Homem: Anjo ou Demônio?

O homem é um animal “fora de série”, estranho e desadaptado. Somos isolados, mas vivemos altamente ligados uns aos outros; temos uma parte da mente (córtex cerebral) que pensa, às vezes com alguma lógica, mas, ao mesmo tempo, uma outra parte da cabeça (tronco cerebral), presa ao organismo – glândulas, órgãos, músculos – que reage instintiva, intuitiva e automaticamente aos estímulos. Portanto, somos irracionais em diversas ocasiões.

Às vezes somos bondosos, oferecemos muito de nós mesmos em benefício de nosso irmão, e, em outros momentos, assaltamos, estupramos ou matamos. Oscilamos, passando de um modo de viver cheio de alegria, esperança e fé para o mais completo desespero e ódio. Buscamos ansiosamente a ajuda médica por pequenos problemas de saúde e, muitas vezes, menosprezamos a própria vida e nos suicidamos.

Trabalhamos duramente para conseguirmos recursos visando obter casa, comida e segurança. Entretanto, ao atingirmos o desejado, passamos a comer exageradamente, acumulamos dinheiro desnecessário e arriscamos nossa vida em perigosas atividades de lazer ou trabalhamos mais que quando mal tínhamos dinheiro para a comida. Fazemos guerras para conseguirmos a paz; lutamos contra os poderosos e quando estamos no poder, quase sempre, atuamos para eliminar os de menor poder. Criticamos violentamente os torturadores e, na primeira oportunidade, passamos a agir como eles. Buscamos de todas as formas possíveis uma companhia e quando a conquistamos a achamos aborrecida e vamos atrás de outra. Censuramos a censura, e quando ela é extirpada cada grupo ideológico reclama seu retorno. Como viver bem numa “zorra” dessas?

Esses pensamentos me ocorreram ao lembrar-me de Sócrates. Conheço-o há longos anos; acho mesmo que desde criança. O nosso convívio sempre foi muito íntimo e isso me permitiu obter muitas informações a seu respeito; até mesmo elaborar algumas teorias acerca de sua vida. Apesar dessa proximidade, na maior parte das vezes, eu não o entendo e, quando suponho compreendê-lo, vejo que falhei.

Sócrates é um pesquisador sério da natureza. Lê muito, presta atenção a tudo, e armazenou, ao longo dos anos, vastos conhecimentos científicos e históricos do mundo e do homem. Entretanto, seu “radar” é muito abrangente e pouco seletivo; desse modo ele captou também crenças infundadas, superstições diversas, idéias religiosas emitidas por qualquer seita moderna da Índia ou do Amazonas. Além disso, aceita inúmeras “verdades” do senso comum. A cabeça de Sócrates é uma verdadeira salada, contendo informações desordenadas, contraditórias, pouco plausíveis e mal organizadas. Todas elas seguidas e defendidas com o mesmo vigor e entusiasmo. O resultado tem sido drástico.

Diante de tantas informações niveladas quanto ao valor, algumas sérias, outras, nem tanto, ele foi arrastado para uma profissão que lhe é imprópria e que não era a que ele sonhava; escolheu amigos inadequados ou incompetentes; casou-se com uma mulher que não lhe assentava e criou seus filhos na falsa esperança que boas intenções são suficientes para conduzir a uma boa educação. Sócrates é tão bom que não consegue fazer o bem; ele imagina que poderá estar perturbando a pessoa.

Mas Sócrates é um homem bravo, valente e teimoso. Ele continua confiante no “mapa” desajustado e confuso que foi impresso em sua mente e vai em frente. É claro que o “território” onde ele está pisando é bastante diferente do “mapa” existente em sua representação mental. Portanto, quando ele está deitado em sua cama, pensando que tudo vai bem, ao levantar-se e ao agir, ele é obrigado a perceber que o “mapa” que representa seu mundo é um, o mundo real, outro. Assim, meu grande amigo frequentemente lamenta-se para si ou para os outros: “Sou um desastrado, um sem sorte, tudo que tento dá errado”.

O modelo que construiu de si mesmo e do mundo, nesse caso, foi acrescido de mais uma crendice: “Sou um sem sorte”. Assim, Sócrates gasta parte de seu tempo lastimando-se; ele pouco utiliza os recursos e potencialidades que tem. Por tudo isso ele fracassa em diversas atividades, perde a oportunidade de obter várias satisfações e exibe ressentimento e infelicidade.

Sócrates não se emenda, pois, por mais que ele transgrida as leis da natureza e da sociedade, não modifica seu modo de pensar e agir, isto é, não aprende com a experiência vivida: mantém as mesmas explicações de seus pais, avós, bisavós…

Ele é, como disse, é um sujeito contraditório: em certas ocasiões Sócrates só cuida de si, torna-se um grande egoísta. Nesses momentos, ao ser importunado, ele agride, xinga ou, no mínimo, não ajuda ninguém. Outras vezes, porém, gasta seu tempo, que é curto, ajudando, ouvindo lamentações aborrecidas dos outros, até mesmo de pessoas que ele mal conhece ou que ele sabe que não gostam dele. Durante essa fase, ele empresta dinheiro, procura emprego e aconselha os pedintes com paciência.

A maneira de pensar de Sócrates também é estranha. Ele é economista, seu raciocínio é lógico, tanto no serviço como nos aspectos de sua vida relacionados à sua área de trabalho. Eu diria até que “lá” ele pensa matematicamente. Não há imprecisão ou idéias preconceituosas. De cada premissa elaborada, sempre bem postada, ele deduz conclusões com proposições que não contêm nenhuma dúvida; exibe clareza de pensamento produzido por uma mente lúcida e expresso sem palavras ambíguas.

Pois bem. O racional Sócrates, ao abordar outros problemas humanos, fora do seu domínio estrito, se lambuza todo. Quando aborda os temas do dia-a-dia, na política ele era “lulista” fanático, capaz de brigar durante os comícios; em religião, ele abraçou as idéias dos radicais; no amor… bem, prefiro não revelar para não espantar o leitor, e no futebol, no qual sua paixão é o Atlético, ele se torna, de repente, um perfeito animal irracional. Toda sua bela lógica mental é transformada em palpites, preconceitos, desejos, fé cega, superstições, incoerências uma após outras, deduções apressadas, hipóteses duvidosas e não comprovadas e assim por diante, de modo a envergonhar qualquer tratado elementar de lógica. Nesses momentos, o Sócrates torna-se outro ser; um homem mais animal que humano: impulsivo e emocional; não mais sabe argumentar e nem ouvir possíveis razões de seu opositor. Levanta a voz, enfurece, desafia, às vezes, parte até para as “vias de fato”.

Eu, que já conheço essas reações, o perdôo. Mas é comum, mesmo eu sendo um grande amigo dele, brigar até comigo quando se transforma em animal irracional. Depois, mais tarde, arrependido, ele retorna com a sua outra mente e eu o aceito como sempre.

Sócrates não me surpreende só nesses aspectos. Olho-o com tristeza, lamentando, para mim, como pode uma pessoa que tem uma bela inteligência, experiência, crítica e cultura ser tão preso às regras, sem nunca duvidar delas, agindo como um cordeiro às suas imposições. Levanta-se sempre à mesma hora, vai para o serviço, pelo mesmo caminho, nunca falta, chega no mesmo horário, deixa o carro no mesmo lugar. Repete no trabalho, maquinal e automaticamente, as mesmas atividades, os mesmos gestos, sorrisos, expressões e conversas, usando frases apropriadas para cada pessoa. Nada é criado, nada é diferente; parece haver dentro dele um medo à espontaneidade, um pavor em ser diferente, um culto à mesmice. Seu “computador mental” é dominado no serviço, no lazer, em tudo, uma programação repetitiva e monótona.

Mas já disse que o Sócrates espanta-me; surpreendo-me com ele, em nossas tertúlias ocasionais, principalmente após algumas cervejas bem geladas e que descem devagar. Nesses momentos aparece um novo programa no seu “computador mental”. Sócrates torna-se um indivíduo prático, criativo e com propósitos individuais. Critica com sabedoria e elegância todos os modelos humanos existentes que paralisam o homem. Sob o efeito do álcool ele cresce, abandona o automatismo, começa a filosofar, critica as “verdades” que ele, no trabalho, segue sem pensar, defende a necessidade do crescimento do indivíduo como meta principal para qualquer ser humano cuja missão fundamental seria atualizar-se. Um pouco bêbado ele põe em dúvida diversos valores geralmente seguidos inconscientemente pela multidão solitária e sem rumo. Nesse momento, ele traça planos, chegando até a executar alguns deles nos dias seguintes.

O novo Sócrates que nasce do álcool defende a necessidade de nos libertarmos dos preconceitos e das superstições, de seguirmos objetivos mais humanos e mais produtivos. Entusiasmado, acredita que dentro de nós há recursos, energia, força e coragem suficiente para transformar esse mundo injusto e massacrante, num lugar melhor para se viver. Eu chego a pensar, também em dúvida, se não seria interessante e agradável se Sócrates vivesse sempre embriagado.

Por azar e sorte, esses arroubos são, porém, rapidamente amortecidos. Fico confuso: jamais entendi Sócrates. Entretanto, após pensar um pouco, descobri que ele se parece comigo e também com todos vocês, meus caros leitores, isto é, com todos os seres humanos.

Um comentário para “Homem: Anjo ou Demônio?”

  1. Jamais entendi Sócratis. Entretanto,após pensar um pouco, descobri que ele se parece comigo.

    O Sr. é maravilhoso!!!!!!

    Um bvraço!

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