A outra face da verdade

O homem, de modo geral, sendo um animal fisicamente fraco, por sorte ou azar, desenvolveu um grande cérebro. Estes dois fatores reunidos, fragilidade e cérebro grande, possivelmente, possibilitaram-no construir medidas protetoras para se defender dos milhares de perigos que o ameaçavam. Entre as diversas estratégias para se resguardar dos ataques estão as idéias mais sagazes e eficientes, ou seja, nossa criatividade intelectual.

Provavelmente, se não fosse seu grande desenvolvimento cognitivo, principalmente a aquisição da fala, o homem já teria desaparecido como espécie e, por outro lado, se fosse muito forte, não precisaria desenvolver sua cognição.

Possuindo uma inteligência diversificada e complexa, que o possibilitou aprender continuamente e passar esta aprendizagem para os seus sucessores, o homem, pouco a pouco, acumulou conhecimentos úteis e, também, inúteis; corretos ou viáveis e, outros, incorretos e inviáveis. Utilizando-se dos conhecimentos auxiliares o homem tem conseguido compreender, dominar e controlar o universo onde vive e, quando possível, sua própria vida. Entretanto, e por outro lado, usando os conhecimentos inúteis, incorretos e inviáveis, ele falha constantemente, pois o seu mapa, nesse caso, não retrata o complexo território onde ele atua.

Após ter “comido a maçã” e, em seguida, ser “expulso do paraíso”, o homem primitivo se viu livre de sua “prisão” quanto às prescrições do que fazer (do pode e não pode) da obrigatoriedade de certas condutas. Assim ele foi estimulado a pensar antes de agir e não se comportar como os animais mais inferiores: estimulou/reagiu.

Uma vez liberto da prisão “estímulo-resposta”, o novo homem pôde parar e refletir sobre si mesmo, isto é, examinar seu próprio pensamento e poder tomar consciência de si como diferente das outras coisas e de outros seres. O homem então começou a observar o mundo à sua volta e também a si próprio, a sistematizar as observações dos fatos e a categorizar fenômenos semelhantes. Desse modo o homem foi reconstruindo sua ontologia (estudo do ser em geral) no homem primitivo ainda muito rudimentar.

Aperfeiçoando suas descrições do universo, o homem edificou os primeiros esboços descritivos do meio ambiente e dele próprio, as primeiras teorias físicas e psicológicas. Seu conhecimento inicial visava à compreensão da natureza para que esta pudesse ser domada e, desse modo, aproveitada da melhor maneira possível.

O homem foi procurando soluções para diversos problemas que ocorriam no momento e, mais que isso, tentou prever ou antecipar, ao construir seus “modelos do mundo”, soluções para evitar a ocorrência de desgraças futuras.

Nessa época, possivelmente, surgiram os primeiros trapaceiros (charlatães) que se diziam capazes de “ler o futuro” do outro indivíduo através da leitura dos astros, linhas da mão, revelações divinas etc.; tudo isso lorota criada por nosso hemisfério esquerdo ficcionista.

Possivelmente, a razão principal dos esforços do homem para aumentar seu conhecimento tenha sido uma busca incessante para prevenir ou exterminar as desgraças do dia-a-dia: enchentes, escassez de alimento, seca, terremotos, doenças, agressões de animais mais eficientes e grupos humanos mais potentes etc.

O desprezo pela natureza interna (mente, espírito, alma)

Fascinado pela natureza externa a nós e tendo investido muito de sua capacidade nessa atividade, o homem abandonou, em parte, a sua própria natureza, a interna. O homem esqueceu do homem que é deslumbrado pelo exterior; essa sedução e interesse pelo mundo externo continuam até hoje; acredito que esteja aumentando.

A cada dia mais o homem se afasta dele próprio se examinado como ser natural; viemos do pó e a ele voltaremos. Nós, como a água e as rochas, bem como as bactérias, vírus, cobras, lagartos e elefantes, nascemos a partir da explosão inicial (bigue-bangue em português ou “big bang” em inglês ). Um fenômeno que ninguém se aventura a dizer o que havia antes dele. Seria o nada? Somos compostos por alguns poucos minerais (carbono, oxigênio, hidrogênio, cálcio, potássio, nitrogênio, cloro etc.). Observado como seres biológicos, o homem é semelhante, portanto, aos outros animais e mesmo aos vegetais e minerais.

Por meio de seus esforços para entender e se precaver contra os acontecimentos infelizes encontrados, o homem obteve um resultado parcial satisfatório nessa sua empreitada; entretanto, o progresso tem sido lento com respeito ao conhecimento de si mesmo, pois atarefados com os fatos externos não nos sobrou tempo para aprender um pouquinho acerca de nós mesmos: a mistura do biológico com o cultural.

Nas escolas o currículo continua a ser o das ciências Física, Biologia, Química e a língua materna. Não se estuda o homem e suas emoções, cognições e tomadas de decisões. A cada dia mais são descobertas técnicas sofisticadas para diversos campos do conhecimento do mundo exterior, entretanto, só recentemente, há aproximadamente vinte anos, houve um desenvolvimento de técnicas mais capazes de compreender como o homem pensa, sente e resolve seus problemas.

As antigas descrições do mundo e do homem precisam ser abandonadas. Em seu lugar precisa ser mostrado o novo homem descrito pelas teorias mais bem elaboradas pela neurociência.

Crenças tendenciosas invadem o espaço vazio

Não sairemos dessa possível involução que se encontram as diversas sociedades (aumento da criminalidade, guerras continuadas, aumento de uso de álcool e drogas, o terrorismo, o domínio comercial da maioria pela minoria etc.) se não mudarmos a mente atrasada e infantil existente na maioria das cabeças que ocupam todos os espaços da sociedade (lavradores, operários, professoras primárias, profissionais liberais, políticos, governadores, presidentes e reis, jovens e velhos).

Por ignorância ou maldade, muitos dirigentes e formadores de opiniões injetam uma enxurrada de bobagens nas mentes moles dos assimiladores ingênuos e semi-analfabetos. Ninguém conhece em profundidade o homem.

As inúmeras explicações popularizadas, aceitas sem discussões, há muito vêm sendo criticadas com argumentos e dados bem fundamentados; um esforço feito por um pequeno grupo de homens mais lúcidos e esclarecidos que os demais.

Para a ciência não há verdade alguma que dure uma eternidade. Apesar dessa afirmativa, muitos modelos do mundo, provadamente inadequados, construídos há centenas de anos, e inicialmente plantados em nossa mente, continuam a ser ensinados pelos pais aos filhos ou até mesmo nas escolas aos alunos, como dogmas que obrigatoriamente devem ser usados.

Os modelos científicos modernos vão, frequentemente, contra as idéias contidas nas primeiras teorias do mundo, ou seja, nas histórias contadas e passadas, de geração em geração, pelos mitos. O prejuízo desses ensinamentos, nos quais o mito não é mostrado como mito, mas sim como relato científico do universo, produz, desce cedo, uma considerável confusão na mente da criança e, pior que isso, impede a possível germinação de interpretações mais fecundas, mais justas, críticas, funcionais e bem feitas da natureza e dele próprio.

Os discursos muitas vezes não admitem a autonomia das palavras e da coisa. Eles constituem uma fala na qual não há uma distância entre a representação e o representado. São sistemas semelhantes aos elaborados pelas crianças, alguns pacientes psiquiátricos (esquizofrênicos e pacientes psicóticos deprimidos e maníacos, etc.); esses, frequentemente, não separam, em certos aspectos, a imaginação da realidade.

Algumas das crenças narradas pelos mitos são imaginadas como provenientes de divindades, entretanto, não devemos nos esquecer que as próprias divindades, os diversos deuses se desenvolveram, de um ou outro modo, (eles não são descritos da mesma forma), e são alimentados pelas construções humanas. Entretanto os relatos dos mitos são ensinados às crianças como fatos “do além”, nascidos do nada, o que é impensável de acordo com a idéia de “causa” científica.

Para este pequeno grupo que aprendeu a criticar, é evidente que só podemos pensar com nossa mente e não com outra cabeça, com nossa limitação de um organismo construído de certa forma e não de outra. Na verdade, todas as idéias do universo foram construídas e descritas por mentes humanas, contadas na nossa linguagem de homem e não na linguagem da barata, do besouro ou do hipopótamo, como não poderia ser diferente.

Discursos: sementes de mentiras

Vivemos um período de imensa irracionalidade. Há uma recusa de encarar a realidade existente, principalmente quanto às questões relacionadas ao ser humano; é mais suportável conhecer a realidade física ou química: o copo caiu e se quebrou; a água sanitária queimou minha mão. Está ocorrendo uma substituição da realidade pelo mundo imaginário; evita-se enxergar claramente as causas reais da fome, dos despreparos, das doenças que atingem os mais humildes, as responsabilidades reais do poder político e econômico são substituídas por uma responsabilidade imaginária dos Deuses bem distantes de nós.

Instaurou-se uma espécie de fobia diante das leis da natureza concebidas como susceptíveis de impedirem nossas liberdades fundamentais, notadamente nossa liberdade espiritual, pois somos, quase sempre, determinados pelos nossos genomas e pelas idéias culturais que nos foram impostas.

Portanto, desde cedo, tem-se a impressão que o homem revoltou-se contra o mundo real; ele sempre teve uma imensa atração por mitos, e tudo indica que quanto mais falsa for a narração mítica, mais seguidores fanáticos ele terá. Desgostoso com a realidade existente, o homem tem criado um fantástico mundo de idéias (de si mesmo, de sua família, de seu povo, da natureza humana em geral, de uma outra vida e dos meios para alcançá-la, do perfil dos heróis e dos criminosos, e de muito mais). O ser humano é um grande admirador da descrição abstrata e simbólica dos fatos e situações e não é muito atraído pela observação do concreto (este parece dar mais trabalho) e do possível de ser focalizado e percebido pelos órgãos dos sentidos.

O mundo foi dividido em concreto e abstrato; vivido e teórico ou pensável. Percebe-se, inúmeras vezes, que a descrição popular (e muitas vezes a científica) de uma área do mundo pouco ou nada tem a ver com o mundo real ou bem observado, isto é, frequentemente o mundo teórico não está relacionado ao mundo real ou sensível. Inventamos símbolos, enchemos o mundo deles, para descrever a realidade e as nossas ações; inventamos símbolos, também, para descrever as nossas descrições de nossas descrições e continuamos a descrever as descrições das nossas descrições nos levando ao infinito. São os símbolos que vão intermediar o real com nossa história; a tartaruga, a borboleta e o mosquito, ao contrário dos homens, reagem ao meio existente num certo momento; não precisam dos símbolos para viver, parece que vivem felizes em contato direto com a realidade. Nós, confusos com tantos símbolos, ao que tudo indica, estamos infelizes. Construímos, sem parar, outros e outros mundos simbólicos diferentes, pois sempre achamos que os novos mundos por nós criados são mais certos que os antigos.

O ser humano, há cerca de 50.000 anos, adquiriu a linguagem que antes não possuíamos, pois emitíamos grunhidos e gestos para nos comunicar uns com os outros. Através da fala passamos a categorizar, primeiramente, os nomes das coisas (fruta, bicho). Depois aprendemos a ligar uma coisa conhecida com alguma ação (fruta boa; bicho perigoso). Aos poucos fomos construímos um tipo de ‘lógica’ e de raciocínio, numa tentativa vã de tampar com a peneira a nossa irracionalidade (incoerente; insensato; não razoável; burrice numa linguagem mais clara).

A fabricação dos raciocínios ilógicos cresceu, inundou nossa mente e inflacionou as explicações possíveis acerca de fatos reais e observáveis. A partir da fala e da escrita, construímos castelos de areia (entre eles o de que o homem é racional). Essas casas de palhas (redes, estruturas) têm resistido ao tempo. Muitos desses conjuntos de idéias interligadas se apóiam em crenças explicativas ingênuas, desgastados pelo tempo acerca do homem e do seu meio ambiente (princípios, regras, modelos).

O homem, portanto, tornou-se um grande admirador da descrição abstrata e simbólica de fatos e eventos, mostrando não ser muito atraído pelo concreto, da análise, do estudo profundo do real, isto é, do possível de ser observado, esmiuçado, comprovado ou refutado, usando os órgãos sensoriais e sintetizado pela lógica e teorias científicas.

Passamos então a viver num mundo de fantasias, de ícones aqui e acolá; burramente abandonamos exatamente o que nos fornecia suporte para viver decentemente. Abandonamos nossa origem biológica, passando a viver ludibriados pelo discurso; a outra tendência ou comando do homem, sua cognição. A fala, fácil de ser fabricada, muitas vezes mentirosa, outras vezes ingênua, inundou e dominou nossas fracas e moldáveis mentes infantis; cabeças prontas para aceitarem, inconscientemente, qualquer idéia que nos desse uma aparente segurança durante a infância.

As histórias são inventadas de qualquer modo; elas não exigem disciplina e rigor. O homem, como os outros animais, procura a solução mais fácil diante de um problema; se é complicado examinar seriamente a vida, a morte, a injustiça, a doença, o início do universo e da vida, a atração sexual ou pelo alimento, por que não inventar uma interpretação qualquer que sirva para tudo? E viveram felizes para sempre.

O alimento básico por trás das ideologias políticas e religiosasdois grandes poderes que dirigem nossa vida – nada mais é que um bálsamo, um sonho, uma esperança, um alívio passageiro para o temor constante que inunda nossas cabeças inseguras; uma doença impossível de ser exterminada.

Para aliviar nossa angústia crônica os “charlatães” (os que falam muito para enganar os incautos) usam conceitos incrustados de aspectos emocionais e mágicos, impossíveis de serem bem definidos, como, por exemplo: liberdade, igualdade, amor, justiça, democracia, razão, perdão, família, tolerância, homem, capitalismo, socialismo e diversos outros. Todos esses conceitos, bem como outros, escondem intenções que não podem ser explicitadas (reveladas) acerca do poder de alguém sobre outro “alguém” mais fraco e inocente. Muitos lutam, brigam ou morrem em defesa da suposição/idéia divulgada.

O povo, uma vez contaminado e domesticado pela ideologia existente e em moda, passa a ser consumido por ela. As ideologias são exigentes; elas obrigam seu servo a seguir o prescrito, pois, do contrário, não fará mais parte do grupo dos bons e escolhidos.

Ora, nada mais perigoso que se utilizar de mitos para se adaptar à realidade vivida, acreditar mais nos mapas construídos pelas palavras que no território pisado e observado. Não somos nada de extraordinário: apenas um corpo biológico enxertado com idéias em grande parte equivocadas acerca de nós mesmos e do mundo que nos cerca.

Nesse cipoal de idéias malucas fica muito difícil separar o joio do trigo, o real do irreal. Eu, talvez como vocês, me perdi nessa imensa desordem de explicações e explicações disso e daquilo, que faz uso, em abundância, de símbolos inventados sem lastro para suportá-los.

Uma grande parte da verborréia que lemos ou ouvimos tem servido, unicamente, para nos aprisionar mais e mais na nossa colossal burrice existente desde o nascimento. Agora, mais velho, noto que percorri um meio-mundo inutilmente, tudo para nada: a maioria das idéias que imaginei serem bons instrumentos de orientação foi inventada por cabeças humanas, tão tendenciosas e angustiadas como é minha e a sua mente; por sinal pouco conhecida.

Estamos inexoravelmente ligados à burrice universal até que a morte nos desligue dela e nos retorne à natureza não-viva. Enquanto isso, através das baboseiras que não param de ser lançadas, vamos suportando todo esse lixo que despejam em nossos cérebros entupindo-os até seu limite. Até quando suportaremos tanta informação desconexa e desarrumada?

Nosso destino nos obrigou a trabalhar, do nascimento à morte, com as ações determinadas pelo nosso “cérebro executivo”. Este, por sua vez, foi construído e é coordenado por dois grandes comandos: um irracional/emocional e outro racional; de outra forma, uma região subcortical e outra cortical.

Essa última região, a cortical, que tem sido tão exaltada e admirada – agora se sabe – é controlada quase que inteiramente pelos conhecimentos subcorticais, – que já nascemos com eles – pela nossa irracionalidade ou intuições. A parte subcortical, a que aparentemente aparece menos, foi duramente criticada e tida como a parte “inferior”, a que nos envergonhava, por muitos séculos. Agora sabemos que o setor subcortical do cérebro é o que fornece a energia, o material perceptivo, o controle dos movimentos, o suporte de um modo geral para a glória e pompa do metido cérebro cortical que agia como se não dependesse do chamado “cérebro inferior”, ou, para outros, “cérebro emocional”.

Os estudos têm mostrado que a “Coordenadoria Geral” só funciona corretamente caso o cérebro chamado de “inferior”, isto é, o subcortical, esteja funcionando adequadamente, pois é este último que “alimenta” a coordenação do “superior”.

Em resumo: somos comandados muito mais pelo comando “burro” e “emocional”, que pelo chamado “inteligente” e “lógico”. Na maioria das vezes, é o comando “baixo” e ou inferior que inicia e domina as ações, enquanto isso, o chamado comando mais “elevado” e “alto” cria palavras para descrever o que o outro está fazendo, ou melhor, já fez há muito tempo. E como cria!

Um esclarecimento ao leitor

Espero que o leitor aceite naturalmente, sem se desesperar, esse comando “inferior” ou irracional (o que não pensa, nem raciocina) como fazendo parte dele. Só assim, compreendendo melhor o ser humano, vocês sofrerão menos e ficarão menos frustrados diante das inúmeras besteiras que já fizeram e farão no futuro próximo e ou distante. Por tudo isso, não se espante com certas condutas suas, geralmente descritas, após a sua realização, mais ou menos assim:

— Não sei como pude agir desse modo. Como fui bobo! Parece até que não era eu quem estava agindo.

A maioria das pessoas sabe que nossos problemas, em grande escala, originam-se da incompatibilidade entre nossos desejos e paixões de um lado, e nossos objetivos aprendidos culturalmente de outro. Por exemplo: as pessoas comem exageradamente e engordam quando não queriam; envolvem-se em relações sexuais perigosas concebendo bebês indesejados. Num e noutro caso a pessoa obedeceu a impulsos (desejos) do organismo (subcorticais) que vão contra objetivos aprendidos culturalmente (corticais ou da cognição ou teorias). A todo o momento, uma ação (comer muito) determinada por impulsos (subcorticais) é assimilada, compreendida e explicada pelos conhecimentos aprendidos (corticais), geralmente através de nossas paupérrimas intuições mal-aprendidas.

Precisamos aceitar humildemente nossa bobice, compreendê-la como sendo um atributo próprio de nossa natureza, pois só assim poderemos diminuir nossas ações tolas. Esta é a teoria que parece ser a mais adequada atualmente. Para tristeza do mundo, o “homem, animal racional” está definhando; sua morte parece estar muito próxima.

Para viver satisfatoriamente o indivíduo necessita ser capaz de entender e predizer as propriedades gerais e comportamentais da realidade do meio ambiente. Entre as características gerais desses conhecimentos estão desde as simples categorizações (“Isso é um prego”; “aquilo é uma pulga”) até as deduções (inferências) complexas (“Creio que poderei ganhar um bom dinheiro abrindo uma sorveteria nesse verão”; “Esse vegetal é venenoso.”)

O organismo de cada pessoa durante seu convívio com o meio ambiente interno e externo ganhou uma sabedoria (um aprendizado e memória) que o permitiu agir adequada e razoavelmente nas coisas práticas da vida, do contrário seria impossível viver.

Essa sabedoria intuitiva, aprendida naturalmente e sem esforço, inclui conhecimentos rudimentares de Física (tipo de corpo, dureza, movimento); Química (sabores, venenos); Biologia (animais e vegetais úteis e perigosos); Psicologia (relacionamentos, intenções); Economia (lucro, prejuízo, reserva) e diversos outros conhecimentos chamados de práticos (senso comum).

Por outro lado, cada pessoa, além de sua prática intuitiva, recebe outros aprendizados, os denominados formais e ou teóricos. Esse segundo aprendizado auxiliar pode ser muito útil, mas, também, perigoso. A teoria atua como um instrumento mais geral e abstrato, “lentes” especiais para prever ações futuras e alargar o campo das observações.

Um médico, por exemplo, pode ter uma imensa sabedoria prática (experiência direta com questões concretas e possíveis de serem observadas), mas, além da prática, ele terá também aprendizados abstratos adquiridos mais com a cognição e menos com a observação sensorial. A segunda aprendizagem, o conhecimento teórico, é assimilada, não por ter experimentado fatos concretos, mas sim devido às leituras feitas em livros e revistas especializadas, do escutado nas conferências e nas conversas informais; são idéias acerca de relações entre os fatos e, como pensamentos, impossíveis de serem experimentados, pois não estimulam nossos órgãos sensoriais e sim, a cognição (idéias).

Ora, um conhecimento intuitivo na profissão médica, ou em qualquer outra, é reformulado constantemente em virtude dos acertos e erros cometidos e, naturalmente, notado pela consequência imediata possível de ser percebida pelos nossos órgãos de sentido. Entretanto, e isso pode ser trágico, o segundo conhecimento, o aprendido mediante teorias, não permite (admite) avaliações críticas ou percepções de erros ou de acertos através de observações sensoriais. Desse modo, o conhecimento teórico adquirido, sendo geral ou amplo, não nos permite facilmente refutá-lo ou comprová-lo.

Por exemplo: várias teorias psicológicas (há milhares delas, repito: milhares) são idéias vagas e amplas acerca do comportamento humano defendidas com muito ardor por seus admiradores, às vezes, fanáticos. Mas essas teorias, sem base sensorial, jamais poderão ser refutadas ou comprovadas empiricamente, isto é, por observações sistematizadas e científicas. Uma grande parte das chamadas “teorias”, ou “conhecimento teórico”, cai num grupo de questões que chamamos de filosóficas (metafísica). As teorias ditas não-científicas não apresentam estruturas possíveis de serem refutadas ou comprovadas. Portanto, cuidado com as teorias: muitas não têm nada a ver com a realidade que você deseja compreender.

A razão desse livro

Teimosamente, por todas essas considerações, decidi penetrar, com todas as minhas forças, no estudo das funções do cérebro humano, pois é ele que permite a produção e criação tanto das ações dos vendedores, como dos compradores de ilusões. Cabe ao cérebro perceber, através dos órgãos dos sentidos, o que está acontecendo no mundo interno e externo. É ele que assimila, organiza e armazena os conhecimentos que nele entram e passam a morar; é o cérebro que nos faz sentir alegre ou triste ao experimentar o vivido e, por fim, é ele que age, numa ou em outra direção, conforme o sentimento detonado e o pensamento elaborado.

Baseado em centenas de anotações decidi, pois sou um burro obsessivo – o que não me parece estranho aos burros – compor algumas explicações para que eu possa compreender melhor o meu e o seu cérebro; tudo de um modo simples e fácil. Para isso usei várias histórias inventadas por mim que visam a concretizar as explicações. Além disso, explico o organismo humano metaforicamente como uma fábrica com seus vários setores trabalhando em conjunto para a sobrevivência da fábrica particular e das fábricas semelhantes (a espécie).

O objetivo aqui é o de transmitir ao leitor idéias gerais e exemplos concretos capazes de esclarecer um pouco melhor a compreensão e a explicação da conduta humana e, ao mesmo tempo, criticar algumas suposições absurdas, às vezes, cômicas. Espero que mediante as informações contidas no livro adquira um novo conhecimento acerca do mundo animado e inanimado. Assim você poderá tirar conclusões mais ricas e eficientes acerca do mundo onde vive e, consequentemente, tomar medidas mais inteligentes diante dos problemas enfrentados.

Critico, em especial, inúmeras informações teóricas por nós aprendidas muito cedo e que, sem dúvida alguma, irão dificultar ou impedir uma compreensão mais realística do nosso universo.

Muitas dessas crenças, sem o apoio de fatos observáveis, nos acompanham do nascimento à morte, mesmo quando aprendemos outros princípios que vão contra os preconceitos aprendidos. Para ilustrar o descrito, um exemplo recolhido da mídia: “Maria Tereza afogou na banheira seus três filhos”. Após ser presa ela declarou à imprensa: “Meus filhos merecem uma vida melhor; agora, depois de mortos, eles irão viver no paraíso e não nesse inferno”. Maria Tereza se referia a uma possível existência feliz depois da morte, por isso os matou. Segundo a teoria de Maria Tereza seu objetivo foi reconduzir os filhos ao paraíso.

Cenas como essa, às vezes mais graves, outras vezes menos, são lidas ou ouvidas nos noticiários. Com frequência, espantados, assistimos adultos e crianças, homens e mulheres-bombas que obedecem cegamente a princípios aprendidos. Segundo seu aprendizado eles morrem por Alá, Maomé, Cristo ou outros Deuses. Em São Paulo, muitos homens matam e morrem em defesa dos seus “Deuses” (Marcola, Beira-Mar e outros) orientadores da conduta dos filiados ao PCC etc. Outros matam e morrem por amor; outros por dinheiro; alguns são mais corajosos ao praticar esportes radicais, usar drogas mais eficientes para ficar mais “alto” etc. Fica a pergunta: Quais idéias (princípios) subjacentes determinaram esses estranhos comportamentos? Como identificá-los?

O poder dos princípios assimilados por nós (receitas, mapas)

As nossas explicações de um e outro fato (matar os filhos, voar em asa-delta, usar cocaína etc.) são fabricadas conforme as premissas ou idéias básicas aprendidas cedo (nossos princípios, mapas, receitas ou paradigmas). Os “alicerces” ou pontos de sustentação para erguer outras idéias ou raciocínios foram implantados em nossa mente por nossos pais, parentes, professores, companheiros admirados, religiosos, governo, mídia e outros. Uma vez impressas as idéias básicas, obrigatoriamente, governados por elas, passamos a pensar conforme suas prescrições e, por outro lado, iremos rejeitar as explicações baseadas em princípios contrários às já aninhadas carinhosamente em nossa mente.

Espero que o leitor flexível (com algum espaço livre no cérebro para assentar outros princípios) possa apreciar outros modos, diferentes de seus atuais, de pensar e avaliar que caminho deve tomar com respeito à administração de sua vida.

Uma informação, por definição, é um novo conhecimento. Somente conhecendo idéias diferentes das armazenadas em nossas cabeças, isto é, informações novas, teremos chances de crescermos. Eu e você, bem como qualquer ser humano, não somos possuidores de nenhuma idéia certa (verdadeira) para tudo, em todos os lugares e épocas.

Este livro tenta não repetir o que você já conhecia. Acredito que certas idéias poderão surpreendê-lo. Antecipadamente peço desculpas pelo possível susto. Não é meu propósito defender nenhuma idéia para que você a siga. O objetivo é muito mais crítico que prescritivo (faça isso; não faça aquilo). Visa sua capacidade de pensar melhor, criticar seus próprios pensamentos conforme seus valores e respeitar o direito de seu companheiro pensar diferente. Defenda seu modo peculiar de viver, pois você é um indivíduo com singularidades (genoma e cultura) diferentes de todos os outros. Portanto, deve pensar um pouco diferente. Aprenda a cuidar de sua cabeça; ela é a única que você conhece mais ou menos.

Não acredito em idéias certas para sempre; há sim modos diferentes de conhecer a realidade conforme a época e o indivíduo. A seu modo de conceber e explicar, a sua realidade é sempre “certa” para você num certo momento. Mas há outros modos de assimilar os fatos. Esperamos que alguns outros modos de explicar a realidade possam ser incorporados ao seu estoque de saberes, aumentando-os e tornando-os mais produtivos. Caso haja um crescimento de suas ferramentas cognitivas, você, com mais opções, poderá viver de modo mais eficiente e feliz.

Isso é tudo que desejo para você, pois é o que busco fazer para ajudar a mim mesmo. Boa sorte!

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