Discussão do Caso Jonas

Imagem - Decisões

A solução de um problema (tomada de uma decisão) como o descrito acima não é um procedimento simples e racional; é um processo complexo no qual a emoção, a ação e a cognição estão intimamente ligadas, cada uma influenciando as outras. Estes aspectos devem ser considerados para compreender alguém que não está agindo efetivamente, isto é, que parece estar agindo como um idiota.

A primeira avaliação da situação, chamada de primária, é a relacionada à decisão: se a situação é ou não problemática para ele. Se ela for considerada problemática – como foi descrito no caso de Jonas – parte-se para identificar e avaliar o custo associado à solução do acontecimento-problema. Para executar isso a pessoa terá que construir um modelo mental da situação global, utilizando-se das informações existentes e accessíveis na sua memória autobiográfica, isto é, seu estoque de conhecimentos. Deverá ser comparado, além do problema, as metas e os valores existentes em sua mente, verificando se há ou não uma desarmonia entre o “desejado” – o objetivo planejado – e o que está ocorrendo de fato, as circunstâncias atuais.

Esse processo de avaliação e comparação pode ser consciente, demorado e reflexivo, mas também pode ser inconsciente, automático, quente e imediato (intuitivo). Neste último caso a pessoa não sabe como ele chegou a alcançar a conclusão particular, nem formar uma avaliação da solução que seria mais acertada. Parece que a maioria dos nossos julgamentos e ações se assenta em paradigmas inconscientes (proposições, afirmações gerais, princípios, modelos, categorizações) geradores do raciocínio, quando este existe.

Uma vez que a situação foi percebida como problemática, surge uma outra avaliação, a secundária: qual o curso da ação que deverá ser efetuada para tentar controlar a situação? Largar Linda? Mudar a si mesmo? Tentar mudá-la? Quando a pessoa consegue identificar os meios capazes de resolver o problema e, caso tenha recursos pessoais ou de outras pessoas para ajudá-la na solução, a reação inicial de emoções negativas (ansiedade e estresse) é diminuída. Nesse caso a pessoa começa, provavelmente, a engajar-se no comportamento lutador e solucionador.

Se os meios apropriados de lidar com a situação não podem ser identificados facilmente, a pessoa pode reanalisar ou reavaliar conscientemente a situação. Nesse caso examina as suposições usadas para solução de problemas semelhantes e os novos recursos existentes para enfrentá-lo.

A atividade cognitiva tem sido percebida como um diálogo privado acerca da natureza da situação em que ele se encontra, seu código moral, como isto reflete sobre a sua auto-imagem etc. Estes diálogos comumente envolvem valores e objetivos a longo prazo que podem estar ou não implicados na situação imediata. Aceito Linda como ela é ou abandono-a de uma vez; ou, quem sabe, ela poderá vir a ser outra? Tais diálogos podem ser disfuncionais (insensatos), isto é, mal feitos e, como resultado, atrapalharão ainda mais os pensamentos, tornando a pessoa mais incapaz de lidar com o problema existente, pois foi criado um segundo problema: uma esquematização mal feita do problema. Ocorrendo isso a reação inicial de estresse é aumentada, e, assim, atrapalhará mais ainda o pensamento e o comportamento. Esta estratégia defeituosa é bastante comum.

Diante de um problema, como o ocorrido com Jonas, ele, num certo aspecto, prepara-se para ficar bem equipado para administrar a reação de estresse interna: soluções cognitivas para resolvê-lo: “O que fazer?”; “Que estratégias usarei?” além de buscar soluções para diminuir o sofrimento físico e psicológico: “Procuro uma ajuda?”; “De quem?”; “Tomo algum calmante?”. Ao mesmo tempo, ele prepara-se, também, para lidar “externamente”, isto é, com a situação problema, nesse caso, a mudança da maneira de agir de Linda. Estou trabalhando com a hipótese, para simplificar a discussão, que Linda, passivamente, concorda com os desejos de Jonas (o que na maioria das vezes não ocorre), pois, caso contrário, as hipóteses seriam outras, e muito mais complexas.

A maioria das pessoas, diante de um problema semelhante, envolve-se nas duas espécies de comportamentos: interno e externo. As pesquisas sugerem que as pessoas são menos eficientes para administrar seus problemas internos (emoções surgidas), que para administrar as situações problemáticas externas (fatos concretos e observáveis). Se a pessoa lida com a situação/problema, a reação estressante geralmente diminui. Entretanto, se a pessoa falha ao lidar com o problema, a idéia deste permanece em sua mente, incomodando-o constantemente: “O que vou fazer?”. O pensamento acerca de como reagir, que decisão deverá ser tomada, vem à memória a todo o momento. Jonas poderá ficar pensando em Linda, na sua característica positiva, por exemplo, sua beleza, alegria, ou seja, o que ele estará perdendo caso a abandone e, em outro momento, pensar, também, no seu defeito, “pra frente” e “piranha”, isto é, do que estará se livrando.

Quando não se sabe o que fazer, a pessoa torna-se mais tensa e nervosa e pode apresentar reações altamente disfuncionais – choro, agressão, assassinato, abandonar o trabalho etc. – as quais, posteriormente, irão exacerbar a situação-problema e têm um impacto debilitante sobre o bem-estar físico e psicológico, piorando sua capacidade para solucionar problemas, exatamente quando o problema exige uma maior habilidade.

No processo de avaliação, consciente ou reflexivo e inconsciente ou instantâneo, joga um papel central a excitação emocional. A experiência emocional nos seres humanos é frequentemente caracterizada por ser aparentemente instantânea, rápida, imediata e de natureza incontrolável. Alguns autores sugeriram que esses aspectos da emoção surgem das estruturas subcorticais, não-verbais, onde o processo informativo age automaticamente, fora da consciência. Para esses estudiosos, a cognição, ao contrário da emoção, não é eficiente para resolver problemas rápidos e, além disso, ela, na maioria das vezes, está contaminada pelas emoções. Nesse caso citado houve uma intensa atração por Linda independente das palavras usadas para descrever o sentido por Jonas e, ao mesmo tempo, uma emoção negativa provocada (fabricada) pela cognição: “Ela é uma “piranha”. Esta conclusão baseia-se em diversos princípios morais e religiosos aprendidos que a pessoa, sem querer, faz uso sem ter consciência de como ela foi construída e evocada.

Quando uma situação é interpretada como problemática e tem um custo significativo para a pessoa, há o aparecimento da reação de estresse, junto à representação desta, ou seja, de emoções desagradáveis. O aparecimento da emoção se evidencia através de mudanças fisiológicas – aumento da pressão sanguínea, respiração rápida, urgência urinária, sudorese etc. – mediada através dos sistemas neurendócrinos, os quais, no caso de emoções sentidas como negativas, são experimentadas como indesejáveis.

Tanto os componentes cognitivos como os fisiológicos das emoções criam um retorno negativo para o organismo que, por sua vez, pode ter um impacto adverso na atividade cognitiva avaliadora. Existem evidências que certas emoções (raiva, medo, ligação afetiva etc.) podem afetar aspectos diferentes da atividade processadora mental.

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