O Delírio de Jésus

O DELÍRIO DE JÉSUS

Após a morte de sua mulher, Isaura, a vida de Jésus não foi mais a mesma. Tendo abandonado, e sendo abandonado pelos fi­lhos, ele passou a morar sozinho no seu estreito quarto da favela, ao lado do bar onde bebia diariamente algumas pingas. Seus três filhos, Iria, Paulo e Lígia, foram entregues aos primeiros candida­tos que apareceram e nunca mais visitaram o pai, nem mesmo no Dia dos Pais. Desempregado, cabisbaixo e desanimado de tentar vencer as barreiras existentes à sua frente, Jésus passava grande parte do dia perambulando pelas vendas e botecos sujos de sua cidade, implorando pinga de um ou de outro que, geralmente, não era negada. Quando a fome apertava, pedia um prato de comida ora aqui, ora ali, e ia dormir. Seu assunto preferido, quando estava muito embriagado, era falar acerca da morte da patroa, sua querida Isaura. Nada comentava acerca dos filhos. Reclamava muito de sua má sorte, por ter perdido sua mulher:

— Sou um homem sem sorte. Perdi a coisa mais preciosa que tinha, Isaura. Era ela que lavava minha roupa, fazia minha comida quentinha, limpava meus chinelos e meu chapéu. Chorando, en­vergonhado, ele completava suspirando:

— Era capaz de me dar, quando estava de “boa índole”, até um carinho. Além disso, ela fazia um café com leite que era uma gostosura… nunca tomei outro igual.

Durante o mês de abril, Jésus, recordando o aniversário da morte de Isaura, bebeu mais que o costume, e talvez por isso mes­mo, não conseguiu nem dormir nem comer.

E assim ficou por alguns dias, largado à própria sorte. Para piorar sua vida e paz, ele começou a ouvir vozes estranhas, muitas vezes desconhecidas e ameaçadoras. Estas vozes, a princípio, até o divertiram um pouco, pois o tiravam do total isolamento em que se encontrava. Através delas, e só delas, ele novamente imaginava estar entrando em contato com o mundo exterior. Mas, para azar de Jésus, as vozes, uma vez mais acomodadas e íntimas, passaram a criticá-lo amargamente. De manhã até à noite, vozes às vezes es­tridentes e agudas, outras vezes graves e baixas, condenavam aspe­ramente seu comportamento indigno, sua bebedeira desenfreada, sua irresponsabilidade, sujeira e vadiagem.

Ele conseguiu, depois de alguns dias, descobrir de quem era uma das vozes ouvidas. Para seu espanto e decepção, a voz que mais o amaldiçoava era exatamente a voz de sua ex-mulher Isaura. Com o correr do tempo, as vozes se tornaram mais difíceis de serem identificadas. O fantasma de Isaura ameaçava Jésus de interná-lo, mais uma vez, no hospício. Ele tinha pavor de ser internado, pois certa vez, por engano, dois dias depois de ser internado e confun­dido com outro paciente, tomou eletrochoque à força. Nunca mais esqueceu o sofrimento. Por erro do enfermeiro, o eletrochoque foi aplicado com pouca voltagem. Por isso ele não perdeu os sentidos no momento, como era esperado, mas recebeu um choque elétrico comum, nos dois lados da cabeça. Sentiu uma enorme pancada na cabeça e repuxões diversos. O médico repreendeu o enfermeiro e, maquinalmente, sem nada mais comentar, aumentou ao máximo a voltagem na segunda aplicação. Desta vez ele perdeu os sentidos.

Pior do que essas lembranças, ameaças e críticas, mais peno­so do que todas elas era ouvir a voz estridente de Isaura, muitas vezes seguida de boas e sonoras gargalhadas, comentando e debo­chando do seu pequenino pênis.

— Debaixo de suas calças imundas mora um pintinho muito miúdo. Para vê-lo e examiná-lo é preciso puxá-lo com uma pinça e olhá-lo com lente. Vou falar para todos o segredo que guardo… seu pintinho não serve para nada!

Nesses momentos, Jésus, desesperado, xingava todos os no­mes possíveis e amaldiçoava a mulher que tanto amara. Ficava sem entender por que, depois de morta, sua mulher vinha infernizar-lhe a vida. Estas críticas eram extremamente desagradáveis. Amedron­tado com as vozes e os espíritos que o perseguiam no seu quartinho e na rua, Jésus, para se defender, passou a andar com uma velha navalha herdada de seu pai. Muito debilitado, já sem forças, este era talvez seu último esforço diante da aproximação da hora final. Colocou a navalha no bolso traseiro da calça e não mais a abando­nou. Algumas vezes, talvez para conferir a sua coragem, tirava-a e mostrava-a com orgulho para os bêbados do boteco. Com lágrimas nos olhos, contava longas histórias acerca do seu pai e como ele foi bom, lembrando com saudade os velhos tempos, quando era cuidado por alguém.

— Tenho saudades de meu pai. Era gente boa, olha o que ele me deu de presente quando minha barba começou a nascer. Certa vez, ele…

Ocasionalmente, usava a navalha para fazer a barba, após amolá-la no meio-fio da rua, quando os tremores na mão diminuí­am e havia ânimo para isso. A situação foi piorando dia após dia. Jésus, aterrorizado, começou a ouvir outras vozes e também a ver vultos, fantasmas, bichos e demônios mais estranhos ainda. Pas­sou a enxergar cavalos voadores roxos, rindo às gargalhadas de sua cara comprida, semelhante à dos muares. Via demônios, pig­meus negros dançando diante dele ao som de tambores invisíveis, iluminados pelo fogo que saía de archotes no alto do céu. Visua­lizava também sereias muito brancas e esguias, saindo enroladas da terra, rodopiando e pulando, imitando um balé esquisito. De repente, formavam-se em torno dele nuvens de borboletas verdes e mariposas vermelhas que voavam em torno de sua cabeça. De sua testa saía um facho de luz, como se fosse uma lanterna pre­sa ao seu corpo, que se assemelhava a um poste. De tempos em tempos, alguns insetos trombavam ou pousavam em cima da luz existente em sua face.

Nesses momentos, Jésus, desesperado, dava tapas em si mes­mo, na esperança de espantá-los ou matá-los.

Na sua tentativa de escapar dos inimigos, homens, animais e insetos zombadores e que tentavam enlouquecê-lo, Jésus não mais dormiu no seu quartinho. Passava a noite deitado, tampando os olhos e os ouvidos com as mãos, no corredor existente ao lado do boteco que mais frequentava. Escondido ali, imaginava poder tape­ar os espíritos que o esperavam na sua moradia habitual. Mas sua tática não funcionou. Todos os seus inimigos descobriram sua farsa e vieram até onde ele se escondeu e continuaram a persegui-lo.

Certo dia, desesperado com as críticas de Isaura acerca do seu minúsculo pênis, Jésus imaginou um modo de acabar com todo aquele sofrimento. Imaginou, conforme seu plano, provocar senti­mentos de culpa no fantasma de Isaura, como fazia quando ela era viva. Bastante embriagado, anestesiado pelo álcool, ele não pensou muito e decidiu, após acordar de uma bruta ressaca, cortar seu pênis para sempre. Para isso armou-se da velha navalha enferrujada que trazia consigo. De uma só vez, decepou o que lhe deu ver­gonha a vida toda e o impediu de procurar outras mulheres. Não sentiu dor, sentiu, sim, um tremendo alívio.

A partir daquele momento, aquela carne inútil, asquerosa e in­significante, provocadora de sofrimentos atrozes, não mais lhe per­tencia, não fazia mais parte de seu corpo, saía de sua imaginação. Este pedaço de carne imprestável foi jogado no lote vago existente ao lado do corredor onde dormia, enquanto ainda lhe restava um pouco de força. Era lá que o espectro de sua esposa o espreitava e o vigiava o dia inteiro. Ele sabia disso, outras vozes lhe tinham contado.

Da ferida esbranquiçada e funda jorrou um sangue morno, vermelho descolorido e ralo. Jésus apertou como pôde o que so­brou do corte, tentando impedir a saída do pouco sangue existente no seu corpo esquelético. Aos poucos, foi ficando ainda mais ton­to. Sem forças, desesperado, só, não lhe restou outra coisa a fazer a não ser gritar, pedindo socorro.

Os transeuntes que passavam por ali naquele momento, des­pertados pelo barulho, e sem entender o que viam, tomaram as providências usuais.

Poucos minutos depois, Jésus estava internado no hospital da cidade. O cirurgião chamado, preguiçosamente e aborrecido com esse trabalho, estancou a hemorragia com rapidez e fez uma limpe­za total da ferida feia que se formara. Também pouco tinha a fazer, pois o pênis fora totalmente decepado. Além disso, este não fora encontrado no lote vago, por mais que o procurassem. Um menino que ali passara logo depois do fato, relatou que viu um cão passar com uma coisa avermelhada dependurada no focinho. Jésus não deu nenhuma importância à perda daquele órgão. Por sorte, ele se recuperou do corte rapidamente.

Após a alta hospitalar, ele não voltou a beber. Vivia agora, depois desse episódio, de porta em porta, caminhando pelas ruas da cidade, pedindo aos seus conhecidos comida e roupas. De tem­pos em tempos era internado no hospital psiquiátrico, devido às suas maluquices. Agora sua tristeza era constante, mais que antes. Chorava facilmente, recriminava-se com frequência por seus peca­dos e erros, por ter sido ruim para os filhos e para a amada Isaura. Tentou diversas vezes o suicídio, estrangulando-se com suas pró­prias mãos. Quando tentava se matar, perdia os sentidos e, nesse momento, recuperava-se prontamente, pois suas mãos não mais pressionavam seu pescoço, mesmo este sendo frágil e fino.

Passava grande parte do dia deitado nos cantos da rua. À noi­te dormia debaixo de uma marquise, ao lado da igreja, pois, com sua internação, seu quartinho foi invadido por outros pedintes e nunca mais foi devolvido. Jésus, nessa ocasião, acreditava não ter mais intestinos, pois estes haviam sido comidos pelos gérmenes. Imaginava ter sido severamente castigado por Deus pela vida des­regrada que levou.

No dia de Natal, em vez de ganhar presentes, Jésus foi preso. Momentos antes de ser preso e algemado, Jésus ajoelhou-se, após tirar toda a roupa do seu corpo magro, rezando piedosamente dian­te do imenso presépio construído na frente da igreja.

Retirou com extremo cuidado a imagem do menino Jesus, do tamanho de um homem, colocada no leito simples da manjedoura e transportou-a, sem estragá-la, para o lugar onde ele sempre dor­mira, sob a marquise. Em seguida acomodou-se no lugar onde se encontrava a imagem do menino Jesus. Seu ato inocente escandali­zou o povo religioso, sério e ordeiro da cidade.

As autoridades discutiram as razões da detenção: “psicose, acompanhada de delírios e alucinações”, segundo o psiquiatra. Para o delegado, “perturbação da ordem social” e, conforme o pa­dre, “profanação de rituais sacros”. Jésus, sem nada entender do que foi dito a respeito de seu ato, foi detido assim mesmo.

Após ter sido arrancado do leito do presépio onde se acomo­dara, Jésus foi conduzido ao hospital psiquiátrico. Então, os bon­dosos e caridosos cidadãos da cidade puderam retornar à tranqui­lidade habitual.

Nessa bela noite de confraternização dos povos, enquanto as famílias ricas se reuniam, trocando presentes caros, bebendo vinho e champanhe, comendo peru, lombo e frios, brindando e cantando alegremente lindas e ternas canções em nome da igual­dade, do amor ao próximo e da caridade, Jésus morria, agredido dentro do hospital onde fora internado, por um outro interno, que o confundiu com um espírito mau.

A morte foi rápida. O companheiro de infortúnio, munido de uma velha lata contendo restos endurecidos de cimento jogada no pátio, abriu a porta do quarto onde ele estava. Bastaram duas pan­cadas fortes e secas na sua cabeça frágil, para esfacelar o crânio, enquanto ele jazia no chão frio. Não foi preciso fazer muito esforço para pôr fim à triste vida de Jésus.

Conduzido à sala silenciosa do necrotério, o corpo de Jésus atravessou a noite sozinho. Na vizinhança, grupos soltavam fogos, gritavam e cantavam comemorando o Natal festivo. O que restou dele, uma cabeça decepada e costurada num corpo, foi enviado à seção de anatomia da Faculdade de Medicina, Os órgãos, uma vez limpos e desinfetados, guardados em formol, até bonitos, foram aproveitados para futuras aulas de Medicina Legal.

Nas aulas, através do corpo inerte de Jésus, professores orgu­lhosos mostraram conhecimentos: compararam a lesão existente em seu crânio com outros contendo fraturas provocadas por por­retes, pedras e tiros. Enquanto isso, os alunos debruçavam-se sobre os ossos e o examinavam interessados. Uma parte do seu magro e pálido corpo foi esquartejada nas aulas de anatomia, servindo para que os calouros pudessem dissecá-lo e identificar músculos, artérias, veias, tendões e outros órgãos. Constataram, após exames minuciosos, que tudo estava no lugar certo.

A uma hora dessas, Jésus, provavelmente no céu, deve estar feliz e orgulhoso por ter servido e interessado aos ocupados jovens ricos e brincalhões. Eles examinaram e pegaram, por diversas ve­zes, as várias partes das peças anatômicas que um dia formaram o corpo vivo de Jésus. Apesar de ter tido uma vida inútil, agora, depois de morto, despertou a curiosidade e interesse de pessoas caridosas. Ao se transformar de homem em órgãos, Jésus ensinou algo de importante ao mundo, através de seu corpo mudo, nu e sem cabeça.

Estranhamente, nenhum aluno, por curiosidade ou qualquer outro motivo, perguntou, e também não pensou, quem fora aquele homem. Ninguém quis saber nada acerca de sua alma, de sua histó­ria ou seus dramas. Também, para quê? Jésus tomou tempo demais dos outros, morreu num dia impróprio e, além disso, era um inútil. Agora, apenas um ex-homem.

Comente!

Você precisa fazer LogIn para publicar um comentário.

Painel de acesso

Veja também…

Abuso / Violência Sexual Abusos nas Receitas Médicas Agressividade e Violência Alcoolismo (vício em álcool) Ansiedade Ansiolíticos Antidepressivos Aprenda a não ser tolo Avaliação Psicológica / Diagnósticos Casamento: felicidade e problemas Charlatões / Manipuladores Comportamento / Condutas Consultas médicas / Exames / Tratamentos Crenças antigas / Mitos / Superstições Cérebro e Mente Dependência Psicológica Dependência Química / Drogadição Depressão Desenvolvimento Cognitivo / Cognição Disfunções Sexuais (Problemas Sexuais) Divórcio / Separação Doentes Mentais - Pacientes Psiquiátricos Doenças e Doentes Doenças Mentais (transtornos) Dopamina Drogas / Medicamentos / Remédios Educação e Conhecimento Efeitos Colaterais Emoções Primárias Emoções Sentimentos Controle Entendendo o Ser Humano Esquizofrenia Estresse (Stress) Estresses Problemas e Adversidades Estruturas Neurais Estímulos Emocionais Estímulos Sensoriais Evolução da Mente Família e Casamento Festas populares e Lazeres Filhos Filosofia Funções Cerebrais Guerra dos sexos Ideologias e sonhos Informação Linguagem e comunicação Jovens Ligações Amorosas / Afetivas / Sociais Linguagem médica / Jargões Livros Online Grátis Livros Psicologia Livros Psiquiatria Mapa mental Medicina Antiga Medo Pânico Memória e Indivíduo Médico vs Paciente Neuro-hormônios peptídeos Neurociência Neuropsicologia Neurotransmissores Oxitocina ou ocitocina Pensamento / Raciocínio Percepção Estímulo Poder da mente Política: Políticos e Corrupção Problemas sociais Psicologia Psicose (Delírios / Alucinações) Psicoterapia / Psicanálise Psiquiatria Psiquiatria Antiga Razão vs Emoção Receitas Médicas / Prescrição de Medicamentos Relacionamentos Religião Riscos para Saúde Saúde mental Serotonina Sexo e Sexualidade Simbolismos Sinapses Sistema Emocional Sistema límbico Sistema Motivacional Sistema Neural Neurônio Sistema Sensorial Sociedade: Valores e Cultura Solidão Suicídio Suicidas Síndrome de Abstinência Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) Transtorno de Personalidade Anti-social (antissocial) Transtorno de Personalidade Narcisista Transtornos de Ansiedade Transtornos de Personalidade Transtornos dos Hábitos e dos Impulsos Transtornos Emocionais (de Humor) Transtornos Sexuais Uso de Drogas (Consumo)