Piedade: Uma História Simples

Um pouco abaixo da casa de Dario e Lourdes, moravam Maria Luíza e seu marido, Mário. Esse casal tinha como empregada uma moça simples, de voz e cabeça baixa, que era chamada de Piedade. Desconheço se esse era de fato seu nome verdadeiro, talvez fosse um antigo apelido. Acho que ela mesma não sabia bem seu nome.

Piedade não conheceu seu pai. Quando tinha apenas dez anos de idade, foi trabalhar numa fazenda nas vizinhanças dos ter­renos de Jacinto, o prefeito da cidade. Nesta fazenda, ela foi agre­dida pela dona da casa, acusada de ter roubado goiabada que esta­va reservada para a filha que chegava de Miami. Expulsa da casa, Piedade procurou uma família que vivia nas redondezas e lá ficou algum tempo, trabalhando desesperadamente em troca de feijão com canjiquinha e farinha de mandioca.

Mais tarde ela procurou um novo emprego, em outra fazenda, perto do seu emprego anterior. Apavorada de ser agredida e tachada de ladra, ela agia com todo o cuidado possível com os patrões. Por isso, enquanto agradava aos patrões, ela desagradava aos companhei­ros de trabalho, produzindo ciúme nos outros empregados. Por isso, foi novamente agredida fisicamente, não por uma só pessoa, mas por diversas.

Apenas um dos empregados da fazenda, que parecia gostar dela, não a tratou mal, nem a agrediu. Agradecida, enquanto se pre­parava para sair desse lugar onde todos os companheiros estavam contra ela, Piedade se aproximou do rapaz e revelou para ele – o que era raríssimo nela – seus sentimentos e medos.

Enquanto conversavam, Piedade e o rapaz caminhavam pe­los campos da fazenda. Ela estava radiante de ter encontrado uma alma boa entre o grupo inimigo. Para completar sua desgraça o “bom rapaz”, num certo momento, atacou Piedade numa tentativa de manter relação sexual com ela.

Mais fraca, fingindo estar aceitando a pressão do rapaz que era muito mais forte que ela, Piedade ficou quieta, como se esti­vesse aceitando a relação sexual forçada. Para realizar seu plano, pediu-lhe que se afastasse um pouco para que ela tirasse sua roupa sozinha. Uma vez solta, conseguiu correr e entrar num mato mais espesso e difícil de ser vista. Assim chegou a casa livre do estupro. Mais tarde, quando o rapaz a encontrou perto de outros trabalha­dores, ao passar perto dela, ameaçou-a de morte.

Desesperada com a situação, Piedade resolveu procurar em­prego em outro lugar. Dias depois foi contratada para trabalhar com D. Maria Luíza e Sô Mário. Desta vez seu serviço era numa pequena loja, onde eram vendidos botões, agulhas, linhas e outros artigos semelhantes, além dos serviços da casa do casal.

O movimento da loja era mínimo. Nesta ela era a caixeira, arrumadeira da loja e da casa, que ficava nos fundos, e também cozinheira e lavadeira da dona da loja. Poucos dias depois de estar nesse emprego, Mário, marido de Maria Luíza, morreu de infarto fulminante.

Neste emprego, Piedade ficou até morrer. Aos poucos ela, que sempre vivera em fazenda, foi se acostumando com a casa, com D Maria Luíza e filhos. Às vezes, ela, a patroa e filhos iam até a fazenda de Maria Luíza. E lá, certa vez, Piedade salvou bravamente uma filha de Maria Luíza que havia caído de uma ponte e estava se afogando num riacho muito cheio, após uma grande tempestade.

Durante cinquenta anos, os moradores de Lunópolis inveja­ram D. Maria Luíza por ter junto dela uma pessoa como sua empre­gada Piedade, com sua maneira educada e gentil de tratar as filhas do casal e suportar todas as amarguras vividas por essa família. Piedade foi uma segunda mãe para os filhos da patroa.

Piedade tinha o rosto magro e encurvado para a frente, a voz aguda e irritante. Quando completou trinta anos, quase quinze anos após estar trabalhando com Maria Luíza, as pessoas lhe davam quarenta anos, e quando chegou aos cinquenta, Piedade era vista como uma velha. Ela era extremamente silenciosa, cada gesto era medido e cuidadoso. Lembrava os bonecos de desenho animado funcionando a corda.

Piedade rezava várias vezes ao dia, com frequência imitando as práticas usadas por sua patroa. Da missa, pouco ou nada enten­dia, entretanto jamais deixava de ir.

Pela manhã, invariavelmente, Piedade, após se levantar, olha­va o crucifixo pendurado nas paredes, ajoelhava-se e rezava durante vários minutos. Em seguida ia cuidar do café da manhã da família.

Certa vez, ao ir à igreja, ela encontrou Teodoro, o ajudante do padre. Timidamente este aproximou-se dela e pela primeira vez após centenas de vezes um ver o outro na igreja, os dois con­versaram. Animada com o encontro, passou a ir mais vezes à igreja para ver se encontrava Teodoro. Muito raramente conseguia lhe dar uma boa tarde, ou falar acerca das chuvas que caíram, do frio que estava fazendo e da doença da filha dos familiares de Maria Luíza. Ele passou a ser seu grande amor. Depois de uma grande ausência da igreja, ela o encontrou novamente na padaria. Seu coração bateu mais forte de alegria. Durante a conversa com ele, soube que havia se casado com uma viúva, trinta anos mais velha que ele, mas que recebia uma boa pensão do falecido marido.

Como Piedade nada gastava com ela mesma, logo os paren­tes começaram a aparecer para lhe pedir ajuda financeira. Sem saber recusar nada, custeou os estudos de um irmão, Agnaldo, o mais novo da família. Ele era um vagabundo que nada fazia, nem mesmo estudava, pois sempre tirava as piores notas de seu grupo. Este irmão morreu durante uma briga na zona boêmia da cidade.

Piedade desmaiou quando soube da morte do irmão e foi le­vada até a farmácia ao lado de onde morava, para receber ajuda do farmacêutico. Pouco a pouco suas forças foram voltando.

Com a morte de Agnaldo, sua própria mãe começou a ir atrás dela, junto com um filho adotivo que decidiu criar, para lhe pedir ajuda para comprar remédio e alimentos.

Após a morte de Mariazinha, filha da patroa de Piedade, D. Maria Luíza passou a ir “ver” a filha ao cemitério todos os dias, pontualmente, às sete hora da manhã, a mesma hora da morte da filha. O cemitério ficava um pouco acima da casa onde moravam. Piedade animava sua desolada patroa a suportar a vida ingrata.

Passaram os anos, todos iguais e sem outros episódios, a não ser a repetição das grandes festas: a Páscoa, o Natal, o Dia dos Mortos, a Assunção de Nossa Senhora, o Dia de-Todos-os Santos e o da Independência. Ocorriam apenas fatos simples e repetidos todos os dias, dentro da casa sem movimento. Desse modo, viven­do isolada do mundo externo e com poucos estímulos dentro de casa, as categorizações dos fatos eram feitas em virtude de um fato qualquer que ocorrera. Este fato simples era usado como ponto de referência: o dia em que entrou um ladrão aqui e roubou o vaso de flor, aquela flor que nós apanhamos na fazenda, aquele dia que você escorregou na lama porque choveu muito, o dia que a porta estragou, o dia que a prima Inalda veio nos visitar…

Todos os pertences da filha foram guardados, muitos sem saí­rem do lugar, sem serem tocados após a morte da moça: os vestidos usados em casa e nos aniversários, as bonecas ganhas no Natal e aniversário, o primeiro missal ganho quando aprendeu a ler. Se al­guém, desavisado, colocasse as mãos nesses objetos e os tirasse do lugar, D. Maria Luíza e Piedade perdiam a calma e imediatamente avançavam sobre a pessoa, arrancando-lhes os objetos mexidos.

Entretanto, um pesar enorme de Piedade era não possuir, ela mesma, nenhum objeto que pertencera a Mariazinha, guardado com ela junto às suas coisas. Depois de diversas reclamações mui­to sutis, D. Maria Luíza deu a Piedade um terço que Mariazinha, ao morrer, tinha em suas mãos.

Quando Maria Luíza segurou o terço e as duas se olharam, D. Maria Luíza, muitíssimo emocionada, quase desfaleceu ao abrir os braços e preparar-se para entregá-lo a Piedade. Esta, trêmula e com o coração disparado, atirou-se nos braços abertos da patroa. As duas permaneceram abraçadas por diversos minutos, soluçan­do, lamentando a morte precoce e inexplicável da saudosa e tran­quila Mariazinha. Beijaram-se, selando uma infelicidade profunda que dominava suas almas, nivelando-as na dor que inundava seus corações. Esta foi a primeira vez que as duas se abraçaram, depois de dezenas de anos morando juntas. Emocionada com o abraço e o terço ganhos, cresceu mais ainda a bondade solitária do coração de Piedade para com a patroa.

Tempos depois, Piedade ganhou da vizinha um cãozinho. Este passou a ser a sua diversão, o seu mundo, o sentido de sua existência. Mas a alegria foi apagada por uma forte gripe de Pieda­de. A gripe provocou nela uma surdez grave, em decorrência da qual passou a falar muito alto. Por outro lado, Maria Luíza também já estava quase sem nada ouvir, tornando assim mais difícil ainda a conversa entre as duas. Entretanto, as duas ainda conseguiam ouvir o latido do cão. Durante uma forte chuva, o animal, que estava na rua, ficou todo molhado. Piedade, penalizada, colocou-o diante do fogão a lenha da casa para que esquentasse e secasse. Parece que o calor exagerado o matou, pois, sem esperar, o cachorro teve uma convulsão e não mais respirou. Piedade chorou tanto, que a patroa mandou mumificá-lo. Isso só aconteceu depois de muito esperar e então, Piedade guardou em seu quarto o cão mumificado. A única coisa que animava Piedade era a procissão do Corpo de Deus. Ao ir à igreja, ela sempre contemplava o Espírito Santo e notou que Ele tinha algo semelhante ao cão mumificado.

Ela foi envelhecendo e enfraquecendo. Além da audição, pas­sou a enxergar muito pouco. A casa onde morava com a patroa também ia apodrecendo como suas moradoras. De um lado, as ri­pas da casa apodreciam, de outro, o pulmão de Piedade indicava pneumonia.

Quando ela foi piorando, pressentindo sua morte iminente, pediu para que seu cão fosse colocado na igreja. O padre, perceben­do o seu estado físico, aceitou o pedido de Piedade. Os vermes já tinham devorado em parte os enchimentos do cão, quando Piedade entrou em agonia. Era dia de procissão. Ela cerrou as pálpebras, en­quanto seus lábios pareciam sorrir. Os movimentos do seu coração afrouxaram um por um, cada vez mais vagos, mais doces, como gri­to que desaparece. Ao exalar o último suspiro, Piedade conseguiu ver, no alto do céu, seu cão enorme esperando sua chegada.

Comente!

Você precisa fazer LogIn para publicar um comentário.

Painel de acesso

Veja também…

Abuso / Violência Sexual Abusos nas Receitas Médicas Agressividade e Violência Alcoolismo (vício em álcool) Ansiedade Ansiolíticos Antidepressivos Aprenda a não ser tolo Avaliação Psicológica / Diagnósticos Casamento: felicidade e problemas Charlatões / Manipuladores Comportamento / Condutas Consultas médicas / Exames / Tratamentos Crenças antigas / Mitos / Superstições Cérebro e Mente Dependência Psicológica Dependência Química / Drogadição Depressão Desenvolvimento Cognitivo / Cognição Disfunções Sexuais (Problemas Sexuais) Divórcio / Separação Doentes Mentais - Pacientes Psiquiátricos Doenças e Doentes Doenças Mentais (transtornos) Dopamina Drogas / Medicamentos / Remédios Educação e Conhecimento Efeitos Colaterais Emoções Primárias Emoções Sentimentos Controle Entendendo o Ser Humano Esquizofrenia Estresse (Stress) Estresses Problemas e Adversidades Estruturas Neurais Estímulos Emocionais Estímulos Sensoriais Evolução da Mente Família e Casamento Festas populares e Lazeres Filhos Filosofia Funções Cerebrais Guerra dos sexos Ideologias e sonhos Informação Linguagem e comunicação Jovens Ligações Amorosas / Afetivas / Sociais Linguagem médica / Jargões Livros Online Grátis Livros Psicologia Livros Psiquiatria Mapa mental Medicina Antiga Medo Pânico Memória e Indivíduo Médico vs Paciente Neuro-hormônios peptídeos Neurociência Neuropsicologia Neurotransmissores Oxitocina ou ocitocina Pensamento / Raciocínio Percepção Estímulo Poder da mente Política: Políticos e Corrupção Problemas sociais Psicologia Psicose (Delírios / Alucinações) Psicoterapia / Psicanálise Psiquiatria Psiquiatria Antiga Razão vs Emoção Receitas Médicas / Prescrição de Medicamentos Relacionamentos Religião Riscos para Saúde Saúde mental Serotonina Sexo e Sexualidade Simbolismos Sinapses Sistema Emocional Sistema límbico Sistema Motivacional Sistema Neural Neurônio Sistema Sensorial Sociedade: Valores e Cultura Solidão Suicídio Suicidas Síndrome de Abstinência Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) Transtorno de Personalidade Anti-social (antissocial) Transtorno de Personalidade Narcisista Transtornos de Ansiedade Transtornos de Personalidade Transtornos dos Hábitos e dos Impulsos Transtornos Emocionais (de Humor) Transtornos Sexuais Uso de Drogas (Consumo)