Aprisionamento do Homem

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Coitado do homem: aprisionado em si mesmo, sozinho, isolado do exterior por uma pele fina e frágil, cercado por todos os lados pelos donos do poder espalhados na natureza física, química, biológica e, principalmente, de crenças ditadas pela cultura.

Passamos boa parte do tempo fazendo queixas do meio-ambiente ou de pessoas ou grupos de pessoas. Nos nossos delírios de perseguição visualizamos um complô arquitetado por homens tiranos, juntos aos seres vivos em geral e, também, pelas almas penadas – tudo muito bem coordenado – visando a controlar nossa liberdade. Não estou exagerando, darei exemplos, todos eles escolhidos ao acaso; os não lembrados ficarão por conta dos leitores.

Não acreditam? Pois vejamos: ora é uma mosca que vem pousar no nosso nariz; ora um cão que nos observa, mostrando seus belos e pontiagudos dentes, prontos para atacar-nos. Mas não fica só nisso, pois, em seguida, recebemos o convite de formatura que exige nossa presença na turma, o telefone toca e nos obriga a correr; no interfone ouvimos a mesma frase do vendedor de gás; chega a conta do colégio para pagar, aproxima-se o Natal e temos que pensar nos presentes para dar; todos os meses lembramos das festas, passeios, aniversários dos parentes e amigos. Além disso, o forno que não mais esquenta meu sanduíche, e, também, a torneira que não pára de pingar. Mas tem também a chuva, a enchente, o terremoto lá longe, o trombadinha bem perto. Na rua, o carro disparado, pronto para matar-nos, obriga-nos a correr desajeitados e envergonhados pela submissão e medo; o trânsito que não flui, a rua esburacada e sem saída. O time perdendo, o assaltante roubando nosso sossego, às vezes, nosso sonho de tranquilidade, o frio nos obrigando a usar o agasalho feio e fedendo a mofo, o calor nos fazendo suar e dormir mal, o horrível café frio, fraco, fedorento e com formiga no fundo.

Onde buscar, nessa Babel de desgraças, forças capazes de suportar e orientar nossa vida. Deus! Oh Deus! Onde está a sonhada liberdade, a escolha individual, o livre-arbítrio? Milhares de outras forças, além dessas, nos impelem a agir de um modo e de outro e não como gostaríamos.

Estamos aprisionados a tudo isso e muito mais; a câimbra, o espirro, a tosse, o pedinte e o flanelinha, a vizinha que fala alto e canta as canções de cinquenta anos atrás, a gritaria dos meninos do colégio, o cão que ladra, a fumaça das queimadas que nos dificulta enxergar os objetivos imaginados e sonhados.

Ao envelhecer, aos poucos ou rapidamente, não sei mais, os jovens vão perdendo a ilusão plantada cedo em suas cabeças moles. Disseram-nos e nós acreditamos que éramos livres para agir como quiséssemos; uma idéia inoculada pela igreja e escola, logo que nascemos.

Cansado de ser preso à família, ao partido político, à religião, ao time de futebol, à profissão e a tudo mais, o jovem percebe que o aprendido, acerca da liberdade, era tudo mentira, nascida de uma ideologia democrática falsa, de uma religião mentirosa e hipócrita, de políticos buscando cuidar exclusivamente de seus objetivos. Ele foi enganado por todos, durante anos e, geralmente, não sabe disso.

Onde encontrar a liberdade proclamada e esperada? Os jovens agem conforme princípios falsos que os fazem felizes. Alguns, descobrindo o engodo, ficaram, ao mesmo tempo, irados por terem sido enganados, mas eram felizes quando viviam fantasiando bobagens.

Durante a juventude “Foi um sonho que findou”, como diz a letra do poeta. Alguns percebem, bem mais tarde, que a liberdade é uma balela, um conceito belo, como algumas pessoas, sem conteúdo. Imaginam, sem melhor idéia, que a inexistente liberdade foi construída pelo poder cultural para amenizar nossa infelicidade; foi fabricada, como várias outras ilusões que foram gravadas em nossos cérebros indigentes, melosos, para nos amparar e nos proteger nesse mundo confuso.

Os poderes que esmagam nosso impotente organismo vão desde a mosca que pousa, sem dar à mínima, de tempos em tempos, no velho e cansado nariz, até os decretos-leis de FHC, de Lula e seus mensalinhos, sanguessugas e dossiês, que sabemos que irão continuar até nossa morte.

Mas, além disso, os jovens foram, há muito, dominados pelos dogmas religiosos, pelas ideologias marxistas, machistas e democráticas; mais tarde, aprisionaram-se nas teorias científicas em voga, pulando de uma a outra sem parar. Corri como um burro atrás do milho inalcançável, em busca do “alimento” para as dúvidas.

Desesperado, sem melhor orientação interna, esmagado por pressões e decepções, daqui e dali, o jovem se agarra, como náufrago desesperado, à “sabedoria” dos provérbios: “macaco que mexe muito está querendo chumbo”.

As terríveis forças malignas do poder trabalham para o mesmo fim e, em bloco, tentam derrotar o fraco e isolado indivíduo; todas elas têm um aspecto em comum: mudar nosso comportamento, dirigir nossa conduta para um rumo alheio à nossa vontade. O saudoso livre-arbítrio, sem dizer adeus, desapareceu de nossa vida durante a juventude, pois, nesse período, surgem as poderosas forças do não-eu, dos que ignoram nossa difícil identidade a ser construída. Em conjunto essas poderosas forças derrotam o “euzinho” de cada um; elas lutam contra nossa consciência, impedindo-nos de alcançar nossas sonhadas metas, se é que elas são nossas, talvez foram impressas cedo em nossas cabeças. No fim da juventude já não temos mais nenhuma certeza.

Se aceitarmos a definição de poder como a “capacidade para produzir determinada ocorrência”, ou “a influência exercida por uma pessoa ou grupo sobre a conduta alheia, através de algum meio”, para ser exercido o poder necessita-se de uma força atuante – a que desencadeia a ação (a mosca e o governo). Mas precisa também de um poder geralmente passivo ou bastante submisso – adequado para sofrer a ação (o jovem ingênuo). Uma mosca não modificará a conduta de um boneco ao pousar em seu nariz; o imposto de renda, com todos os urros do leão, não conseguirá fazer com que o morto preencha sua declaração de renda.

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