O Julgamento Final de Carício Pena

Carício Pena morreu. No dia de Natal sentiu-se mal, após ter comido uma macarronada no Restaurante Popular. Como a macarro­nada era de graça naquele dia festivo, ele comeu demasiadamente.

Carício chegou ao seu barracão, onde morava só, sentindo um desagradável peso no estômago:

­— Vou tomar um pouco de bicarbonato… a digestão não está boa.

Em seguida deitou-se, mas não conseguiu dormir, em virtude do mal-estar que aumentou. A dor foi aumentando e, num certo momento, desesperado, começou a gritar. Foi socorrido por uma vizinha bêbada que, apesar de estar cambaleando, caminhou até o telefone público e pediu ajuda ao SAMU. Quando o socorro che­gou, duas horas depois, Carício já estava morto.

Neste mundo de Deus, aqui da Terra, a morte de Carício Pena não provocou mudança alguma. Se o cachorro de Alice, a vizinha que ouviu seus gritos e procurou ajuda, tivesse caído morto ali na favela, sua morte teria chamado mais a atenção dos moradores da redondeza que a morte de Carício.

Carício viveu na obscuridade e morreu nas trevas. Ele viveu ig­norado, os seus vizinhos mal sabiam seu primeiro nome. Carício, para eles, não possuía história, família ou profissão. Viveu sempre sem cha­mar a atenção das pessoas.

Carício nasceu por acaso. Sua mãe, uma débil mental, foi abu­sada por um carroceiro marginal. Ela ficou grávida sem saber o que era gravidez.

Para a mãe de Carício, uma mulher só ficava grávida quando se casava. Portanto, segundo o princípio dessa moça, ela não esta­va grávida, pois não havia casado. Em resumo: até os últimos dias de gravidez, sua mãe não notava e não sabia que ia ter um filho.

A família da mãe de Carício, envergonhada com o ocorri­do, procurou esconder o fato. Por ser uma família católica rígida, não se aceitou fazer um aborto, segundo o conselho de alguns parentes mais próximos. Após discussões diversas, os pais dela decidiram internar a paciente num hospital psiquiátrico, logo que ficou visível o crescimento do abdômen. Maria de Lurdes, esse era seu nome, foi então internada para que ela ficasse escondida dos parentes e vizinhos e, portanto, para que eles não tivessem conhecimento da gravidez dela, que representava uma vergonha terrível para seus pais.

Carício nasceu no dia 19 de março no manicômio São Judas Tadeu, da cidade de Dores da Esperança, onde sua mãe estava in­ternada. Imediatamente, conforme negociações da família, Carício foi doado para uma auxiliar de enfermagem desse hospital.

Por chorar muito desde que nasceu, e por proporcionar des­pesas extras pesadas para a enfermeira, Joana D’Arc presenteou Carício a D. Laura, uma aposentada devido a um AVC que lhe di­ficultou os movimentos corporais do lado esquerdo do corpo. D. Laura, morando só e com mais tempo para cuidar de um recém-nascido, aceitou o presente. Joana D’Arc deu à amiga aposentada R$200,00 para cobrir as despesas iniciais com o menino.

Carício não foi batizado, nem crismado ou registrado. Não tinha, portanto, certidão de nascimento, carteira de identidade e CPF. Logo ele não morreu para o governo e estatísticas. Nunca existiu.

Vivendo agarrado a D. Laura, sua terceira mãe, Carício conhe­cia cada gesto, cada palavra, cada expressão dela.

— Sei tudo de você, – dizia Carício à sua mãe e continuava: — sei como vai espirrar amanhã. Até isso eu sei, porque você já espirrou perto de mim mil vezes ou mais.

Carício queixava-se da falta de interesse, da vida vazia que tinha.

Assim viviam aqueles dois, que, no fundo, eram boa gente.

Viviam ambos na expectativa de que, algum dia, sucedesse algo que mudasse totalmente suas vidas tão vazias. Os dias seguiam-se mo­nótonos, sem que houvesse o que os distraísse. Às vezes, nos feriados, iam visitar amigos tão pobres de espírito quanto eles, outras vezes os amigos vinham vê-los e juntos bebiam, cantavam e muitas vezes briga­vam. Depois vinham de novo dias sempre iguais. Isso tornava a vida deles insossa e cansativa. Imploravam a Deus que algum dia as coisas melhorassem.

— Gostaria de ficar contente – dizia Carício a sua mãe ao se deitar, e continuava: — mas não consigo. Que motivo existe para eu ficar contente? Procuro e não acho nenhum motivo. Sinto-me sem­pre mal. Isso é vida? Uns doentes saram, outros morrem. Nós nem adoecemos, nem morremos, apenas somos obrigados a continuar a existir.

Carício, sendo um pouco esperto, aprendeu durante alguns dias que esteve no Grupo Escolar T P, a ler e escrever mal, o que lhe facilitou conseguir um emprego de entregador de mercadorias de um armazém. Aos poucos, devido à sua seriedade e conheci­mento de todos na pequena cidade onde morava, passou a traba­lhar como balconista e caixa do mesmo armazém.

Jamais deixou de cumprir suas obrigações: chegava sempre antes das sete horas, quando o armazém abria, entregava sem er­rar as mercadorias, não discutia com ninguém, sempre dava razão ao que reclamava, atendia todos educadamente e nunca deu um troco errado. Certa vez, foi até a casa de uma compradora trocar duas laranjas que ela havia comprado, por estarem ligeiramente estragadas, coisa que a compradora não notou. Para isso, com seu próprio dinheiro, escolheu as melhores possíveis para levá-las até a casa de D. Marocas e, com muito jeito, conseguiu convencê-la que as estava trocando, porque, após suas compras, chegaram novos estoques com laranjas melhores. Acontece que ela havia escolhido as laranjas estragadas, e ele viu, mas nada fez no momento. Após ela ter saído do armazém, não conseguiu fazer mais nada diante do sentimento de culpa que dominou sua mente.

Carício viveu sua insossa vida como vive uma pedra nas ruas de Itabira entre milhões de outras idênticas. Andando pelas ruas da cidade, do armazém onde trabalhava à Vila onde morava, nenhuma impressão de sua identidade ou pegadas foram marcadas. Ele viveu como uma fumaça leve e pouco densa, que se dissolve rapidamen­te no ar.

Depois que Carício morreu em outubro, as chuvas de dezem­bro e janeiro apagaram seu nome, o dia de seu nascimento e de sua morte escritos na parte mais alta do bloco de tijolos, que identifica­va a cova rasa onde foi enterrado. Onde havia informações escritas, surgiu uma mancha acinzentada de mofo. Poucos dias depois de sua morte, pessoa alguma de sua cidade era capaz de recordar suas fei­ções, de lembrar algum ato dele. Carício desaparecera totalmente.

Sem parentes e sem herança, viveu e morreu sozinho, pois sua mãe adotiva morreu quando ele era criança. Carício andava com o olhar vazio e fundo, as faces encovadas, sua cabeça pendi­da para baixo, como se carregasse um peso enorme nela. Estava sempre como se andasse em busca do túmulo. Quando Carício foi encontrado morto e a vizinha chamou a ambulância, o cantinho na Vila onde ele morava foi imediatamente invadido por outro mora­dor, pois eram dezenas os que, como ele, esperavam um lugar para viver, ou melhor, para morrer. Em resumo: na sua cidade, a morte de Carício Pena não causou impressão alguma. Carício viveu isola­do e silenciosamente morreu.

Mas sua história não termina aí. Como irá acontecer com to­dos nós, ele também foi chamado para o juízo final. Nesse encon­tro Carício foi julgado, para que Deus decidisse se ele merecia ou não viver sua segunda vida no Paraíso ou no Inferno,

Carício, portanto, foi interrogado e julgado pelo Senhor, jun­to ao seu ajudante, São Pedro, e mais promotores e advogados di­versos. O processo foi iniciado para determinar se ele poderia ou não ocupar um lugar no Mundo Celestial. Como todos que por ali passam, Carício estava trêmulo diante de tantas autoridades impor­tantes e da grande plateia que assistiria ao julgamento.

Ele recuperava memórias acerca de sonhos ocorridos na Ter­ra, sonhos esses que geralmente deram errado.

A leitura dos autos não demorou muito, sua vida fora muito simples. Depois, o advogado de defesa, constantemente interpe­lado pelo juiz que pedia maiores detalhes, foi contando a vida de seu cliente, a sua paciência e resignação, sua bondade, seu sofri­mento. A plateia começou a bocejar devido à falta de cenas emo­cionantes nos relatos. Sua história era muito pobre… O advogado, percebendo o desinteresse dos presentes e também dele próprio, arrependido de ter aceito uma causa tão simples e sem atrativos, e esforçando-se para ficar um pouco mais animado, relatou que, cer­ta vez, o seu cliente salvou um senhor que fora atacado por um boi bravo que era levado ao matadouro. O senhor, agradecido por esse gesto de coragem e bondade, o convidou para um casamento em sua fazenda e, durante a festa, arrumou-lhe um casamento com sua lavadeira. Mas os fatos em que Carício participava geralmente da­vam errado. Em outras palavras, Carício era um “pé frio”. O senhor ficou devendo a um e outro e finalmente perdeu tudo que tinha e também adoeceu e morreu. A mulher com quem Carício se casou, após trai-lo com o boiadeiro da fazenda, abandonou-o, deixando ainda um filho de dezoito anos para ele criar, um filho que não era dele. O filho, depois da saída da mãe e após arrumar uma amante, expulsou-o de casa, quando então Carício foi morar no cômodo imundo na Vila. Entretanto, nunca reclamou nada de ninguém e nem de sua má sorte. O advogado continuou seus relatos:

— Há dois anos ele foi atropelado por uma carroça, mas, como sempre, não acusou ninguém, ao contrário, ficou envergonhado de ter sido atropelado e desculpou o cocheiro por seus erros.

Nesse instante, o poderoso e temível promotor esboçou uma acusação, pigarreou, tossiu e desistiu de continuar. Calou-se. O ad­vogado de acusação, por indolência ou pessimismo, faltou à sessão.

Na falta de acusações e diante do silêncio de todos e do can­saço da plateia desinteressada, ouviu-se então uma voz grave e sua­ve: era a voz do Senhor Todo-Poderoso.

— Meu filho…

Após um longo silêncio que atingiu a todos, o Senhor repetiu:

— Meu filho, vejo que você nunca fez o mal. Noto que o que fez foi pouco, mas percebo que você fez conforme sua competên­cia. O reino do Céu foi feito também para os simples e pobres de espírito. Por isso tudo, e resumidamente, pois tenho vários outros julgamentos importantes para fazer e devido à sua conduta sem pecados, eu lhe ofereço o que você desejar aqui. Pode escolher!

Carício, pasmo, a princípio não acreditou no que ouvia. O Se­nhor repetiu a pergunta de novo, em vista da ausência da resposta.

— Escolhe o que quiseres, meu filho.

— Bem, se está oferecendo de verdade, se é assim – sorri Ca­rício Pena, – gostaria de receber diariamente, para almoçar, um pão quente com bastante manteiga e um prato bem cheio de macarrão.

Os membros do seleto Tribunal, o Senhor e Anjos, autoridades diversas e assistentes disciplinados, todos abaixaram a cabeça, olhan­do para o chão. Envergonhados, todos caminharam em direção à porta de saída. O promotor olhou para Carício e sorriu cheio de pie­dade. O julgamento estava terminado. Não havia mais nada a fazer.

Um comentário para “O Julgamento Final de Carício Pena”

  1. Carício….Conheço muita gente que vive porque ainda não pôde morrer , mas nõa conheço alguém com tamanha falta de sorte.

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