados. Os escolhidos e privilegiados não mais serão incomodados com os aborrecimentos triviais do dia-a-dia como acontece com os outros seres humanos.

Entretanto, como todo tratamento ou mudança tem seus efeitos colaterais, infelizmente, os santos/analistas, que não mais se preocupam com os problemas simples e desagradáveis da vida dos clientes, passam, também, a não mais ser atingidos pelas emoções agradáveis e boas existentes. Eles, chegando ao pedestal da sabedoria e da santidade, perdem tanto as emoções boas como as ruins. Uma vez insensíveis, nada mais sentirão ao ouvir o choro e desespero do cliente, nem o som melodioso de “Time to say goodbye”, como também as emoções produzidas por uma chuva pesada que cai, o sorriso de uma criança, o abraço da namorada ou a morte da mãe. Imunes aos dramas dos clientes, sem sentir mais nada, eles deixam de ser gente como agente.

2 comentários para “Normopatas: A chatura dos Homens Normais”

  1. Penso um pouco diferente do autor em relação à comparação entre normalidade e santidade. Segundo os padrões bíblicos, santidade está ligada a sanidade, razão pela qual o Antigo Testamento dizia que para o exercício do sacerdócio, o indivíduo deveria ser dotado de saúde física, moral, psicológica e espiritual.
    Além do mais, existe, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento um ministério chamado profético, o qual tem por característica questionar as estruturas de poder, as opressões, a exploração dos pobres pelos mais abastados e muitas vezes os profetas são chamados de loucos por sua postura de contestação ao status quo. Reis perseguiram profetas, como o caso de Acabe com Elias, de Manassés com Isaías(segundo a tradição, tendo mandado serrar a Isaías que estava escondido dentro de um tronco de árvore) e assim por diante.
    Mesmo homens considerados santos como Francisco de Assis, já fora do ambiente bíblico, foram chamados de loucos pela psiquiatria e no entanto exerceram influência contestadora no seio da sua sociedade.
    A própria Reforma Protestante foi e é considerada um movimento revolucionário, porque discordou do papado e de sua postura autocrática, além da administração piramidal da igreja, a qual não dava oportunidade a que cada fiel exercesse o seu sacerdócio e os seus dons. O leigo não tinha voz e nem vez no governo da igreja.
    A Reforma baseou-se no princípio da comunhão pessoal com Deus, sem a intermediação de outras entidades, senão da pessoa de Jesus Cristo. Aí, o indivíduo teria condições de viver a piedade de acordo com uma personalidade forjada pelo próprio Deus e não pelos padrões humanos.
    O apóstolo Paulo fala na sua primeira carta aos Coríntios, capítulo 1, verso 27 que Deus escolheu o que é loucura para este mundo, a fim de envergonhar o que é tido como sábio. O evangelho é uma proposta de contracultura e não de conformismo.
    O mesmo apóstolo Paulo, em Romanos, capítulo 12, verso 2 diz para não conformarmos com este presente século e sim, para nos transformarmos pela renovação da nossa mente.
    Espero que esta modesta contribuição possa ajudar um pouco mais na reflexão deste tema tão importante.

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  2. Este mau que vos dirige pouca atenção ou conhecimento, não seria nada mais que um apelo, uma agonia sobreposta, carregando de pouco em pouco, como uma ave de rapina caridosa que alimenta sua prole, todas as falhas que fedem das coisas? Onde cada tropeço, equivalente a uma alegoria de nosso curso, se daria por traz de tal sistemática aberração da alofonia do conforto, e da luta contra este inferno inequívoco.

    Especiarias que por selos de especialistas, sempre subjugadas pela configuração das honrarias da instituição da razão dominante, sendo sujeitos do comando das satisfações possíveis, dos crimes perdoáveis. Adendo como novo suporte de um sistema moderno de opressão. Onde a fugacidade da liberação torna-se impossível, frente à proximidade do lixo radioativo depositado no símbolo do paraíso.

    Uma certeza de outra conjuntura de poeira sórdida, fazendo do próprio bem estar, uma verdadeira praga, o erro seduzindo-nos a enfermidade, perfeição na artificialidade, alicerçando, uma velha fábula química de intoxicação de mediocridade.

    A natralidade da Modernidade é um riso doentio.

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