O Presente

Júlia chorou e riu de alegria quando sua madrinha, D. Olga, decidiu presenteá-la com um cãozinho, uma promessa antiga. Não uma imitação, era um cachorro de verdade. Sua madrinha, que se encontrava hospitalizada quando Júlia aniversariou, prometera-lhe, como presente, um cão, logo que pudesse sair à rua. Ela so­nhava com este dia, que afinal chegou. Mesmo antes de ganhá-lo, imaginava como iria alimentá-lo, fazê-lo dormir, brincar e, princi­palmente, mostrar para as amigas seu cãozinho. O vendedor de cães vendia seus cobiçados bichinhos na feira dos sábados. Os encantados garotos que por ali passavam, fascinados pelo movi­mento e latidos dos cães, estacionavam diante desse espetáculo dos fins de semana. Júlia ia à feira somente para vê-los e, por al­guns minutos, brincar com estes agitados animaizinhos, carregá-los e aconchegá-los no seu colo, passar com cuidado e ternura suas mãos sobre seus pelos macios.

Naquela manhã de sábado, o vendedor de cães, falante como todo bom vendedor, recebeu os curiosos compradores no seu ca­nil improvisado, onde Bob, o mais saliente e bonito deles, brinca­va alegremente com seus companheiros diante de Júlia. O vende­dor de cães anunciava que só vendia cães sadios e inteligentes e, naquele dia, entusiasmado com o prenúncio de um bom dia, pois já vendera três cães naquela manhã, esperava seus atentos e es­perançosos compradores, diante dos animais indiferentes ao seu novo proprietário.

Os cães rolavam e brincavam nas caixas, exalando seu mau cheiro natural. Notando o interesse de Júlia por um deles, um poo­dle peludo, branco com a cabeça preta, ele o separou, ofereceu-lho para que ela o carregasse e lhe disse que Bob, – assim ele chamava to­dos seus cães – era um cachorrinho muito especial. Filho de um cão com pedigree artista de circo, Bob também aprendera, e com que rapidez, diversos comportamentos: era capaz de dar a pata dianteira quando solicitado, fazia xixi no jornal, andava sobre as duas patas traseiras, pulava obstáculos e, além disso, estava aprendendo a andar de bicicleta e de patins. Em resumo, Bob era um cachorro “fora-de-série”, por isso mesmo um pouco mais caro do que os outros. Júlia ficou entusiasmada por ele, nenhum mais servia, estava escolhido, só faltava a aprovação da madrinha.

D. Olga, depois de muito pechinchar, mas não atendida, tirou com dificuldade de sua grande bolsa uma bolsinha, e de dentro desta, duas notas de R$ 50,00 reais, bem amassadas, preço cobra­do pelo cão. Júlia abraçou Bob junto a si, radiante e triunfante por ser, a partir de então, proprietária deste belo, inteligente e ensi­nado cão. Colocou ali mesmo no seu pescoço uma coleira preta, comprada do próprio dono dos cães, que combinava muito bem com seu pelo branco e preto. Sorriu para todos os tristes e inve­josos meninos postados ao seu lado e caminhou orgulhosa pelas ruas, exibindo para todos os transeuntes seu novo brinquedo. Nes­te momento ia imaginando como armaria uma casa para ele, as rações necessárias, e até, no futuro, uma companheira para ele, bem como cuidaria dos filhotes que iam nascer. Júlia vivia naquele dia seu momento mais feliz. Afinal tinha o que sempre quis, o mais lindo dos cães, um cachorrinho ensinado capaz de morar no seu pequeno apartamento, sem incomodar seu pai e mãe, pois estes não viam com bons olhos esse novo hóspede. Que bom!

Ao chegar ao apartamento, Rosinha, a cozinheira, esperava an­siosa por ela e Bob. Pediu permissão a Júlia para carregá-lo por instan­tes, pois, quando morava na roça, ela também tivera um cão, não tão bonito e ensinado como aquele, mas também lindo e bonzinho.

Os pais de Júlia, apesar de descontentes com o fato de ter que viver com o cão no apartamento, fingiram demonstrar algum contentamento pela sua chegada. Dr. Mário, seu pai, preferiu nem olhar para Bob, pois detestava animais em casa. Júlia explicou, para que seus pais o aceitassem, as virtudes do Bob. Falou entusiasmada acerca de suas habilidades contadas pelo vendedor, aumentando o mais que podia o que ouvira.

Naquele fim da tarde de sábado, era servido à família um lan­che especial: pães diversos, queijos, presuntos, além do café, leite, chocolate, manteiga e margarina, esta última para o Dr. Mário, que tivera um infarto e tinha medo de comer muita gordura animal. Para não atrapalhar esse encontro da família dos fins de semana, Bob foi delicadamente colocado na sua casinha, comprada ainda naquela manhã no Mercado Central. Ao lado de sua moradia, bem junto ao quarto de Rosinha, Júlia colocou sua água e ração, e den­tro da casinha panos para que ele pudesse dormir mais agasalhado. Mais afastado ainda, perto do banheiro de Rosinha, foram colo­cados jornais velhos para que neles Bob fizesse xixi e cocô. Bob acomodou-se rápido, como cão ensinado que era: entrou na casa e lá ficou quieto, parecendo gostar de sua nova moradia. Logo de­pois, adormeceu.

A família lanchou fartamente, junta e feliz, como fazia sem­pre. Terminada a comilança, começaram as habituais conversas dos sábados entre os pais, Júlia e seu irmão.

Dirigiram-se à sala de TV, situada no fundo do apartamento, local mais afastado do barulho dos ônibus que circulavam em fren­te ao prédio. Júlia, envolvida na conversa, com o sossego e a tran­quilidade relaxante daqueles momentos, chegou até a esquecer, por instantes, mais por falta de hábito do que por desinteresse, do seu querido amigo Bob. Além disso, seu irmão começara com ela a eterna briga por causa da cadeira mais aconchegante para se assen­tar, disputa que os dois pareciam sentir falta, quando não ocorria.

De repente Júlia lembrou-se de Bob, ao ouvir um pequeno barulho que parecia vir da copa, onde a família lanchou.

Correu alegre para vê-lo. Chegando à cozinha, quase des­maiou com a cena: o belo cachorrinho ensinado estava trepado em cima da mesa, onde eles tinham lanchado. Comera o presunto e derrubou as xícaras. Havia restos de vidros pelo chão e a toalha da mesa estava emporcalhada de leite e manteiga. Júlia correu em sua direção para pegá-lo, mas não conseguiu. Bob escapou rápido de suas mãos e de uma só vez pulou, como bom trapezista, para cima da geladeira, refugiando-se, por momentos, onde se encontrava um vaso com belas rosas vermelhas. Derrubou-o de uma só vez. Nova perseguição, cada vez mais intensa, na sala de estar, bem diante de toda a família, que correu para ajudá-la a agarrar o belo e ensinado cão. Novo pulo no chão, onde se erguia um vaso chinês com mais de cem anos de existência e que pertenceu à bisavó de sua mãe. Com a trombada que Bob deu nele, o vaso despedaçou-se, fazendo um barulho seco e triste.

O desespero e a impotência estavam estampadas na face dos familiares. Todos corriam desesperados, tentando segurar Bob. De camisola branca, Rosinha saiu de seu quarto, onde assistia à novela. Correu para a sala, xingando os piores nomes feios que conhecia, alguns que Júlia jamais ouvira em sua casa. Todos tentavam cercar o animalzinho, que passou a rosnar ameaçadoramente quando era seguro por instantes. Bob, espantado e acuado, daqui e dali, con­tinuava sua fuga e por onde passava, destruía o que encontrava: copos, livros, rádios e outros objetos. Num certo momento, encur­ralado na sala, pulou para dentro do quarto dos pais de Júlia.

Cercado por todos os cantos, subiu para cima da cama, novo avanço da tropa em sua perseguição, com várias mãos abertas prontas para agarrá-lo. Bob mais uma vez escapou do cerco, pulan­do, como grande artista que era, para cima do criado-mudo. Novo avanço da infantaria em marcha contra o inimigo. Os caminhos todos estavam agora fechados, não havia mais saída para Bob, ele estava derrotado. Mas ainda não foi dessa vez sua prisão, pois, per­cebendo que estava cercado e seria fatalmente aprisionado, fez sua última tentativa, tentou escapar de um modo que ninguém imagi­nava; pulou para sua única saída, a janela aberta do apartamento.

De uma só vez, com este pulo digno de um cão ensinado de circo, Bob despencou, voando para a morte, do vigésimo andar do prédio, sob os olhares cheios de ódio, mas também de piedade, dos perseguidores implacáveis. O pai de Júlia ainda tentou alcançá-lo, mas em vão, não tanto para salvá-lo, mas para castigá-lo.

Júlia chorou como nunca. Estava com raiva e, ao mesmo tem­po, triste. Para completar, ganhou uma espinafração do pai, que gritou cheio de cólera:

— Você nunca mais irá trazer um cachorro para dentro de casa, nem mesmo um de pano, muito menos os ensinados, esses são os piores!

Naquela noite Júlia não conseguiu dormir: lembrou durante toda a noite o dia alegre e triste, bom e mau que tivera. Assustava-se a todo momento, ouvindo o barulho que ficara preso à sua cabe­ça: o som terrível e abafado do corpinho de Bob, despedaçando-se ao bater no cimento duro e quente que rodeava o jardim. Júlia jurou que nunca mais iria brincar naquele jardim, principalmente no local onde ele morrera: o caminho que rodeava o jardim carre­gado de rosas brancas que exalavam, naquele dia, um maravilhoso perfume. Rosas tão belas como seu cãozinho querido.

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