Um Homem às Avessas

Convivi durante muitos anos com Jerônimo Duarte. Mesmo sem nunca tê-lo conhecido ou entendido bem, nós éramos amigos. Jerônimo era um homem comprido, usava frequentemente um terno surrado, mas sempre limpo, largo, azul-celeste, que escondia sua ma­greza extrema, dando a impressão de um boneco feito de espiga de milho coberto por um guardanapo. Seus olhos empapuçados, como olhos de sapo, estavam incrustados num rosto ossudo sem músculos e gordura. Para esconder sua magreza, deixou crescer uma barba rala, grisalha, sempre mal-aparada. Solteirão, morava desde rapaz so­zinho num barracão de três cômodos, onde tudo era desordem. Sua cama parecia que nunca fora arrumada. Ele mesmo dizia:

— Para que arrumá-la, se depois, ao deitar, ela terá que ser desfeita?

As pulgas ainda restavam do tempo em que ele criava um cachorrinho, que morreu de pneumonia e que servia para “espan­tar os ladrões”, que porventura lá quisessem entrar. Na realidade, a única coisa de valor ali existente era uma jabuticabeira que, de ano em ano, florescia em abundância e cujos frutos sempre colhia e dava aos mais chegados. Creio que, orgulhoso de seu presente, tinha mais prazer em presentear do que em chupar as jabuticabas. Quando as pulgas o picavam exageradamente, tinha uma técnica infalível contra elas e que ele contava rindo:

— Levanto-me cuidadosamente, tiro o pijama e saio nu para o sofá da sala, visto outra roupa e lá durmo, pois as pulgas ficam presas à roupa anterior e, desse modo, eu as tapeio.

Jerônimo tinha uma maneira peculiar de pensar que me atraía, mesmo quando não concordava com ele. Eu sempre me excitei com pessoas extravagantes, bem diferentes das demais. Jerônimo era uma delas. Assustei-me naquela manhã ao abrir o jornal e ler a notícia de sua morte. Não havia convite para missa, apenas uma notícia seca, com o título: ”Aposentado encontrado morto.”

“O aposentado Jerônimo Duarte, 54 anos, solteiro, natural de Ubá, foi encontrado morto no barracão onde residia. Seu corpo, dependurado numa corda, já se encontrava em estado de putre­fação. A polícia acredita que o aposentado foi vítima de suicídio, porém não descarta a possibilidade de latrocínio.”

Não tinha parentes próximos, não era ligado intimamente a ninguém, estava aposentado da Secretaria de Educação. Durante 35 anos trabalhara na biblioteca, o que lhe permitiu ler livros e jornais, conseguindo um conhecimento fora do comum e singular, pois não tivera mestre para orientá-lo num único caminho. Assim ele aprendeu de tudo, e seguia, sem preconceitos, puramente o que lhe interessava. Exatamente por isso, ele pensava de maneira diferente da usual. Certa vez Jerônimo foi atropelado e levado para o hospital, tendo comentado, sorrindo, após sair do coma.

— Como é bom ficar no hospital, aqui tenho de tudo, alimen­tação, cuidados, gente amiga, enfermeiras bonitas e tratamento. Além do mais, sem gastar um tostão. Nunca tive isso na minha vida. Por que será que não conseguimos receber amor e carinho das pessoas, sem estarmos à beira da morte? Comecei a melhorar e começaram e me tratar “com casca e tudo”. Preciso ser atropelado outra vez, ou adoecer gravemente, de tempos em tempos, para poder, desse modo, usufruir da bondade humana.

Ao contrário da maioria das pessoas, gostava de um dia escu­ro, chuvoso, frio e úmido.

— Que delícia o dia hoje! – dizia ele.

— Essa chuvinha transmite-me paz. Não tem sol e assim pos­so olhar para o céu sem arder os olhos. Acabou-se a maldita poeira que me faz tossir e, chovendo, posso ficar em casa sem sair e sem sentir dúvida se devo ou não ir para à rua.

Jerônimo nunca matara pulgas ou escorpiões. Quando en­contrava escorpiões nos entulhos, junto à jabuticabeira, ele apenas cortava o seu ferrão e deixava-os vivos. Ele acreditava na sabedoria de um Deus que criou tudo o que aqui habitava para algum fim desconhecido para ele. Com essas ideias, defendia a manutenção do sistema de vida, de pulgas, escorpiões, aranhas e outros bichos. O único animal que ele matava era sapo, pois ele tinha pavor deles.

Lembro-me de que, quando ameaçava a guerra no Golfo Pér­sico, ele comentava numa roda onde todos criticavam a guerra e Sadam Hussein:

— Precisamos delas, o mundo está super-habitado. Se não morrerem alguns, não teremos comida para todos, o que já anda faltando. Os antigos matavam os meninos, de tempos em tempos, para diminuir a população. Alguns povos usavam matar os irmãos mais novos, quando faltava comida. Por que não a guerra para fazer o mesmo? De um lado o governo faz as suas campanhas para dimi­nuir a mortalidade infantil, com isso aumenta o número de crianças que não morrem. A medicina, com suas técnicas, impede de mor­rerem pessoas menos capazes e que morreriam, caso não tivessem cuidados especiais durante toda sua vida. Assim, com mais “bocas” para comer, vestir, trabalhar, morar, procriar, estudar, etc., o go­verno não aguenta. Portanto, com as guerras tudo volta ao normal, ou seja, os que escaparam da mortalidade infantil, das doenças ou deformidades que antes matariam, talvez morram nas guerras. Es­tes, se não morrerem nas guerras, morrerão dos assassinatos, dos acidentes de trânsito e assim se fecha o círculo. Além do mais, muitos dos que morrem nas guerras são pessoas agressivas, san­guinárias e se lá não fossem matar, matariam ou morreriam aqui. Talvez nós fôssemos as suas vítimas. Alguns outros estão desejosos de morrer, por não suportarem esse mundo. Na guerra estes re­alizarão, de forma sublime, esse seu desejo e serão chamados de heróis e não de suicidas.

Certa feita, surgiu uma acalorada discussão acerca de um fa­moso crime, em que um cidadão havia assassinado a própria esposa. A maioria atacava o criminoso, taxando-o de covarde, estúpido e outros nomes. Quando todos comentavam, com a mesma ideia o crime, Jerônimo saiu-se com essa:

— Se fosse jurado, eu o absolveria. Nunca me casei, mas creio que é muito difícil para um casal criar filhos. Imaginem ficar a educação por conta de apenas um dos cônjuges. Deve ser muito penoso, assim o assassino sofrerá mais ficando fora da cadeia, do que dentro dela. Esta será a sua punição. Além do mais, tenho dó dele. Agora ele é viúvo. Perdeu sua mulher repentinamente de forma brutal, não importa quem foi o autor da morte. A perda de um cônjuge deve deixar desnorteado e confuso o assassino, como ocorre com os que perdem suas mulheres. Nunca matei nem minhas pulgas, pois vivo bem com o mundo. Mas creio que, quem mata aquela que um dia escolheu entre diversas outras, para morar junto, deve ter sofrido e continua sofrendo muito. Que castigo maior podemos impor a uma pessoa do que matar a pessoa que ele tem como mais ligada a si? Qual de vocês viveria em paz, se lhe matassem seu filho? Viver solto com apenas sua consciência é uma terrível punição. Quem mata um filho, ou uma esposa, mata a si mesmo, e o assassino, ao matar, decreta a sua própria morte e seu castigo. Não precisamos castigá-lo mais do que ele próprio já se castigou.

A conversa acabou nesse instante. Ele, apesar de solteiro, tinha suas paqueras ocasionais, sendo um “free lancer”, como ele mesmo se denominava. Nunca se prendia a ninguém, nem a nenhuma ideia. Ao contrário da maioria, quando ficava sabendo que sua namorada estava saindo com outro, ele comentava feliz da vida:

— Minha namorada arrumou um novo parceiro. Que bom para ela e para mim! Para ela, por estar junto de uma nova pessoa de quem gosta mais do que da antiga, para mim, por saber que ela tem atrativos que agradam a outros e assim fico mais seguro da boa escolha que fiz. Imagine só, deve ser horrível ter uma na­morada que ninguém quer, uma não cobiçada.

— Ela pensa que eu não sei, mas não tem certeza. Assim fico livre para fazer o mesmo, sem ter o maldito sentimento de culpa que sempre me perseguiu. Além do mais, ela, tendo outro, não me amolará com tanta insistência quando eu não quiser encontrá-la, pois terá um substituto para os momentos de minhas folgas. Sendo assim, poderei fazer outras coisas em qualquer dia, sem preocupar-me com ela. Sabendo que ela anda com outro, sei que ela estará fe­liz, assim se encontrará comigo de bom humor e me tratará melhor por causa de sua culpa e por ter dó de mim por ser bobo.

Procurei me inteirar acerca de sua morte, pois sua vida sem­pre me interessou. Fiquei sabendo que havia se suicidado no pró­prio barracão onde morava. Fui por várias vezes lá, procurando alguém ou documentos, para compreender o seu “tresloucado ges­to”. Depois de várias vezes sem encontrar ninguém, numa manhã avistei seu primo, que viera retirar seus pertences para doá-los e entregar o barracão, que era alugado. Este era de pouca conversa e só com muito custo contou-me o que ocorrera. Mostrou-me um bilhete escrito antes do seu suicídio. Fiquei sabendo então que Je­rônimo havia ganhado na loto 35.000 reais e isto o perturbou sen­sivelmente. Passou a ter medo de sair e ser assaltado. Imaginou que todas as suas paqueras queriam morar com ele para se aproveitar do dinheiro ganho. Começou a ter insônia, não comprava mais co­mida pronta como antes, pois imaginava que seria envenenado nos restaurantes. Pouco a pouco, não recebia mais ninguém. Imaginou até que seu coração havia parado de bater e que seus intestinos estavam podres e cheios de vermes e já começavam a comê-lo. Nos últimos tempos – contou seu primo – ninguém mais entrava em sua casa que ficava fechada com fortes correntes..

Após alguns dias de completo silêncio, os vizinhos, após o terem chamado por diversas vezes e não obtendo resposta, chamaram a po­lícia. Esta, após arrombar a porta, encontrou seu corpo, já podre, de­pendurado no cano da privada. Num canto do banheiro, havia cinzas e pedaços de notas mal queimadas, que sobraram da incineração do seu prêmio da loto e que serviu para matá-lo.

O bilhete deixado e que, com a permissão do seu primo transcre­vo abaixo, dizia:

“A vida para mim chegou ao fim. Conclamo todos a fazer o mesmo. O mundo nunca serviu para ser vivido. Alguns teimam em viver, a maioria faz tudo para “passar o tempo”. Tratamos as pes­soas bem hipocritamente, somente quando estamos bem e com sobra de coisas. Nos momentos difíceis, nos digladiamos, matamos e assaltamos uns aos outros. Morro feliz de estar livre desse mundo complicado, impossível de ser vivido em paz e harmonia e, pior agora, quando todos querem me ver morto. Faço as vontades dos inimigos.

Deixo as minhas quinquilharias para os ricos, para que eles também possam ter a felicidade de se assentar num banco quebra­do, de vestir uma roupa velha e confortável, de andar com um chi­nelo largo, sujo, feio, velho. De largarem por alguns momentos os valores que eles tanto amam, se agarram e se acham presos. Enfim para que os ricos, de quem eu tenho tanto dó, possam experimen­tar algumas poucas alegrias vividas pelos pobres. Alegrias talvez mais humanas e agradáveis.

Queimei o dinheiro que havia recebido, todo ele. Destruiu mi­nha felicidade e minha paz de homem comum e pobre. Deixei ape­nas 1.000,00 reais numa caixa de sapatos, para ser entregue a Arlete, em pagamento de uma dívida. Antes de ganhar o prêmio ela havia me emprestado a quantia de 900,00 reais. O restante é o juro.

Estão querendo acabar comigo, homens, espíritos e também algumas poucas bactérias nocivas. Passo à frente, destruindo-me antes dessas forças terríveis.

Abraços aos que ainda ficam. Nos encontraremos daqui a al­gum tempo.

Adeus,

Jerônimo”

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