O Pastor e o Bandido

Imagem - O Pastor e o BandidoUm criminoso, ladrão, assassino, traficante de drogas, se­questrador e outras ações semelhantes, cansado e entediado com a vida que levava de fora-da-lei, após ter completado sessenta anos, resolveu se recuperar. O marginal estava arrependido do que fize­ra e, para regenerar-se, saiu à procura da ajuda de um pastor de almas, cuja idade já havia ultrapassado os setenta anos.

O velho e decadente pastor, atraído e animado com o grande desafio, aceitou o convite de transformar o criminoso em homem honrado. O bandido, de fato, desejava mudar de vida, embora não pela convicção de que a vida de não delinquente era a certa e a melhor. Na verdade ele decidiu mudar de mau para bom, porque a sua capacidade criminosa havia diminuído. Ele não era mais o há­bil e corajoso bandido, pois estava desanimado, cansado e menos capaz. Em outras palavras, ele queria mudar por haver perdido o entusiasmo e a confiança na perfeição dos seus crimes.

A cada dia, ele passara a se julgar mais incapaz na arte de roubar, matar ou de ludibriar as pessoas. Ele estava, portanto, de­siludido com seu difícil trabalho e, por isso, irritado com o que estava fazendo, talvez agora por incompetência, decidiu passar a fazer o contrário do que fizera antes.

Ainda um pouco indeciso quanto à opção imaginada, para se certificar da correção de sua decisão – abandonar o crime e mudar de profissão – ele, antes de procurar o pastor para receber ajuda, entregou-se de corpo e alma ao crime pesado: sequestros, assaltos, roubos de bancos e de mercadorias e tudo quanto fosse crime. De­sejava testar sua hipótese de que não aguentava mais continuar a ser um bandido. Após ter trabalhado febrilmente durante três me­ses, dia e noite, como um marginal profissional, Fernando Beira-Rio teve sua suposição confirmada: ele não suportava mais viver como bandido. Precisava, antes de morrer, mudar radicalmente de profissão. Talvez pudesse viver feliz, fazendo o oposto do viven­ciado nesses três meses de desafio. Assim, ele estava convicto de que desejava fazer o bem às pessoas.

Diante do pastor de almas Horácio, o procurado, ao iniciar-se a conversa Fernando sentiu-se mais tranquilo ao descrever al­gumas de suas proezas, selecionando, para contar, algumas pou­cas e sem muita importância: pequenos roubos e assaltos. Ainda acostumado ao antigo modo de viver, Fernando automaticamente imaginou, durante seus primeiros encontros, ainda que não tives­se ido lá para isso, tentar levar o pastor a se aliar a ele em alguma empreitada grande e mais perfeita do que seus assaltos agora mal planejados, que deram poucos e fracos resultados. Nas primeiras conversas com Horácio, Fernando imaginava também poder rou­bar algo do pastor, ali mesmo na igreja ou na casa deste, quando tivesse maior intimidade com ele.

Mas suas ideias de tentar tirar alguma coisa do pastor, nessa fase de transição em que vivia, deram em nada. Primeiro, porque a simpatia e carinho do pastor para com ele desarmaram algum plano inconsciente de Fernando e, segundo, porque o pastor era um viúvo sem filhos e sem bens nenhuns, nada tendo para ser roubado. Matá-lo não acrescentaria nada aos antigos planos de Fernando.

Durante as visitas à favela onde morava e onde conversa­va com seus companheiros sobre seus dramas, como o possível abandono da criminalidade, seus atuais encontros com o pastor de almas Horácio e também sua indecisão acerca do caminho que tomaria, Fernando, aos poucos, começou a sentir um grande asco por toda aquela vida experimentada, por tudo aquilo que havia feito e que dera identidade à sua pessoa.

No mundo em que vivera, todos mentiam e tentavam trapa­cear, era um contra os outros, o mais esperto devia “passar a per­na” nos outros menos capazes. Fernando começou a imaginar para ele um mundo diferente, um ambiente semelhante ao vivido pelo pastor e pelos amigos e aliados deste.

A princípio, nos primeiros contatos, o pastor ficou espantado com o que ouviu durante a entrevista: estava diante de um crimino­so profissional. Fernando não era um qualquer, não era um “pé de chinelo”, era um perito, um criminoso capacitado e inteligente.

— Ah! Reverendo, aquilo não é viver, é um verdadeiro infer­no. Estou sempre em perigo, sou diferente do homem que trabalha ou estuda, paga impostos, respeita a Lei, o dever, luta pelo Bem contra o Mal. Sou uma ovelha desgarrada.

O pastor percebeu que Fernando conhecia bem as leis do certo e do errado, era um sábio em matérias penais e as possíveis punições e também algumas doenças como o mal que a droga — álcool, cocaína, crack e outras — causava às pessoas, como ela destruía os jovens.

Fernando continuou:

— Quero aprender a praticar a virtude… não sei como agir nesse sentido. Renuncio ao meu grupo e aos outros que agem como eu, para sempre!

O problema principal de Fernando apresentado ao pastor, que conhecia bem todas leis relacionadas à sua atividade, era di­ferenciar claramente o Bem do Mal. A princípio isso pareceu fácil para o pastor. Durante dois anos o marginal leu e discutiu com o pastor todos os livros indicados por ele. Comparou-os e fez algumas descobertas a ponto de chegar a criar, com sua excelente inteligên­cia, novos esquemas comportamentais e cognitivos. Entretanto, ao contrário do que esperava, a cada dia mais nervoso, Fernando foi percebendo que ainda não havia encontrado a resposta desejada.

— Não suporto contradições, li o último livro que você me emprestou – declarou irritado Fernando. E continuou:

— Seus livros estão cheios de contradições, como sempre foi minha vida na favela e no crime.

O pastor sentiu-se irritado ao perceber que o criminoso, em lugar de aceitar as crenças expressas nos livros e nas conversas, criti­cava os ensinamentos fornecidos com muita fé e carinho. Quase gri­tando com Horácio, Fernando continuou suas críticas asperamente:

— Se por um lado tudo é proibido, de outro, tudo é permiti­do. Para um livro uma coisa é boa, para o outro ela é má. Assim, os pastores se dizem neutros e capazes de perdoar, entretanto, eles se irritam, têm suas preferências, não toleram certas posições, ou seja, são como todos nós somos, como os meus ex-amigos são.

Nervoso, o pastor criticou Fernando duramente, mas imedia­tamente este, cada vez mais irritado, retrucou:

— Estou à procura de uma resposta que me possa guiar ou servir para sempre, para todos os casos da vida. Busco uma “ver­dade” que não encerre em si nenhuma contradição, isto é, que seja clara, transparente, possa me dirigir para um objetivo que me dê tranquilidade. Estou cheio de orientações contraditórias, sem­pre vivi com elas. Apaixonado pelo bem, apaixonado pela causa do Bem puro, Fernando continuou seu discurso inflamado com o velho pastor, cansado e aborrecido, já meio desanimado daquele religioso querelante.

— Para mim é difícil, em virtude de minha natureza, praticar o Bem. Vim aqui para isso, aprender a praticar o Bem, abandonar o Mal. Para isso preciso saber o que é o Bem e o que é o Mal. Apenas isso. Creio que isso não é pedir muito.

Mas nada tornava Fernando seguro acerca da diferença entre o Bem e o Mal: os livros, as idas à igreja, as conversas e exemplos. Pouco a pouco, por mais que o bandido se esforçasse para colocar em prática as ações baseadas nos ensinamentos, elas sempre davam errado e traziam novas dúvidas. Eram explicadas e novas noções discutidas, incentivadas pelo pastor Horácio para serem postas em prática. Mas tudo continuava a dar errado. Fernando agia seguindo à risca o ensinado: ao pé da letra. Quando o pastor lhe ensinou a dar sua camisa a um pobre, ele dava a camisa, mas nunca o pão ou qualquer outra coisa, pois essas outras coisas não foram faladas. Quando lhe foi ensinado a dar a outra face, caso levasse um tapa no rosto, ele partia para a agressão ao receber um golpe na cabeça ou no braço, isto é, se não fosse na face, como fora ensinado sim­bolicamente.

Horácio, diante dos fracassos do aluno, decidiu ensiná-lo de forma diferente, transmitindo-lhe as ideias gerais e só posterior­mente as ações específicas.

— Não te oponhas ao mal: essa é uma lei importante, disse o psicólogo um pouco desanimado com o aluno.

O marginal ficou assustado com o ensinado nas conversas posteriores. Mas, teimoso, afastou-se do pastor para iniciar suas ati­vidades concretas e no campo. Dois meses depois, Fernando retor­nou à igreja para conversar com o pastor. Estava mais magro e cada vez mais desiludido. Com pesar, contou ao pastor que, passando por uma rua, viu uma mulher ser assaltada e morta. Quem a matou, para assaltá-la, era um ex-conhecido seu, fraco e medroso. Ele teve grande desejo de impedir o que o bandido estava fazendo. Não se­ria difícil. Achou tudo terrível. Entretanto, para seguir o ensinado, ele nada fez, pois lhe fora dito para “não ir contra o mal”.

Horácio, já tendo perdido a fé nos seus ensinamentos, deu uma outra lição para Fernando.

— Fique quieto a partir de agora, de olhos fechados e ou­vidos tampados. Dias depois, Fernando voltou todo marcado de picadas de mosquitos, contou que ele ficou quieto, pois, segundo as instruções, ele não deveria fazer nada.

Por momentos o pastor quase entrou em desespero, quase perdeu a paciência. Pediu a Fernando que nada mais fizesse. Teria umas férias por alguns dias. Enquanto isso, ele iria pensar que es­tratégia tomaria para salvar sua ovelha desgarrada. Filosofando, o velho pastor disse-lhe em tom de sermão:

— O bem possui tantas formas! Há inúmeras verdades que se cruzam, entrechocam-se, batem-se umas contra outras. Parece que se contradizem, mas na realidade não é assim. Qual é a verdade ver­dadeira? Ou, se todas são verdade, como distingui-las e encontrar a que possa servir melhor?

Essas declarações, aparentemente para preencher o tempo, enlouqueceram o bandido.

— Contradições por toda parte! Murmurou irritadíssimo Fer­nando. Não tolero contradições! Assim prefiro continuar sendo um bandido.

Os anos foram passando, o pastor, cada vez mais velho, pas­sava grande parte de seu tempo lendo e escrevendo, pensando em auxiliar, após sua morte, seu querido e obediente aluno. À medida que ensinava a arte de bem viver ao seu discípulo, percebeu tam­bém a dificuldade que era separar o Bem do Mal. Assim, uma gran­de parte do que ele havia escrito para seu aluno, foi rasgado num momento de incredulidade.

Fernando encontrou as páginas escritas por seu mestre joga­das num cesto, ajuntou-as para poder lê-las e procurou mais uma vez o pastor para discutir os assuntos ventilados nas páginas jo­gadas no lixo. Encontrou o pastor deitado e se preparando para morrer, mas antes ele queria ver a cidade onde morava, do alto da montanha que cercava o povoado. Fernando o levou até lá. Ao chegar ao cume, o pastor morreu.

Desolado, colocou os papéis rasgados numa certa ordem e começou a ler um por um. Não encontrou nenhuma regra geral, nenhuma prescrição sem exceção. O pastor Horácio tinha marca­do, minuciosamente, o que Fernando deveria fazer a cada dia até a morte dele, mas sempre tudo podia ser uma coisa ou outra, como nos exemplos: não matar, mas em certos casos, matar; não desejar a mulher do próximo, mas às vezes, devia desejar; não mentir, mas se for preciso, mentir, etc.

Fernando, desolado por não ter encontrado o caminho certo, imaginou que talvez o pastor estivesse disfarçado e fosse o próprio bandido principal. Assim Fernando continuou sua vida, até morrer anos depois. Aos poucos, foi se acostumando à vida dos não-crimi­nosos e ora matava, ora não, ora roubava, ora não. Certos dias ele se sentia até alegre e feliz. Todo o fim de semana ia para o alto da montanha e lá ficava por três dias sem se mexer, pensando.

2 comentários para “O Pastor e o Bandido”

  1. ENGANAR AS PESSOAS EM NOME DE JESUS:É com tristeza que vejo muitos pregadores desonestos, enganando as pessoas em nome de JESUS. É muita gente safada, visando apenas dinheiro, mais dinheiro, falando o nome de JESUS. Você para alcançar ou ser atendido por DEUS, não precisa pagar ou dar dinheiro pra ninguem, é só fazer o pedido com fé. Agradeça quando for atendido. Podendo, ajude sim.É importante participar e ajudar as pessoas. Existem muitas instituíções religiosas sérias, procure obter informações,antes de se tornar membro de alguma delas.

    Internet Explorer 8.0 Internet Explorer 8.0 Windows 7 x64 Edition Windows 7 x64 Edition
    Mozilla/4.0 (compatible; MSIE 8.0; Windows NT 6.1; WOW64; Trident/4.0; GTB6.6; SLCC2; .NET CLR 2.0.50727; .NET CLR 3.5.30729; .NET CLR 3.0.30729; MDDC; InfoPath.2)
  2. Não concordo com as suas palavras.Vejo que as suas palavras tem a intenção de falar mal da fé,e sei que através de Deus e de sua palavra(a Bíblia) muitos homens e mulheres são transformados.

    “Verdade é que também alguns pregam a Cristo por inveja e porfia, mas outros de boa vontade”;Filipenses 1.15

    “Mas que importa? Contanto que Cristo seja anunciado de toda a maneira, ou com fingimento ou em verdade, nisto me regozijo, e me regozijarei ainda.”
    Filipenses 1.18

    Firefox 6.0 Firefox 6.0 Windows XP Windows XP
    Mozilla/5.0 (Windows NT 5.1; rv:6.0) Gecko/20100101 Firefox/6.0

Comente!

Você precisa fazer LogIn para publicar um comentário.

Painel de acesso

Veja também…

Abuso / Violência Sexual Abusos nas Receitas Médicas Agressividade e Violência Alcoolismo (vício em álcool) Ansiedade Ansiolíticos Antidepressivos Aprenda a não ser tolo Avaliação Psicológica / Diagnósticos Casamento: felicidade e problemas Charlatões / Manipuladores Comportamento / Condutas Consultas médicas / Exames / Tratamentos Crenças antigas / Mitos / Superstições Cérebro e Mente Dependência Psicológica Dependência Química / Drogadição Depressão Desenvolvimento Cognitivo / Cognição Disfunções Sexuais (Problemas Sexuais) Divórcio / Separação Doentes Mentais - Pacientes Psiquiátricos Doenças e Doentes Doenças Mentais (transtornos) Dopamina Drogas / Medicamentos / Remédios Educação e Conhecimento Efeitos Colaterais Emoções Primárias Emoções Sentimentos Controle Entendendo o Ser Humano Esquizofrenia Estresse (Stress) Estresses Problemas e Adversidades Estruturas Neurais Estímulos Emocionais Estímulos Sensoriais Evolução da Mente Família e Casamento Festas populares e Lazeres Filhos Filosofia Funções Cerebrais Guerra dos sexos Ideologias e sonhos Informação Linguagem e comunicação Jovens Ligações Amorosas / Afetivas / Sociais Linguagem médica / Jargões Livros Online Grátis Livros Psicologia Livros Psiquiatria Mapa mental Medicina Antiga Medo Pânico Memória e Indivíduo Médico vs Paciente Neuro-hormônios peptídeos Neurociência Neuropsicologia Neurotransmissores Oxitocina ou ocitocina Pensamento / Raciocínio Percepção Estímulo Poder da mente Política: Políticos e Corrupção Problemas sociais Psicologia Psicose (Delírios / Alucinações) Psicoterapia / Psicanálise Psiquiatria Psiquiatria Antiga Razão vs Emoção Receitas Médicas / Prescrição de Medicamentos Relacionamentos Religião Riscos para Saúde Saúde mental Serotonina Sexo e Sexualidade Simbolismos Sinapses Sistema Emocional Sistema límbico Sistema Motivacional Sistema Neural Neurônio Sistema Sensorial Sociedade: Valores e Cultura Solidão Suicídio Suicidas Síndrome de Abstinência Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) Transtorno de Personalidade Anti-social (antissocial) Transtorno de Personalidade Narcisista Transtornos de Ansiedade Transtornos de Personalidade Transtornos dos Hábitos e dos Impulsos Transtornos Emocionais (de Humor) Transtornos Sexuais Uso de Drogas (Consumo)