Uma Difícil Decisão

Dr. Sílvio, o dentista de Itazul, demasiadamente ocupado com os dentes cariados e as dentaduras dos moradores da cidade, apro­veitava os raros momentos de folga para ir até o bar “Nostalgia” de Chico Pança, para tomar algumas cervejas. Após tomar as primei­ras cervejas, tendo esquecido os clientes insistentes, mas calmo, ele continuava assentado no bar, bebendo até ser procurado por sua mulher, ou mesmo levado por algum amigo que percebia que Sílvio não ia conseguir caminhar até sua casa, pois lhe era difícil dar um ou dois passos.

O casal Sílvio e Carmen não tinha filhos. Ela apresentava, se­gundo o obstetra, “problemas na trompa”, que a impediam de ser fecundada. Os dois tentaram diversos tratamentos médicos sem re­sultado, antes de decidirem, depois de longas discussões, adotar uma criança. A escolha não foi difícil, pois Dr. Sílvio, um homem de fácil contato, tinha inúmeras afilhadas espalhadas pelas cidades e arraiais vizinhos. A escolha, feita por Carmen com o consenti­mento de Sílvio, recaiu em Sílvia, uma adolescente bonita, como quase toda a adolescente.

O casal já conhecia Sílvia, que morava com o pai viúvo a al­guns quilômetros de Itazul, num casebre situado num pequeno povoado miserável, junto com mais três irmãos. Sílvia, quando foi entregue ao casal, já tinha completado quinze anos de idade. O nome dela, ”Sílvia”, lhe fora dado em virtude do nome “Sílvio” do dentista padrinho e que havia feito, antes dela nascer, dentaduras para o pai e a mãe dela.

Quando veio morar com Carmen e Dr.Sílvio, Sílvia estava não só muito magra, pálida e desnutrida, mas também mal cuidada: cabelos mal cortados, suja, dentes amarelados e cariados, o que dava uma impressão negativa à primeira vista. Entretanto, com o passar dos anos, uma vez mais bem alimentada e cuidada, não só melhorou com respeito à saúde, higiene e cuidados com os cabe­los, dentes e tudo mais, mas também se transformou numa moça bonita e atraente, seduzindo os moços da cidade, que inicialmente não lhe deram a menor importância.

Dr. Sílvio, que antes da vinda da filha adotiva quase não para­va em casa por absoluta falta de tempo, quando Sílvia veio morar com ele e sua mulher, principalmente após ela ter ficado mais à vontade e atraente, conseguiu reservar horários livres para con­versar e se interessar pela menina, passando a tratá-la com mais esmero e amizade.

Carmen assistia à amizade e relacionamento do marido com a filha adotiva com alegria e satisfação, interpretando a aproximação como parte do amor filial guardado e precisando ser externado. Além disso, a amizade cada vez maior com Sílvia, afastava o dentis­ta um pouco dos bares e das cervejas dos fins de tarde, principal­mente dos fins de semana.

Entretanto, enquanto o amor inicial foi crescendo, foram sur­gindo entre Dr. Sílvio e Sílvia faíscas de um amor carnal, que se transformaram com incrível rapidez em chamas, e uma vez mais in­tensas, deram origem a enormes labaredas. Nessa ocasião, Dr. Sílvio tinha completado quarenta e cinco anos e Sílvia, dezoito.

Sem que ninguém a princípio notasse, os hábitos de Dr. Sílvio e Sílvia mudaram. Sempre que Dr. Sílvio percebia que sua mulher ia sair de casa, ele, arrumando desculpas propositalmente, atrasa­va sua saída, alegando diversas razões para deixar sua mulher sair antes dele.

Uma vez sozinhos em casa, Dr. Sílvio e Sílvia conversavam descontraidamente, riam muito, faziam brincadeiras não feitas dian­te de Carmen, ouviam e cantarolavam músicas românticas do apare­lho de som e se tinham mais tempo, bebiam cervejas geladas.

Nessas ocasiões, suas intimidades cognitivas, emocionais e físicas aumentavam

A amizade e a intimidade entre os dois foram aumentando, sob os olhares ingênuos e complacentes de Carmen. As conversas entre os dois, a princípio ingênuas, dominadas por grandes pai­xões e propensas a se externarem liberadas pela bebida, logo se transformaram em sorrisos, meiguices, abraços, beijos e também planos mais bem elaborados para encontros fora da residência.

Cada vez mais animados e apaixonados, como todos os indi­víduos atingidos pela paixão, muito confiantes em si mesmos, mas ao mesmo tempo descuidados, apesar da dificuldade existente em arrumar desculpas para saírem de casa, os dois trabalharam para atingir esse objetivo.

Sílvia disse a Carmem que, como estava com muita saudade do pai, viúvo e morando com os filhos, decidira fazer-lhe uma visita. Uma vez aceita a pequena viagem, no dia seguinte Sílvia dirigiu-se ao guichê de vendas de passagens e após comprar o bilhete entrou no ônibus, que partiu logo em seguida para o lugar onde ela nascera.

Ao mesmo tempo e quase no mesmo instante, Dr. Sílvio con­versou com Carmen, dizendo-lhe que tinha marcado com um fa­zendeiro ir ver sua fazenda. Comentou ainda que, por ser sábado, não agendara nenhum cliente para aquele dia. Disse ainda que faria uma visita à fazenda, pois tinha intenções de ganhar algum dinhei­ro com a engorda de gado. A fazenda, segundo Dr. Sílvio, não era longe, por isso ele esperava voltar antes do almoço. Entretanto, caso atrasasse, seria porque ele almoçaria com o proprietário da fazenda que ia ver. Em resumo: Carmen não deveria esperá-lo, pois podia atrasar-se.

Conforme o trato com Sílvia, ela deveria descer do ônibus num determinado lugar previamente marcado por Dr. Sílvio. Um ponto onde ele já estaria, pois sendo seu carro mais veloz que o ônibus, era fácil ultrapassá-lo. E como combinado, assim aconteceu. Ela desceu do ônibus e ele lá estava dentro do carro, escondido. Logo ao descer do ônibus, caminhou em sua direção.

Uma vez livres e desembaraçados, após Sílvia ter entrado no automóvel e dado um grande e afetuoso abraço no Dr. Sílvio, o casal dirigiu-se para uma pequena pensão na cidade próxima de onde estavam. Tudo correu sem maiores problemas. Os encontros iniciais não provocaram desconfiança em ninguém. Os dois esta­vam eufóricos.

Dr. Sílvio e Sílvia, animados como sempre acontece com to­dos amantes durante os primeiros encontros, aos poucos perderam o medo típico dos iniciantes e naturalmente cada vez menos preo­cupados, foram se arriscando mais. Se no início cada um chegava a casa algum tempo depois do outro, semanas depois ele começaram tanto a sair, como a voltar para casa, juntos. Para justificar, inventa­vam desculpas tolas e esfarrapadas.

Dentro da casa, como sempre acontece, houve grandes mu­danças. Sílvia não só passou a se cuidar mais, como também foi fican­do mais segura e expressando mais seu poder nas coisas da casa. Era comum vê-la falar com o pai adotivo de forma coloquial e mais sedu­tora. Tudo isso e muito mais foi fornecendo outras pistas de que algo havia mudado. Por mais que Carmen agisse ingenuamente no início, com o passar do tempo foi nascendo um processo de desconfiança.

Assim, se por um lado Carmen, uma vez desconfiada de que algo estava errado, ficou mais atenta para certas condutas que an­tes nem eram observadas. Dr. Sílvio, por sua vez, começou a “dar bandeiradas” uma após outra. Algumas noites, sentindo muita falta de Sílvia, levantava-se com algum cuidado e ia até o quarto onde dormia sua amada. Outras vezes fazia certos gracejos, demonstran­do grande intimidade com a filha. Ficava em casa muito mais tem­po que antes e sempre que possível levava presentes para a filha, sem fazer o mesmo para sua esposa.

O resultado foi o esperado. Descoberta a traição, as brigas de sempre, os xingamentos, a expulsão de casa da vítima. Apesar de tudo, após longas e penosas discussões entre os cônjuges, de co­mum acordo concordaram que Sílvia iria morar e estudar na capital às custas do Dr. Sílvio.

Por sua vez Carmen, ferida com a traição e talvez por vin­gança, seduziu um mulato novo e bonito, entregador do armazém onde fazia as compras. Animada pela raiva, sentindo-se mais corajo­sa, trouxe-o para dentro de casa inúmeras vezes durante as ausên­cias do marido.

A traição de ambos espalhou-se por toda Itazul, pois não havia como esconder os encontros numa cidade tão pequena. Comentava-se que Carmen agia daquele modo apenas como revanche. Ela dese­java que todos da cidade soubessem de sua conduta, mais que um desejo de conquista ou de amor pelo entregador de mercadorias do supermercado.

Não faltaram telefonemas anônimos, conversas diretas para o marido traído, terminando na descoberta feita pelo Dr. Sílvio dos acontecimentos. Novas brigas e separação do casal. Ao mesmo tempo ameaças de um e outro lado, mas felizmente sem agressões e mortes. Não durou muito tempo o desacordo, houve, sim, um retorno à paz, um armistício selado com cervejadas, adoradas por ambos. Para comemorar a paz recente entrelaçada de juramentos, os dois deram uma grande festa e como convidados especiais esta­vam o entregador do armazém e também Sílvia. Houve ciúmes de parte a parte, novas brigas e um novo juramento de paz eterna. A filha, após participar da festa, ficou mais alguns dias morando com o casal que estava num astral elevado e, em seguida, retornou à capital.

Posteriormente, passados alguns meses, ocorreu um fato novo e que teve consequências surpreendentes. Dr. Sílvio, uma vez indignado e envergonhado devido à traição da esposa e também amargurado e deprimido pelo afastamento de Sílvia, aumentou a quantidade da bebida ingerida. Podemos afirmar que ele passava grande parte do dia acamado. Assim sendo, pouco ia ao consultório trabalhar, isto é, tratar de um ou outro cliente que o procurava. Por sua vez, Carmen também não se sentia bem. Ela sempre sofria, mui­to quando percebia seu marido triste ou adoentado. Assim, os dois adoeceram depois dessa série de desencontros.

Em decorrência da amizade que cada um dos cônjuges tinha pelo outro e também do “jogo de cintura” de ambos, surgiu uma solução inusitada. Depois de conversas e confissões dramáticas, choros, gritos, abraços e perdões de ambas as partes, os problemas foram solucionados.

Foi constatado que o casal sofria muito em virtude da ausên­cia da filha querida e, por outro lado, Sílvia também estava pesaro­sa por estar afastada deles. Assim, uma primeira decisão, após con­sultar Sílvia, foi trazê-la de volta. Mas devido ao grande sofrimento do Dr. Sílvio e como consequência a apatia e tristeza de Carmen por causa da depressão do marido, os dois decidiram, de comum acordo, para o bem de toda a família, inclusive de Sílvia, que Dr. Sílvio poderia, caso quisesse, continuar o mesmo relacionamento que anteriormente tinha com a filha adotiva.

Entretanto, Carmen impôs uma condição ao marido. Para não se sentir nem traída, nem diminuída perante os dois bem como pela população da cidade, ela poderia, se desejasse, participar dos encontros íntimos do casal Sílvio e Sílvia. Assim seria formado um “ménage à trois”.

Através de diversas reuniões de alto nível, bastante animadas e sem agressões, todos os detalhes, bem como o prescrito para cada um dos participantes, foi cuidadosamente combinado e ajustado.

Dias depois Sílvia retornou ao lar de Dr. Sílvio e Carmen para o bem e felicidade da família. Hoje os três vivem sob o mesmo teto, compartilhando das noitadas e feriados prolongados regados a cer­veja e sexo. Todo o distúrbio se transformou em paz. Tudo, tudo mesmo, seria realizado dentro de casa, sigilosamente, sem escân­dalos e sem despertar suspeitas de vizinhos curiosos e invejosos e principalmente das “más línguas” dos mexeriqueiros de sempre.

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