O Assassinato do Amante de Regina

Preso por uns dias, até que fosse assinado o habeas corpus, por ser réu primário e ter bons antecedentes e residência fixa, o comerciante Afonso Elias estava transtornado com o acontecido.

Uma vez detido, foi aprisionado na cadeia comum de Lunó­polis, uma prisão quase sempre vazia, abrigando apenas, no má­ximo por um a dois dias, homens detidos devido ao excesso de bebida, briga no bar ou na rua, roubo de galinha durante a noite ou de laranjas no supermercado e quintais.

O crime de Afonso Elias foi mais sério e teve mais repercus­são. Quando praticou seu crime, tinha completado 48 anos, era ca­sado, tinha três filhos, todos homens. Afonso Elias era comerciante de roupas prontas, vendia também calçados e arreios. Passava gran­de parte do dia na sua loja, com muito pouco movimento. À noite, junto aos amigos, jogava “Marimbo”, um jogo simples de baralho, preferido pelos homens da cidade. As reuniões seguiam um horá­rio pré-determinado: começavam às 6:30 horas e terminavam às 9:30, todas as noites. As apostas, nesse jogo semifamiliar, eram pe­quenas. Jamais se teve notícia acerca de um ou outro companheiro de Afonso Elias ter ganho ou perdido suas economias no jogo.

Durante o jogo, mais que apostar para ganhar dinheiro, ele e seus costumeiros companheiros discutiam e comentavam os fatos da cidade, as brigas, os adoentados, os falecidos, quem comprou o quê e de quem, as mulheres fáceis de serem conquistadas e as que tinham amantes escondidos, os candidatos a vereadores ou prefei­to, ou seja, os mexericos da cidade.

Naquele dia fatídico, 19 de fevereiro, ele não compareceu à reunião de marimbo. À noite, seus companheiros de jogo, condo­ídos com o ocorrido, não fizeram outra coisa do que comentar e lamentar, por diversas vezes, o crime do amigo e companheiro de papos e do divertido jogo.

O crime foi praticado diante de todos, na própria casa onde Afonso Elias residia, bem na entrada da porta da cozinha que ficava na parte dos fundos da casa. A residência, situada na parte mais central da cidade, tinha duas entradas: a principal, onde existia um pequeno alpendre, e uma pelos fundos, alcançada através de um beco que lhe dava acesso. Naquele dia, Pedro entrou na casa pelos fundos, através do beco, com um sorriso ligeiramente sem graça. Havia alguns dias que Afonso Elias já estava a par de tudo.

Como sempre nas cidades do interior, as pessoas vigiavam umas às outras. Lá, como sempre ocorre nesses casos, todos comen­tavam o que ouviram falar, outros o que viram e muitos o que ima­ginaram. O caso de Regina e Pedro era antigo, conhecido há meses por quase todas as pessoas da cidade. Talvez o próprio Afonso Elias também já tivesse conhecimento do que estava ocorrendo, mas por medo, cautela ou amor à mulher, adiava tomar uma atitude, uma conduta, que seria drástica segundo os valores e padrões da cidade, com respeito ao homem cuja mulher o estivesse traindo.

Afonso Elias, como todos os homens até certa época de sua vida, ainda sem se apaixonar por uma ou outra pessoa, apenas pen­sava em arrumar um bom negócio para ganhar dinheiro, ali mes­mo em Lunópolis. Nascido de uma família de árabes que veio para o Brasil, nasceu em Lunópolis. Acostumado com o lugar, falando corretamente a língua dos pais e a portuguesa, inclusive com o sotaque do lugar, nunca teve intenções de largar a terra em que nasceu e amava. Quando começou a melhorar de vida, passou a ser considerado, pelos padrões da cidade, como um bom partido, um homem apto a se casar. Desde criança foi um pouco obeso e ainda jovem adquiriu uma calvície que foi tomando conta de parte de sua grande cabeça, quase sem pescoço, dando a impressão de estar enfiada no seu tórax largo e forte.

Ele caminhava sempre olhando para o chão, dando a impres­são de estar procurando alguma coisa. Certamente Afonso Elias não era um jovem considerado bonito e encantador, segundo os pa­drões das moças de Lunópolis, as que entravam na idade apropria­da para arrumar um marido, mas sempre segundo as orientações e prescrições dos pais, principalmente da mãe, pois não ficava bem para um homem se intrometer em assuntos acerca de casamentos, mais ainda de filha mulher.

Afonso Elias sabia que não era nenhum galã. Jamais foi elogia­do por alguém a respeito de sua beleza, elegância, charme, habili­dade amorosa ou outro atrativo físico valorizado pelas famílias do lugar. Também não era muito culto, jamais gostou de estudar, com­pletou apenas o quarto ano do primeiro grau, ou seja, sabia ler e es­crever e, principalmente, fazer contas. Esse era seu forte: trabalhar e administrar seus negócios, o que ele sabia fazer e muito bem.

Assim ele cresceu no seu próspero comércio de roupas, cal­çados e arreios. Foi por razões de seu bom desempenho no comér­cio, não por sua beleza física, que Regina foi empurrada pela mãe a flertar e facilitar uma aproximação com Afonso Elias, visando a um casamento. Primeiro foi nas procissões da cidade, aonde todos iam, depois nas festas de formatura, cavalgadas e outros encontros comuns na cidade. Regina, sem sentir nada por ele, foi cumprindo os mandamentos da mãe. Como devia olhá-lo, cumprimentá-lo, o que devia ser conversado durante encontros casuais e outros ensi­namentos mais. Era uma armadilha usada para conquistá-lo, cuida­dosamente trabalhada, de conhecimento das mulheres da cidade. Os homens, por sua vez, ignoravam que estavam sendo capturados, forçados, de modo decente, a se apresentar e fazer um pedido for­mal aos pais para poder conversar com a “escolhida”, que era, de fato, a escolhedora. A partir do pedido formal, indicador do início de um namoro sério, iniciava-se o namoro que quase sempre termi­nava em casamento. Assim foi feito.

O namoro demorou meses para ser iniciado devido à extrema timidez por parte de Afonso Elias. Era difícil para ele aproximar-se de uma moça para namorar, mas seria menos difícil se ela fosse muito feia. Regina, ao contrário das moças feias e comuns, tornava-se mais difícil ainda de ser abordada por ser, não só uma moça muito bonita, mas também por ser filha de um farmacêutico da cidade, portanto, de um homem importante. Afonso Elias, a princípio, diante das primeiras investidas dela, nem imaginava ser possível Regina estar interessada nele. Sabia que não atraía moça alguma pela sua beleza e, portanto, ela deveria ser cortejada por rapazes mais elegantes e bonitos que ele.

A moça, por outro lado, obrigada e sem escolhas, seguindo as instruções familiares, fazia tudo para facilitar a aproximação da presa indicada, ou seja, do candidato tolerável que tivesse situação financeira estável, condições de poder cuidar da mulher e dos fi­lhos que eram esperados nascer após o casamento.

Algumas outras características eram exigidas para que o can­didato fosse aprovado pela mãe de Regina: uma, a de que ele fosse classificado pelos avaliadores da cidade como sendo um homem sério e trabalhador. Outra, a de que fosse filho de boa e respeitá­vel família, conhecida por todos, de preferência gente do lugar. Afonso Elias preencheu quase todas as qualidades exigidas. Desse modo, o namoro, após ser aprovado pela mãe e receber o aval do pai, começou, pois não havia restrições graves contra a entrada dele na família de Regina.

Afonso Elias, após a apresentação definitiva aos pais de Regi­na, tornou-se namorado dela, isto é, o homem escolhido pela mãe e pai para formar e criar com ela uma nova família. Em seguida ao primeiro encontro, quando foi formalizado o namoro e os preparati­vos para noivado e casamento, Afonso Elias, ao voltar para sua casa, ao encontrar os amigos de ontem, já estava transformado em outro indivíduo pela seta do amor. Era um “Afonso Elias” diferente do an­tigo, um paciente contaminado pela “doença maligna” da paixão.

Ao começar o namoro, Afonso Elias transformou-se, de ho­mem sensato, ordeiro e exigente consigo mesmo e também com seus subordinados na loja, em um homem desleixado e despreo­cupado. Deixava para depois seus afazeres, muitas vezes passou a esquecer o que precisava realizar.

Talvez animado com a conquista, eufórico e muito seguro de si mesmo, passou a se importar menos que antigamente com as consequências de seus atos.

A preferência e a posterior ligação de uma pessoa com al­guém podem durar anos, mas é raríssimo. O mais comum é perma­necer meses, semanas ou dias, mas algumas vezes nossa simpatia por uma pessoa não ultrapassa algumas horas. O amor de Afonso Elias por Regina continuou, até mesmo após a morte de Pedro. Após matar o amante de sua mulher, ele ainda a continuou amando por um longo tempo.

A partir do encontro na casa dos pais de Regina, onde foi pro­tocolizado o namoro e casamento futuro, o namorado passou a ser um homem mais comedido. Deixou de ser o indivíduo livre que era antes, não só para julgar, como para falar e talvez não fosse tão livre como era, a partir daquele momento solene, nem mais para pensar ou imaginar. Agora ele passou a ser um homem “apaixonado”.

A partir desse momento, alegre e triste ao mesmo tempo, toda e qualquer ideia, julgamento, conduta futura, decisões em casa ou no trabalho, eram julgadas e avaliadas contando com a pre­sença mental, a representação de Regina, da família de Regina e da vida futura que teria com Regina.

De uma hora para outra, Regina, sem o desejar, ao invadir sua mente, a dominava naturalmente e sem esforço. Ela participava, im­plicitamente, de todas os comportamentos do namorado: planos, emoções e pensamentos futuros. Como uma rainha poderosa, ao contaminar o mundo particular de Afonso Elias, controlou também as emoções, motivações e cognições deste, bem como as decisões decorrentes desses fatores. Agora, a mente dele estava dominada pela nova habitante: Regina influenciava profundamente quase todas, ou todas, as decisões que ele tomaria a partir daquele momento solene.

Durante o relacionamento inicial de um namoro, a grande atração é a sensualidade. Entretanto, geralmente, à medida que se esgota a satisfação com respeito à sensualidade, ao acostumarmo-nos com a beleza de toda hora e de todo dia e, principalmente, quando essa diminui mais ainda em virtude das rugas, mudanças físicas, aumento do peso, manchas corporais, fala exagerada, mui­tas queixas, encurvamento do tronco e outros transtornos, os dois apaixonados de antes se defrontam com uma relação nova, muito diferente da inicial e passada.

Os objetivos, que eram claros no início do relacionamento, se tornam confusos, pois os dois passam a conviver uma nova li­gação. Eles não são mais as antigas pessoas, mas sim dois seres recém-nascidos e ainda desconhecidos, pois o objetivo físico que predominava, coordenava e dirigia a relação, ao diminuir ou aca­bar, produz o nascimento de duas pessoas desconhecidas. Uma vez estando mais distantes os antigos conhecidos, os novos per­sonagens que emergiram tendem a exibir escancaradamente uma relação egoísta, estranha de um para o outro. O elo que os unia era a admiração da beleza e o ganho do prazer, como isso foi perdido, cada cônjuge continua a querer admirar e gozar algum prazer. En­tretanto, isso não mais existe, pois a fonte inicial não jorra mais e, portanto, não é mais possível beber daquela água.

Mais tarde, após o casamento e o nascimento dos filhos que, com frequência, constituem uma mudança de hábitos, surgem no­vos pensamentos e emoções, e também novas fontes de prazeres e tormentos. No caso de Afonso Elias e Regina, nasceram três me­ninos agitados e pirracentos, cada um deles brigava com os outros constantemente. Dentro do lar todos estavam ligados à mesma cor­rente de discussões comuns existentes em todas as famílias fecha­das, uns envenenando a vida dos outros.

Lamentavelmente nenhum deles tinha, nem procurava ter, consciência de toda a miséria experimentada. A família se desman­chava, perdia as amarras que unia seus membros. Estranhamente, talvez por estarem todos aprisionados para sempre, no mesmo bar­co, à família, à mesmice de todos os dias, às regras imutáveis.

Cercados para sempre por suas famílias destruídas e emara­nhadas, assistia-se, servindo de modelo, aos habitantes de Lunópo­lis alcançarem a idade de cem ou mais anos.

Segundo as regras do lugar, era sagrado seguir à risca as co­memorações usuais do calendário das famílias da cidade: festas de aniversário e dos cem anos, bodas de diamante, de ouro e de prata, reuniões familiares com retratos dos filhos, netos, bisnetos e tataranetos, noras, genros e outras, as comemorações do Natal, as visitas aos túmulos nos aniversários de mortes, etc.

Entretanto, diante de tantas comemorações, bem como a es­pera de outras tantas festas, o homem dos cem anos, o casal das bodas de ouro, bem como alguns jovens, não percebiam que já tinham morrido e apodrecido há muitos anos. Transformaram-se em cadáveres embalsamados, restos do que foram antes de serem aprisionados na beleza do grupo familiar imutável e admirado pe­los de fora.

A família de Afonso Elias e Regina estava ocupada demais para examinar a si mesma, a qualidade de vida que cada um deles levava, a relação de cada um com o meio em que vivia e com os outros. Não havia tempo nem curiosidade para isso, pois o tem­po disponível existente era gasto com ataques contra um familiar ou amigo, nos outros momentos com defesas e contra-ataques dos mesmos indivíduos. Todo o trabalho mental era desviado para as pressões acerca da prisão onde todos estavam encarcerados.

As conversas entre eles – Afonso Elias, Regina, os pais dela, os pais dele e seus filhos – eram cada vez mais superficiais. Uma vez reunidos, falavam, contavam casos e mais casos, simples e sem in­teresse para a vida de cada um: Quincas adoeceu, Donato arrumou emprego, Cidinha vai se casar, Dorotéia cozinha bem e Longina faz um extraordinário café com leite..

— Quais são as novas?

— Soube da última? Gabriela ficou grávida.

— Outra vez? Já tem um filho…

— Um, não, dois. Será o terceiro e de pai diferente.

— Sabe que Altair está doente?

— Não sabia, não. O que aconteceu?

— Ouvi falar que é coração.

— Meu filho ontem fez uma composição na escola; foi muito elogiado, ganhou nota 9.5. Tá todo alegre.

— Quando eu tava na escola, era bom nas composições, mas D. Edina não gostava de mim, assim não dava essas notas boas.

— Você já comeu o pão com caldo do bar do Bira?

— Não, já ouvi falar que é bom.

— Gostoso e barato.

As conversas, durando uma, duas, três ou mais horas, seguiam esse padrão. Eram relatos de casos aleatórios. Passavam de um caso a outro, sem que houvesse a menor ligação entre eles, a não ser a necessidade do interlocutor de falar até se cansar.

Assim nasciam bate-papos sem fim, pois não tinham objetivos explícitos. Às vezes surgiam discussões infindáveis, sempre com as mesmas divergências, os assuntos saltando de um a outro ponto sem nenhuma ligação aparente: do nascimento do sobrinho à mor­te do tio, da falcatrua do prefeito à beleza do jardim dos Meiras. Cada um fala mais alto que o outro, todos censuram todos, tudo era criticado, pois ninguém sabia nada:

— Ora, isto já se sabe há muito tempo, é sempre assim. Você disse…

— Mentira! Eu não disse isso!

— Como não disse! Eu ouvi você dizer, você já disse isso mesmo outras vezes.

— Quer dizer que eu é que estou mentindo?

Desse modo começava a discussão, a horrível discussão de to­dos os dias, de todos os encontros, repetida inúmeras vezes, usan­do sempre os mesmos argumentos, provocando sempre as mesmas emoções desagradáveis. Cada discussão era intercalada por críti­cas, xingamentos, agressões verbais e ameaças de todos os tipos:

— Não aguento mais, o jeito é me suicidar!

— Mentira! Isso você já falou várias vezes!

— Espere para ver!

— Não tolero mais essas suas ameaças. Eu tenho vontade de te matar! Isso sim! Ouviu? Te matar!

Durante anos, inúmeras discussões acaloradas ocorreram, isto é, discussões mais emotivas que cognitivas, que nunca leva­vam a coisa alguma. Após cada disputa, nada, mas nada mesmo, era acrescentado, não havia o menor crescimento no conhecimento anterior dos dois envolvidos, ou, em muitos casos, entre os cin­co envolvidos: Afonso Elias, Regina e os filhos. O conhecimento obtido através desses questionamentos exaltados após terminarem devido ao cansaço das partes, era sempre nada, nada mesmo: tudo ficava com como antes. Afonso Elias e Regina discutiam continua­damente. Os dois retornavam sempre onde começaram, sem que houvesse um mínimo desenvolvimento. A briga era inútil, pois não trazia a menor melhoria de vida para a família dos envolvidos. Apesar de sua nulidade, essas conversas exaltadas sempre retorna­vam, minutos, horas ou dias depois. As discussões muito emotivas e pouco cognitivas funcionavam como um CD estragado: repetiam a mesma melodia várias vezes. As discussões funcionavam como uma indústria fossilizada fabricando os mesmos objetos mentais, do mes­mo modo, pois eles, por serem mal feitos para os novos tempos, não mais se adaptavam ao mundo para o qual eles estavam sendo fabricados.

Esses diálogos – ou seriam monólogos? – expressavam não só uma grande falta de conhecimento dos cônjuges, como também uma menor habilidade para ter prontas outras estratégias diferen­tes e eficientes para serem usadas. A maioria das conversas era acerca de casos já escutados, fatos vividos apenas pelos familiares, ou seja, um mundinho de cada um, eventos simples e concretos, percebidos e sentidos, ocorridos com a mãe, pai, sobrinhos, tios, avós e avôs, primos e vizinhos ou companheiros de trabalho e ou de diversão.

Os falantes nunca examinavam ou interpretavam o que ti­nham ouvido ou lido (se por algum motivo estranho um deles les­se). O fato era contado puro, sem interpretações, sem ligação de um fato a outro ou outros, para que eles pudessem fornecer uma compreensão melhor e mais profunda.

Tudo era superficial, liso e pobre. Em resumo, o discutido não era discutido, era apenas narrado e não interpretado a partir de ideias que não tinham sido faladas, nada era entendido no sentido de ser relacionado a outras coisas. Estas eram apenas escutadas e talvez memorizadas da mesma forma que entraram nos ouvidos. As conversas, às vezes, eram cômicas:

— Na festa ela foi considerada a mais bonita…

— Não foi a mais bonita, foi escolhida a mais charmosa.

Pouco a pouco a vida de Afonso Elias e de Regina foi se trans­formando. Ele, anteriormente apaixonado pela Regina linda e den­gosa, aos poucos não mais podia vê-la, ou mesmo ouvir sua voz ou escutar seus passos dentro de casa. A bela moça que ele conhe­cera e pela qual se apaixonara há alguns anos, antes de se casar, não mais existia. Morrera! Com a nova Regina, a atual, ele brigava constantemente. Ela era um produto indigesto, detestável, fruto da construção esquisita feita com a ajuda dele, dela e dos filhos do ca­sal. Não havia mais esperanças. Entretanto, ele não a largava, estava irremediavelmente agarrado e dependente dela.

Ela casou-se, porque devia se casar, ou seja, precisava casar, estava na idade de casar, pois sua família achava que Afonso Elias e a loja dele eram um bom partido. Ela percebeu, desde o primeiro momento do namoro, que sentia por Afonso Elias mais aversão que atração, mais compaixão que amor. Regina não foi atraída por Afonso Elias, foi dominada pelo arquétipo ou cânone estabelecido na cidade: “casamento”, uma regra ou prescrição que devia ser seguida por to­das as mulheres de Lunópolis. Casar, naquela cidade, era uma obriga­ção que toda moça normal e honesta devia cumprir sem contestar.

O modelo ou protótipo a ser seguido era mais importante que a escolha da pessoa com a qual ela imaginava viver feliz. Confun­dindo os objetivos, seguindo uma regra e não uma escolha decor­rente de um estado emocional favorável e de cognições racionais, as moças da cidade ficavam felizes provisoriamente ao realizarem o “casamento” ordenado pela sentença condenatória, por terem completado uma obrigação social e não um ato individual.

Elas deixavam de lado a questão básica: casar para quê? Ao contrário, imaginavam que viveriam felizes por terem casado, isto é, cumprido uma obrigação existente na cidade desde que a meni­na nascia. Ao mesmo tempo supunha estar realizando uma conduta que a tornaria normal, igual às outras, a exigida para todas.

— Quando você crescer, com quem vai se casar?

Em Lunópolis, a obrigação da mulher era se casar, enquan­to a do homem era escolher uma profissão que lhe permitisse ter uma vida independente. O homem ideal para se casar era escolhido pelos pais da moça, partindo do princípio, por sinal esquisito, de considerar e dar prioridade à sabedoria dos pais. Segundo esse para­digma, aceito por todos sem questionamentos, os pais teriam mais competência para escolher o candidato mais indicado para casar-se com sua filha. Conforme esse princípio implicitamente institucio­nalizado em Lunópolis, “o amor apareceria devido à convivência”, pois, como se sabe, não escolhemos nossos irmãos, nem nossos pais e, geralmente, gostamos deles. Entretanto, sabemos também que, muitas vezes, não gostamos de nossos pais ou de nossos irmãos.

Afonso Elias ia se afastando cada vez mais da casa e da espo­sa. Passou a ficar durante o dia trabalhando em sua loja e à noite ia encontrar-se com seu grupo, pessoas como ele, que não toleravam mais ficar em casa junto à mulher e filhos. Regina, por sua vez, obrigada por leis não formuladas claramente na cidade acerca de suas obrigações como o cuidado dos filhos, ficava em casa. Pouco a pouco, foi se acostumando com a morte precoce de si mesma. Não alimentava mais entusiasmo ou alegria por nada, tudo era monóto­no, já conhecido, rotineiro e chato.

Entretanto, nada é eterno. Certo dia, durante uma pesada chu­va, um estrago na calha e no telhado onde ela morava, fez com que houvesse infiltração de água em algumas paredes da casa onde morava a família. Reclamou ao marido o ocorrido, mostrou-lhe as paredes úmidas e o mofo que começava a aparecer. Ele, sempre muito atarefado e não mais apaixonado por ela, achou desnecessá­rio perder seu tempo com um problema tão pequeno.

Após muitas reclamações, quando a tosse e o chiado no peito dos filhos apareceram devido ao mofo, Afonso Elias decidiu procu­rar um profissional capaz de consertar a calha, o telhado e pintar o lugar onde apareceu o mofo.

Num fim de tarde, chamou para isso um jovem claro, de olhos azuis, simpático e extrovertido. Levou-o até sua casa numa tarde de sábado, para que ele visse o que era necessário fazer e combinar o preço do serviço. Ao entrar na sala de jantar, Afonso Elias e Pedro, nome do rapaz, encontraram Regina assentada numa poltrona. Ela aparentava ter mais ou menos a mesma idade do profissional contra­tado. Foi apresentada a ele, que, um pouco distraído, examinando mais a parede, quase não a observou. Entretanto Regina, carente, olhou para ele e imediatamente ficou impressionada e seduzida pela beleza física do moço. Pedro era um rapaz forte, alto, branco, quei­mado de sol. Tinha o nariz e boca bem formada, cabelos aloirados e cacheados, ligeiramente compridos. Imediatamente Regina compa­rou o estranho com o marido: ele era o reverso de Afonso Elias.

Naquela noite, após se deitar ao lado do marido, Regina, sem conseguir dormir, pensou no rapaz durante toda a noite. Ansiosa, esperava a segunda-feira, que custava a chegar. Fantasiava, ao mes­mo tempo sentia culpa de estar imaginando o que não era permi­tido, o que não devia conceber: estar atraída por Pedro, sendo ela casada.

A segunda-feira chegou e o jovem e esbelto pedreiro come­çou o serviço. Regina, inquieta, apesar de se acusar por estar gos­tando do rapaz, automaticamente arrumava um pretexto ou outro para lhe falar: ora para examinar uma parte da casa, às vezes para lhe oferecer um café com bolo que ela mesma tinha feito na hora. O seu dia, antes vazio e triste, tornou-se alegre e dinâmico, antes mal-humorada, milagrosamente transformou-se em bem-humora­da. Com a chegada do pedreiro, revitalizou-se, tornou-se uma outra mulher, alegre, confiante, disposta e muito diferente do que era.

Com tristeza, percebeu que o serviço contratado, sendo pe­queno, estava prestes a terminar, por mais que ela interviesse para que demorasse mais tempo. Planejou, sempre com a consciência pesada acusando-a, esticar um pouco mais o trabalho do pedreiro e, ardilosamente, convenceu o marido a fazer um pequeno barra­cão nos fundos da casa que poderia, no futuro, servir como quarto de despejo, cômodo para a empregada dormir, caso tivesse que pernoitar em sua casa, por um motivo ou outro e, além disso, po­deria ser usado como um lugar para as brincadeiras dos filhos e dos amigos deles.

— Em resumo – completou Regina – o barracão trará mais conforto para nós todos!

Regina rejuvenescia, voltou a rir, a brincar, a ser gentil e, como resultado dessa mudança, houve uma acentuada melhora no rela­cionamento dela com o marido. Este, não muito dado às reflexões, indiferente e sossegado, sem perceber o que estava acontecendo na sua frente, não tentava decifrar e compreender os motivos da repentina mudança de conduta e do humor de sua esposa. Afon­so Elias, entretanto, sentia maior prazer nos contatos com Regina, consequentemente ficava mais tempo próximo dela.

A princípio não queria concordar com o pedido de Regina em construir um barracão nos fundos da casa. Entretanto, reagindo favorável e inconscientemente, não às palavras dela, mas sim ao modo simpático e agradável da atual Regina que resgatou memó­rias e emoções a ela ligadas, dos tempos em que era a namorada meiga e carinhosa, alegre e amável. Apaixonada, não por Afonso Elias, mas sim pelo pedreiro, transformava-se numa mulher agradá­vel e sedutora.

A nova mulher nascida desse encontro inesperado atuava po­sitivamente, sem querer, em Afonso Elias, que a enxergava como a Regina antiga, a mulher por quem se apaixonara há anos. Foi dominado por essas emoções, desencadeadas pelo aparecimento de memórias antigas e não pelas reflexões, que ele acabou por concordar com a construção do barracão, sem jamais imaginar as verdadeiras e escondidas intenções de Regina. Assim, Afonso Elias concordou, para imensa satisfação de sua mulher.

A construção facilitou ainda mais o contato de Regina com o jovem pedreiro, mantendo e aumentando a relação já começada. Foi assim que ela se aproximou mais ainda daquele príncipe en­cantado, que surgiu das trevas. Outros serviços foram inventados para que Pedro permanecesse mais tempo trabalhando na casa e próximo dela.

Regina pensava em Pedro vinte e quatro horas por dia. So­nhava com ele, imaginava conversas possíveis para o dia seguin­te, o que fazer para aproximar-se mais dele, que tipo de comestí­vel, no dia seguinte, iria preparar e oferecer-lhe. Nesses instantes, perguntava-se: “Será que ele irá gostar dessa carne? Não sei. Vou perguntar-lhe, disfarçadamente, antes de fazê-la.”

Regina transformava-se. Elegante e charmosa, novamente notava, cada dia mais, ao caminhar pelas ruas da cidade, que os homens voltaram a virar a cabeça em sua direção. Alguns mais ou­sados não deixavam de se expressar, fazendo um elogio ao seu cor­po, rosto e outros atributos físicos. Tudo isso a alegrava e a entu­siasmava, aumentava sua autoconfiança em conquistar o desejado, levando-a a ficar mais animada e revitalizada consigo mesma. Pas­sando a se cuidar melhor, dava a impressão de ser até mais jovem que realmente era, readquirindo, em parte, a beleza que possuía quando começou a namorar Afonso Elias.

O entusiasmo continuado, produzido por fantasias relaciona­das a Pedro, dominava sua mente antes adormecida. Agitada, temia deixar escapar condutas, comentários ou gestos diante de conhe­cidos e parentes, reveladores de sua intenção. Aos poucos, per­cebendo-se incapaz de carregar sozinha sua avassaladora paixão, decidiu contar seu problema a uma amiga e parente mais íntima e também mais livre. Animada por essa amiga, que anteriormente viveu situações semelhantes, Regina, após contar-lhe tudo e depois ouvi-la, decidiu tentar uma aproximação física com Pedro, pois até então o amor era platônico e isso já não fora nada fácil.

Em determinada manhã, seu marido, como sempre, tinha saí­do para a loja e os filhos, todos três, tinham ido à escola.

Excitada à espera da chegada do pedreiro querido, tendo sua mente invadida pela imagem dele, apressava-se em descartar o ma­rido, quando esse se demorava a sair de casa para se dirigir ao tra­balho. Nessa manhã, após se preparar como nunca visando seduzi-lo, convidou-o para um lanche na cozinha. Geralmente, quando ele era convidado por ela para comer alguma coisa, ao aproximar-se da porta que dava acesso à cozinha, estacionava ali, não passava da porta, ficava esperando receber das mãos dela uma xícara com café com leite, às vezes um chocolate acompanhado de pão com bastante manteiga, queijo e bolo.

Nesse dia Regina armou um plano diferente: convidou-o a entrar e se assentar num banco que ficava na cozinha. Pedro, en­vergonhado e desajeitado, a princípio recusou o convite, alegando estar empoeirado e muito sujo. Regina, confiante, segurou-o pela mão com força e carinho, e tentando ao mesmo tempo aparen­tar naturalidade nas ações, puxou-o para dentro da copa. Pedro, confuso, sem poder e obediente, acabou por se assentar bastante encabulado no lugar previamente oferecido.

Nessa manhã, Regina havia escolhido, para servi-lo, uma xíca­ra mais vistosa e bonita. Preparou-lhe, ainda com mais carinho, o de sempre e por fim procurou se assentar bem perto dele.

Frente a frente com aquele jovem belo que não mais saía de sua cabeça, e cada vez mais animada com a proximidade, mal respirava e sentia-se ofegante. Ao conversar sobre o casamento, e fingindo na­turalidade, segurou por instantes o braço de Pedro. Durante algum tempo, enquanto falava sobre o assunto que estava sendo ventilado, manteve suas mãos encostadas e presas no antebraço do rapaz.

Nesse instante Pedro notou que as mãos dela tremiam e su­avam ligeiramente. Os olhos de Regina brilhavam, do seu corpo bem talhado emanava um calor e perfume agradável e sedutor. Pedro, automaticamente, começou a ficar excitado, seu coração bateu mais rápido, e como ela, transpirava. Regina, por sua vez, continuava falando. Cada vez mais tenso, Pedro pressentia e viven­ciava o que começava a acontecer.

Num certo momento, como se fosse sem querer, encostou seu joelho nas coxas dele. Ele, maquinalmente, as afastou, arre­dando-as um pouco para o lado. Regina, sorrindo, comentou:

— Não gostou? Então me perdoe. Não vou mais te incomo­dar. Desculpa-me.

— Bem. Não é isso… – comentou, sem saber o que fazer e falar.

Estava iniciado o contato físico, a represa havia sido aberta, a água que jorrava era pouca, mas um pequeno canal estava aberto. O mais difícil e complicado tinha sido iniciado naquela manhã de sol. Ventos leves e suaves sopravam pela primeira vez naquele céu limpo e azul.

Para a Regina apaixonada, ficou claro que ela podia continu­ar suas investidas, o pior já fora feito. Percebia que ele não achara ruim, apenas ficou sem graça, envergonhado, talvez com medo de alguém aparecer em casa àquela hora. Mas, sem dúvida, havia gostado.

Pedro, bastante corado e suando levemente, levantou-se para ir trabalhar. Após se erguer e dar os primeiros passos em direção à porta por onde sairia, isto é, ao dar as costas a Regina para entrar no terreiro da casa, ela rapidamente pôs-se de pé e, depois de ca­minhar em direção a ele, delicadamente e cheia de calor, segurou-o por trás, dando-lhe um abraço terno, roçando finalmente seus lá­bios carnudos e molhados na nuca de Pedro. Assustado e amedron­tado, arrepiado por todo o corpo, sussurrou:

— Cuidado! Pode aparecer alguém! Seu marido, por exemplo.

— Não! Não tenha medo, está tudo fechado. Ele tem a chave da porta, mas coloquei a tranca. Assim ele não tem como entrar. Além disso, nunca vem a casa a essas horas.

— Você é uma mulher corajosa!

— Nem tanto. Você é que me dá coragem.

Nesse instante, ao se soltar do abraço de Regina, Pedro pre­parava-se para retirar-se e iniciar seu trabalho. Mais à vontade e repleta de confiança nas suas ações, segura de que podia ir em frente pois o caminho estava aberto, superexcitada após segurar com suas duas mãos finas e delicadas os dois lados da cabeça do ra­paz, aproximou seus lábios aos dele, apertando-o contra seus seios e abraçando-o com todo o calor e vigor possível. Nesse instante, ela pôde perceber dentro de si uma reação física que nunca tinha experimentado e então beijou-o demoradamente.

Nesse instante, mais animado e excitado, mas ainda amedron­tado, Pedro, procurou, após beijá-la, escapar dos abraços de Regina o mais rápido possível e sair pela porta da cozinha que dava para o terreiro.

— Não gostou? Então peço mais uma vez perdão. Acho que fui uma tonta. Não devia ter feito isso.

— Não! Ao contrário. Gostei! É que estou assim, sujo, fico sujando a senhora. A senhora parece que tomou um banho agora, está cheirando um cheiro gostoso…

— Verdade? Não está achando ruim? Nesse momento ela aproximou-se novamente de Pedro, chegando o rosto dela muito perto do nariz dele, encostando-o em seguida.

— Tá cheirando, a senhora é muito bonita – gaguejou o rapaz.

— Obrigada! Fala a verdade? Que bom! Há anos que ninguém me fala isso. Mas pare de falar “a senhora”, me chama de Regina.

— É que já me acostumei. Vou tentar. Dava a impressão que Pedro queria sair dali logo, iniciar seu trabalho, escapar de algum perigo sério.

Regina deixou-o sair, mas antes pediu-lhe:

— Dê-me mais um beijo antes de ir trabalhar, senão não dei­xarei você sair…

Pedro, sorrindo e sem graça, a abraçou e lhe deu um grande beijo que durou alguns minutos. Em seguida, transpirando e res­pirando fundo, o coração disparado, abriu a porta e saiu camba­leando pelo terreiro da casa. Regina, encostada na porta, quieta, olhava para ele, feliz com tudo que havia feito. Estava, sem dúvida, apaixonada por aquele homem pelo qual ela se transformou, logo no primeiro dia que o viu. Seus olhos encheram-se de lágrimas à medida que ele se distanciava de seu olhar.

Mais tarde chegaram seus filhos da escola, esfomeados e, em seguida, seu marido. O almoço naquele dia estava atrasado, mas ela, com alegria e felicidade, preparou com rapidez pratos excelen­tes aprovados por todos.

A partir desse dia, o relacionamento entre eles foi aumen­tando. Os encontros apaixonados, carregados de abraços e beijos, tornaram-se o principal e mais importante motivo para suas vidas. Os encontros, inicialmente superficiais, aconteciam dentro da pró­pria casa da família. Aos poucos, porém, eles se transformaram em relações cada vez mais íntimas.

As desculpas para a permanência de Pedro na casa de Regina foram se esgotando. Era, ora um pequeno conserto num lugar, ora ou­tro, um telhado estragado, um passeio que precisava ser consertado, mas, finalmente, o serviço de pedreiro terminou. Nada mais podia ser inventado para ser feito.

Entretanto, ao terminar todos os serviços possíveis, os dois já haviam combinado outros locais para se encontrarem e também qual a estratégia para que os encontros fossem escondidos e difí­ceis de serem suspeitados. Algumas vezes Regina avisava o marido que iria fazer uma compra qualquer, numa cidade próxima a Lunó­polis. Estava à procura de um artigo não existente na cidade, por isso ela tomaria o ônibus. Ao mesmo tempo combinava com Pedro, que possuía um fusca, para esperá-la na rodoviária da cidade vizi­nha, junto a uma loja conhecida dos dois.

Uma vez na cidade, e após descer do ônibus, Regina cami­nhava em direção à loja onde Pedro a esperava, sempre olhando para um lado e outro, evitando encontrar-se com um conhecido. Antes de encontrá-lo, e para justificar sua ida à cidade, passava na loja onde havia o objeto que ela fora comprar e não existia em Lunópolis.

Logo que Pedro a visualizava, abria a porta do fusca e rapida­mente após sua entrada, dava partida no carro em direção ao motel existente na saída da cidade. Uma vez no motel, os dois lá perma­neciam, se amando por duas a três horas, o tempo necessário para matar a saudade e também para justificar as compras feitas que eram levadas com ela no ônibus.

Diversas viagens à cidade vizinha foram marcadas e realizadas. A cada dia, Regina arrumava uma e outra desculpa para dar ao ma­rido enganado, evitando criar problemas futuros para ela: era uma ida às compras, dentista, médico, olhar uma exposição, encontrar com uma amiga íntima que lá morava e diversas outras. Mas Regina, como todos os homens, foi se habituando a essa rotina. A princípio, tomava os cuidados necessários para que seu marido nada desco­brisse. Assim, se marcasse o médico ou o dentista, ela realmente ia consultar esses profissionais ou, muitas vezes, na última hora os desmarcava, pois assim se preparava para o caso do marido, por um motivo ou outro, a acompanhasse algum dia. Tomando esses cuida­dos, tudo corria bem, nenhum acontecimento extra aparecera para atrapalhar os planos dos dois apaixonados. Afonso Elias estava mais preocupado com as vendas de camisas, calças, sapatos, arreios e outros objetos. Sua paixão pelo dinheiro foi aumentando, à medida que diminuía o amor pela sua ex-amada Regina.

Com o passar do tempo, com o hábito, o medo do casal foi diminuindo. Os dois, para facilitarem os encontros, começaram a se ver em dias especiais na casa da própria Regina, isto quando ninguém estava em casa, por exemplo, quando o marido viajava e levava consigo os filhos para um ou outro passeio. Regina, quando convidada e instada para acompanhar o marido e filhos, inventava uma doença, um desânimo existente ou qualquer outra desculpa. Bastava isso para ela, imediatamente, imaginar e se preparar para entrar em contato com a primeira e grande paixão de sua vida.Alguns outros encontros ocorreram em lugares escondidos, como na mata que circundava a cidade, outros ainda se davam na própria casa de Pedro.

Quando Regina decidia ir a casa de Pedro, para que tudo des­se certo e a execução do programado deixasse o mínimo de pistas, Pedro entrava com seu fusca num beco, que lhe servia de garagem e existente ao lado da casa.

O fusca era conduzido até o fundo da entrada, um lugar pouco visível olhado da rua. Uma vez ali, ela entrava no banco de trás do automóvel e se escondia debaixo de um cobertor. Em seguida os dois se dirigiam para a casa do amante.

Pedro morava com um irmão. Os pais de Pedro, sendo garim­peiros, moravam no próprio garimpo. Quando o casal ia se encon­trar na casa de Pedro, uma moradia modesta situada no alto de um morro, afastada das principais ruas da cidade, ele pedia ao irmão, caso este estivesse em casa, para que desse uma saída, combinan­do com ele a hora aproximada a que poderia voltar, sem causar problemas para ambos. Após o encontro, que era quase sempre apressado, ele saía como se estivesse só e ia para um ou outro lu­gar, antes de levá-la em casa e lá entrar pelo beco, como entrara quando fora buscá-la.

Cada vez mais enamorados e apaixonados, os dois foram se preocupando menos em esconder os encontros. Muitas vezes es­queciam detalhes importantes que poderiam servir de pistas para a descoberta da conduta escondida do casal, quer nas suas idas aos motéis, quer na casa de Regina, na casa de Pedro ou nas imedia­ções das estradas.

Com o passar do tempo, querendo ou não, por diversas ve­zes foram vistos juntos por uma ou outra pessoa. Não tão devagar como eles imaginavam, quase toda a cidade de Lunópolis já sabia que Pedro era amante de Regina, mulher de Afonso Elias.

Dias antes do crime, Afonso Elias, segundo informações da­das por testemunhas após a prisão dele, em lugar de ir para seu trabalho, ficou fiscalizando, à distância, usando um velho binóculo, a casa de Pedro, onde o encontro estaria sendo marcado. Dentro do carro, Afonso Elias, de longe, pôde assistir, com grande sofri­mento, à chegada do fusca, à entrada dos dois, bastante à vontade e, finalmente, umas duas a três horas depois, à sua saída no carro em que haviam entrado. Nesse instante, sendo seu automóvel mais possante e estando mais perto de sua casa, não foi difícil para ele chegar a sua casa primeiro que ela.

Ao entrar, após ter fechado a porta, ficou quieto dentro de casa, como se nada tivesse acontecido. Afonso Elias, aflito, espera­va a chegada de Regina.

Ela não demorou a aparecer, vestida com uma roupa simples para não chamar a atenção. Tinha o ar alegre de quem havia rea­lizado o que desejava. Mas essa expressão inicial com que entrou em casa, logo se transformou. Após ter aberto a porta, ao entrar na sala, enxergou o que ela não esperava: seu marido assentado com a TV ligada no fim da tarde.

Aparentando calma, ele desviou os olhos da TV, fixando-os em seu rosto. Nesse momento ela estremeceu, imaginou voltar, sair pela rua, correndo, mas já era tarde demais. Ela nunca havia pensa­do encontrá-lo dentro de casa naquele horário. Gaguejando, suan­do frio, pálida e prestes a desmaiar, ela resmungou, sem encontrar coisa melhor para falar:

— Chegou cedo! A loja ainda está aberta? Regina tentou ini­ciar uma conversa, mas não conseguiu esconder que estava assus­tadíssima com a presença dele.

— É. Decidi vir mais cedo. Estava cansado – afirmou Afonso Elias, sem saber o que falar e como começar a conversa desejada.

— Está doente? Estou te achando um pouco pálido.

— É… – Afonso Elias ia xingá-la, mas, com muito esforço, con­seguiu se controlar, perguntando-lhe:

— Saiu? Onde foi?

— É… Sim! Ah! dei umas voltas, fui visitar a Rita. Disseram-me que ela estava doente, mas já está melhor. Era uma gripe sim­ples, uma coisa à-toa.

— Podia ter-me esperado, ia junto com você.

— Comigo? Nunca sai comigo. Todas as noites você sai para encontrar seus amigos, para jogar marimbo.

— Você tem saído muito! Disse Afonso Elias, muito irritado, pronto para explodir e soltar o que sabia.

— Muito? Por que essa pergunta? Regina estava doida para que o interrogatório acabasse, já estava quase certa de que ele sa­bia alguma coisa. Talvez soubesse tudo!

— Por nada, curiosidade. As mulheres de hoje em dia saem muito.

Não saía da cabeça de Afonso Elias a cena presenciada: sua mulher entrando na casa de Pedro junto com o amante. Ao mesmo tempo em que falava, inventando o que expressava, internamente, em sua mente, reviu o fato terrível e escandaloso que presenciou. Confuso, Afonso Elias pigarreou e perguntou:

— Onde você foi mais, além da casa de Rita?

— Em lugar mais nenhum.

— Jura?

— Claro! Juro!

— O que você foi fazer lá no Alto das Oliveiras?

— Por que pergunta? Você me viu lá? Apavorada com o que acabara de ouvir, Regina confirmou o que suspeitava: ela fora vis­ta entrando na casa de Pedro. Estava perdida. Fez a pergunta, já sabendo a resposta que seu marido ia dar.

— Vi. Vi você entrar na casa de Pedro. Entrou dando os bra­ços a ele. Sei que você faz isso há muito tempo. A boca de Afonso Elias espumava, sua cor mudou, seu corpo estava rígido, imagina­va esganá-la ali mesmo.

— Ah, sei. Percebendo que estava encurralada, sem nenhu­ma saída, Regina, desesperada, procurou ainda arrumar uma últi­ma desculpa. Muito desanimada, sabia antecipadamente que não funcionaria:

— É. É… após sair da casa de Rita, vindo para casa, vi o fusca de Pedro. Fiz um sinal para ele parar e acabei entrando no seu carro.

Nesse momento Afonso Elias estava possesso, pois ela, sem se importar, estava confessando o que ele viu, mas não queria acreditar.

— Você entrou no carro dele? Diante de todos?

— Não sei se você já escutou alguns mexericos que andam de boca em boca. Acredito que sim! Algumas pessoas, minhas ami­gas, me contaram. Corre um boato na cidade, nessa cidade atrasa­da, que eu sou amante de Pedro.

— Eu também ouvi isso e hoje comprovei. Vi com meus olhos você descendo do carro e entrando na casa dele. Afonso Elias não queria contar tudo que sabia naquele momento, mas não aguentou esperar.

— Estou te falando a verdade, retrucou Regina, interrompen­do a fala de Afonso Elias

— Falando a verdade? Você é uma mentirosa!

— Não sou de mentir! O que vou contar é a verdade! Após ter começado a falar, ao arrumar uma saída podre para dar, mas, enfim, era uma desculpa, tomou mais coragem.

— Não me interessa ouvir. Vi. Vi, ouviu?

— Mas vou lhe contar, pois é a verdade. Como não tinha como conversar com ele em particular, pois não devia ficar con­versando com homem em plena rua, pois, dessa maneira, estaria confirmando o boato que corre, e também como não podia trazê-lo para conversar dentro de casa, sem alternativa, eu própria pergun­tei a ele onde nós podíamos conversar sem ser incomodados por outras pessoas.

— Aí foi para o barracão dele?

— Onde mais poderia ir? Precisava pôr um fim nesses mexe­ricos injustos. Conversamos durante algum tempo.

— Duas horas, marquei no relógio.

— Não percebi que demorei tanto tempo. Acredito em você. O tempo necessário para que nós dois, eu e ele, pudéssemos des­cobrir um meio de não sermos injustiçados com essas afirmações descabidas.

— Afirmações descabidas?

— Sim, nunca tive nada com ele. Nada mesmo! Eu juro! Já conversamos algumas vezes, na maioria das vezes, ou melhor, todas as vezes, as conversas foram sobre os consertos que ele fez aqui em casa, ora era uma coisa, ora outra.

— Você acha que eu vou acreditar nisso?

— É a verdade verdadeira. Conversamos sobre as fofocas, pois isso está atrapalhando meu casamento, minha tranquilidade e a de nossos filhos. Além disso, está atrapalhando a vida dele também, dificultando sua vida amorosa. Sua namorada comentou o que você está suspeitando, que eu sou amante dele. Está um inferno!

— E afirma que não é? Todo mundo já sabe!

— Não sou! Nunca fui! Não somos nem muito amigos. Acre­dite ou não, queria conversar com ele a respeito dos boatos que têm-me perturbado. Saí até mais para isso e tive a sorte de vê-lo passar e me ver. Decidimos, para que não surjam mais boatos, não nos encontrarmos mais. Eu lhe peço, mesmo se precisarmos de um pedreiro, para fazer qualquer conserto num outro lugar, para não o chamar a ele. Ele não deve vir! Vamos procurar um ou­tro, pois só assim poderemos acabar com essas fofocas maldosas. Temos que fazer tudo para tentar acabar com essas conversas! Eu conversei com Pedro sobre isso. Disse a ele que não mais irei chamá-lo, que ele não deve vir mais aqui, pois, caso contrário, as pessoas voltarão a falar acerca dessa infâmia.

— Com você, não tem mesmo jeito. É uma mentirosa fria!

Nesse momento ele se levantou, caminhou até o banheiro e jogou um pouco de água no rosto. Achava que nada mais tinha a fazer naquele momento. Ainda com a face molhada, levantou a cabeça e olhou para o espelho, não gostando da cara que viu refletida.

Naquele mesmo instante, Afonso Elias começava a imaginar outros planos. Não havia mais nada para ser discutido, pois uma discussão visa compreender um evento complexo. Aquele torna­ra-se simples. Ao sair do banheiro, após pegar um copo, foi até a geladeira para pegar o litro de leite. Devagar, olhou fixamente para o leite branco que saía do furo do pacote, deixando o leite cair bem devagar de modo a fazer espuma no fundo do copo. Só interrompeu essa atividade, quando o mesmo estava entornando.

Vagarosamente, enquanto observava, através da janela, um terreno limpo e vazio, ele foi engolindo o leite sem sentir seu gos­to. Em seguida voltou ao espelho, examinou novamente sua face e saiu de casa, cabisbaixo, em direção à casa do amigo Roberto. Lá, Afonso Elias esperava encontrar mais paz, ao jogar marimbo com seus companheiros de muitos anos.

Na manhã seguinte foi até sua fazendinha, que ficava a cerca de cinco quilômetros de sua casa. Após dar as ordens simples e de todo dia aos seus subordinados, de vistoriar o gado junto ao seu ajudante direto, caminhou automaticamente até o chiqueiro e ali, durante algum tempo, ficou observando alguns porcos que se alimentavam.

Num certo momento, decidido, indicou com o dedo um dos porcos ao seu empregado, o qual deveria ser pego e levado até o terreiro, em frente à sede da fazenda. Iria matá-lo, pois estava pre­cisando de carne e também de um pouco de toucinho.

No terreiro, Afonso Elias tirou da bainha o punhal que sem­pre trazia consigo e rapidamente, com sua habilidade costumeira, deu uma certeira punhalada no coração do porco. Minutos depois, o leitão já estava sendo aberto e limpo, para retirada da carne e dos órgãos. Afonso Elias lavou com carinho o punhal, olhou-o por alguns segundos e, finalmente, após algum tempo, guardou-o na bainha presa à calça.

Sem conseguir pensar em outra coisa, Afonso Elias, dirigindo seu carro um pouco aleatoriamente, acabou por chegar até a cida­de de Jaboti, próxima a Lunópolis, possuidora de um comércio e população maiores. Na cidade procurou uma loja que vendia ar­mas, uma casa onde, há anos, comprara o punhal. Foi atendido por um senhor, que parecia ser o proprietário da casa. No momento não havia outros compradores na loja, a não ser Afonso Elias.

— Bom dia! – Saudou o vendedor.

— Bom dia, falou com dificuldade Afonso Elias.

— Em que posso servi-lo? – perguntou o comerciante de for­ma educada. A conversa continuou e Afonso Elias explicou ao co­merciante, com alguma dificuldade, que fora ali comprar uma arma para dar de presente a um amigo que iria se casar. Não saía de sua mente a imagem dele, usando uma boa arma, matando Pedro, Re­gina, e depois se suicidando. Internamente ele enxergava seu ini­migo morto e ensanguentado, espichado no chão, bem como sua mulher. Era difícil ver a si mesmo morto.

Com muita calma e detalhes, o comerciante foi mostrando a Afonso Elias uma e outra arma. O proprietário da casa, pegando cada arma existente no armário, ia colocando-as em cima do balcão e, resumidamente, sem demonstrar a mínima emoção, diferente da angústia de Afonso Elias, comentava:

— Esta aqui, tá vendo? É uma arma bonita, atrai à primeira vista. Entretanto vem de um fábrica ruim, dá muito defeito. Você aponta e quando aperta o gatilho, ela pode mascar. Imagine você, em perigo, atirando numa pessoa e o tiro não saindo.

— É… não daria certo, comentou Afonso Elias, imaginando estar atirando em Pedro.

— Custa barato, mas eu não a indico.

Já estava parando de falar, quando foi até a prateleira e, após subir em uma escadinha, tirou outra arma.

— Esta é uma espingarda…

O vendedor carregava a arma com cuidado e após colocá-la em cima do balcão, prosseguiu:

— Com essa é difícil errar um tiro. O tiro faz um buraco enor­me por onde sai. É uma excelente arma de caça. Se você estiver procurando, para dar ao seu amigo, uma arma de caça, esta tem um bom preço e é excelente. Pode comprar sem susto, mata mesmo qualquer animal selvagem.

— Estou pensando nisso. Mas pode me mostrar outras? Estou vendo ali… apontou para uma outra.

— Sim. Existem muitas armas. Cada uma é um pouco dife­rente, têm serventias diferentes também. Nesse instante, caminha novamente até a prateleira, procura uma e outra, depois abre uma gaveta e retira dela um revólver enorme.

— Bonito esse! É muito caro? É bom?

— Veja aqui. Tá vendo? Olhe aqui a marca! É uma Smith e Wesson, isso é arma para toda a vida. Não dá defeito. Nesse instan­te, inconscientemente, como se estivesse limpando a poeira que assentava sobre o belo revólver, passou a palma da mão nela e co­mentou, sorrindo para o comprador tenso:

— Serve para matar uma pessoa com um só tiro, caso você tenha boa pontaria. Serve também para um duelo, mas parece que isso não existe mais, mas de qualquer modo, ela servia para isso nos tempos de nossos avós, pois tem maior rapidez caso o outro comece a fazer o movimento do dedo ao mesmo tempo. Além dis­so, serve para assustar seu inimigo, pois só a visão dessa arma ame­dronta o bandido.

Interrompe por segundos a narrativa e continua:

— Desde que o bandido conheça armas. Tem um bom preço e eu lhe faço um bom desconto pagando à vista. Você estará bem servido e não vai se arrepender. Não mais irá precisar de outro re­vólver e, como todos os proprietários de Smith e Wesson, seu ami­go não irá dispor dele nunca mais. Será um revólver de estimação.

Nesse momento, Afonso Elias, ao ouvir os comentários do comerciante, desistiu da ideia de se suicidar. Refletiu que caso fi­zesse isso, não poderia usufruir, por muito tempo, do prazer de ter uma arma como aquela. E como ficaria seu comércio? Como pagar um preço tão alto por um revólver que seria usado durante um período tão pequeno, pois imaginava realizar seu trabalho com bastante rapidez. Seria interessante poder apreciar o resultado da ação provocada por uma arma tão formidável. Diante do silêncio, o comerciante recomeçou sua conversa:

— Já vendi armas como a Smith e Wesson para maridos que foram passados para trás por suas mulheres. Mesmo que eu perca as vendas, acho que não é uma boa forma de resolver um problema. Certos maridos matam a esposa, a mãe de seus filhos, a mulher que eles amaram num grau tão alto, que são capazes de destruir suas próprias vidas por elas, matando-as e indo para a prisão, exatamente quando surgiram alguns fatos que mostravam que elas, as esposas, não gostavam mais deles. Já tive alguns fregueses que me contaram que, na hora do desespero, quando descobriram que foram traídos pelas suas mulheres, tiveram vontade de esganá-las. Entretanto ou­tros, enfrentando o mesmo problema, veem isso com a maior natu­ralidade, como um fato comum que sempre existiu.

Alguns chegaram a pensar que as relações familiares melhora­ram com a traição de suas mulheres. Como se vê, cada um resolve esse problema de maneira diferente.

— É… eu vim aqui para comprar uma arma de caça para mim. Tenho uma fazendinha e às vezes gosto de sair pelo mato para caçar um gavião que está matando meus pintos. Não gosto de matar rapo­sas, veados e outros animais desse tipo. Sou um homem de paz.

— Eu também sou assim. Não sou de briga, apesar de vender as armas para as brigas. Mas, e seu amigo? Você não vai levar uma arma de presente para ele, como disse no início da conversa?

Nesse instante, Afonso Elias percebeu que estava confuso, pois, ao explicar o motivo da compra, havia falado que era para dar um presente ao amigo que se casaria.

— É… sim, para ele, sim! Mas como gosto de caçar, no mo­mento pensei em comprar, também, uma para mim.

— Ah! Entendi. Vai levar duas armas. Vou lhe mostrar um artigo de luxo para o que você quer. Servirá para o seu amigo e para você.

Nesse instante o comerciante, saindo de onde estava, cami­nhou até o cômodo de dentro da loja e voltou com um estojo. Com cuidado, abriu-o, limpando a poeira com as mãos como fizera com o revólver. Tirou a espingarda, levantando-a diante dos olhos tris­tes e indiferentes de Afonso Elias.

— Olhe que beleza! – exclamou o comerciante, segurando com uma das mãos a bela arma, e prosseguiu: — É uma arma alemã de excelente qualidade. Com esta arma você mata um gavião em pleno voo, facilmente, principalmente se tiver um bom ponto de apoio. Sem apoio, só para os profissionais. Tenho certeza que seu amigo e você vão gostar. Não sei se estou falando com um profis­sional?

— Não, não sou profissional. Atiro mal.

— Mas com essa não tem como atirar mal. Nesse momento o homem detalhou as vantagens da mercadoria que ele vendia. Após dar o preço e fazer o desconto à vista, como tinha falado, a conver­sa foi terminando:

— Fico com esta. Pode fazer um preço melhor, preciso tam­bém de munições. Vou levar só uma, faço uma experiência com ela. Se for boa, compro outra para meu amigo.

— Ah! Sim. Vou lhe vender uma caixa de balas, fazendo 50% de abatimento na caixa, tá bem? Garanto que você irá adorar essa arma, como adoramos a mulher amada. Voltará aqui para comprar outra para dar a seu amigo. Sei que será um belo presente, para amigo nenhum botar defeito.

— Sim, certo.

O comerciante arrumou um espanador para tirar a poeira na parte de fora do estojo e, cuidadosamente, embrulhou a arma e a caixa com 50 munições para aquela arma.

— Um conselho para você e para seu amigo: devem usar sem­pre boas munições, dessa marca, senão estragarão a arma. Além disso, limpe-a, quando preciso. Bobagem, sei que você deve saber isso tão bem como eu.

— Ah, sim. Escolhi essa para fazer um teste. Meu amigo gosta de armas, ele as conhece bem. Eu também conheço um pouquinho de armas. Meu pai tem várias delas em casa.

Afonso Elias não sabia o que falar. Estava perdendo tempo. De fato ele não estava interessado naquela conversa monótona e falsa. Ele queria sair dali o mais rápido possível. Não foi à loja para comprar uma arma de caça, pois nem sabia o faria com ela. Com­prou a arma inutilmente, para despistar seu verdadeiro propósito. Após pagar em dinheiro o preço combinado, saiu da loja, jogando com raiva a arma no banco de trás do carro. Em seguida entrou e pôs o carro a funcionar, voltando para Lunópolis.

Os malditos pensamentos dominavam sua cabeça, ele remoía suas ideias desencontradas, ainda não estabelecera uma decisão final a ser tomada. Estava humilhado. Achava que não merecia sofrer tudo aquilo que estava ocorrendo.

Nos dias seguintes, Afonso Elias não falou mais com Regina. Saía de casa para trabalhar, como se nada tivesse acontecido. Nervo­so e envergonhado, evitava atender os fregueses na sua loja, imagi­nando que todos sabiam da conduta de infidelidade de Regina. Tinha grande dificuldade de se comportar como antes, não mais conseguia ser espontâneo, conversar e sorrir amigavelmente. Tudo para ele passou a ser sério: não era mais o mesmo homem de antes.

Quatro dias após a briga com Regina, quando o relógio da Igreja batia dez horas da manhã, um amigo de Afonso Elias chegou à sua loja e chamou-o a um canto. Em voz baixa, disse-lhe:

— Tenho más notícias, quer escutar?

— Sim! Claro!

Afonso Elias estremeceu, vendo a fisionomia preocupada e grave do amigo.

— Quando caminhava em direção à praça, antes de passar diante de sua casa, avistei de longe o Pedro entrando lá. A rua esta­va vazia, eu estava distante, mas conheço o modo dele andar. Pode ser outro, mas tenho quase certeza que é ele.

— Canalha! Eu vou até lá agora mesmo! Eu pego esse cachorro!

— Quer alguma ajuda? Se quiser eu irei com você.

— Não! Obrigado, isso é assunto meu.

Em seguida, sem falar com mais ninguém, Afonso Elias saiu da loja, quase correndo em direção a sua casa, distante não mais que duzentos metros de sua loja.

Ao chegar a casa, com a respiração ofegante, sentiu o coração disparar. Suas pernas estavam trêmulas. Ele suava. Sem fazer baru­lho, percebeu, pelo tom das vozes, que Pedro e Regina estavam conversando em voz baixa, na porta da cozinha. Distraídos pela conversa, os dois não puderam perceber a aproximação de Afonso Elias. Pedro, encostado no portal, tendo as costas voltadas para o terreiro da casa, escutava Regina que, em pé, permanecia dentro da cozinha de frente para a porta onde ele se encontrava.

Afonso Elias, em vez de entrar pela porta da frente da casa e ir até a cozinha onde eles estavam, deu uma volta e entrou pelo beco situado ao lado da casa, a entrada dos fundos por onde Pedro provavelmente entrara.

Os dois continuaram sussurrando. Afonso Elias, mesmo sen­do incapaz de decifrar o que eles conversavam, pôde notar que, em certos momentos, o som aumentava, provocado pelas risadas contidas que ambos davam por segundos. Em seguida, os cochi­chos entre os dois retornavam.

Diante das risadas, talvez até nervosas e não de alegria, Afon­so Elias estremeceu, seu ódio aumentou. Caminhando com extre­mo cuidado para não fazer barulho, foi-se aproximando da porta da cozinha onde eles conversavam. Passo a passo, locomovendo-se através da parte não construída da casa, onde ficava a garagem, procurava alcançar Pedro pelas costas. Temia encontrá-lo frente a frente.

Ao chegar aos fundos da casa onde a construção terminava, contornou-a e foi andando nas pontas dos pés em direção à porta da cozinha onde os dois estavam. Nesse ponto, Afonso Elias pôde visualizar o perfil de Pedro de costas, parado na entrada da porta da cozinha, tendo uma das mãos levantada e apoiada na ombreira da porta. Agora ele estava a menos de dois metros do pedreiro, que, ainda sem nada perceber, conversava no mesmo tom de voz com Regina. Esta, sem se mexer, continuava dentro da cozinha de frente para onde ele se dirigia.

O coração de Afonso Elias disparou diante do inimigo: estava pronto para enfrentá-lo. Seus músculos crisparam-se, toda sua raiva subiu ainda mais ao vê-lo tão próximo. Era insuportável ver os dois, dentro de sua casa, despreocupados, numa manhã de um dia qual­quer, conversando e, pior, rindo. Afonso Elias não teve mais forças para tolerar a cena assistida. Era preciso pôr um fim, de uma vez por todas, à cena que presenciava bem defronte dele.

Aos poucos foi-se aproximando mais, cuidadosamente. A rai­va aumentava, chegava ao seu limite máximo. Afonso Elias estava muito próximo das costas de Pedro, ainda num ponto não visível para Regina, pois se ocultava atrás da parede anterior à porta. Pe­dro, parado, conversando, tinha parte da cabeça dentro do cômo­do da cozinha. Animado com a conversa, nada notava.

Agora Afonso Elias podia ouvir claramente a voz de Pedro e de Regina, escutando também a respiração de seu inimigo. Neste momento, ao aproximar-se mais ainda de Pedro, cerca de meio metro, Afonso Elias enfiou sua mão direita no bolso, retirando da bainha o punhal com o qual matava seus porcos, uma atividade na qual ele era bem treinado, fazendo com que nunca errasse um golpe direto no coração.

Deu mais um pequeno passo, muito devagar. Nesse instante ele pôde perceber que seus braços, naquele lugar onde estava, al­cançariam com facilidade as costas de Pedro. Bastava mais um passo pequeno, para ficar junto às costas do pedreiro. Afonso Elias andou mais um pouquinho, alcançando e visualizando a totalidade das cos­tas do amante de sua mulher. O ódio alcançava seu ponto mais alto. Nesse instante, com toda raiva que carregou por dias, fincou o pu­nhal nas costas de Pedro, em direção ao seu coração.

Quando Afonso Elias chegou muito perto de Pedro, Regina, que conversava com ele de dentro da cozinha e de frente para o terreiro, num relance percebeu, desesperada, a presença e a fisio­nomia estranha e agressiva do marido, Nesse momento também en­xergou, em uma das mãos dele, o punhal pronto para ser cravado nas costas de Pedro. Mas Afonso Elias já decidira o que fazer. Sob o olhar apavorado de Regina, Afonso Elias completou todo o movi­mento do braço que começara após a retirada do punhal do bolso.

Paralisada e horrorizada com a cena a que assistia, como um animal acuado, Regina deu um grito estridente de pavor:

— Pare! Não! Não faça isto! Oh, meu Deus!

O decidido estava completado. Já era tarde. Os gritos foram em vão. Afonso Elias estava possesso e não ouvia nada, seguia ape­nas seu impulso sanguinário. Seu organismo não suportava a car­ga que pesava sobre ele. Precisava livrar-se daquele peso terrível que dominava sua mente. Não enxergava outra saída, apenas este estreito caminho, uma solução simples. O sangue esguichou das costas de Pedro, tingindo de vermelho escuro os braços e roupas de Afonso Elias.

Logo em seguida, quando o pedreiro começou a cair e girou um pouco o corpo, uma segunda punhalada foi dada, agora na fren­te do tórax, no ponto central onde se encontrava seu coração.

Não houve mais nada a fazer, tudo foi muito rápido. Pedro, tendo os olhos esbugalhados, após girar o corpo começou a cair sem pronunciar uma só palavra. Espatifou-se, de uma só vez, no ladrilho da cozinha. Ao cair, ainda tentou instintivamente agarrar-se, mas sem conseguir, na porta da cozinha que estava semiaberta. Seu corpo, marcado por dois profundos furos, ao arranhar a porta deixou um rastro de sangue que saía com força de seu corpo agoni­zante. A queda do corpo de Pedro, esguichando sangue, provocou um barulho inesquecível e desagradável. A respiração de Pedro rapidamente foi se tornando mais difícil e, em poucos segundos, parou para sempre.

Afonso Elias olhou para aquele corpo furado nas costas e no peito. Estava disposto a dar muitas outras punhaladas, caso fosse necessário. Precisava descarregar seu ódio. Entretanto, um pouco já mais calmo e ciente de sua habilidade, notou que não havia mais nada a fazer. Estava tudo terminado.

O corpo de Pedro, estendido no chão frio da cozinha, furado na frente e atrás pelas duas punhaladas mortais desferidas com ódio pelas mãos hábeis de Afonso Elias, não representava mais perigo e vergonha. Dos orifícios brotaram jorros de sangue que, preguiço­sos, se espalharam pelo seu corpo em direção ao piso de cerâmica. A face espantada do jovem foi a última comunicação dele com o exterior antes de morrer. Desenhos sinuosos foram sendo criados pelo sangue que escorria do interior de seu corpo já sem vida. Tudo não durou mais do que dois ou três segundos: Pedro estava morto! Não poderia mais ameaçar a paz da família de Afonso Elias! O drama estava terminado.

Regina, a princípio assombrada, permaneceu por segundos sem se mexer. Em seguida, vendo o ódio do marido e a arma suja de san­gue em sua mão, imaginando ser a próxima a ser assassinada, correu em direção à porta de entrada da casa e, após abri-la, saiu correndo pela rua gritando por socorro.

Afonso Elias ficou vigiando a vítima por alguns minutos, sem­pre segurando com sua mão direita o punhal manchado de sangue. Logo depois, a casa foi-se enchendo de curiosos. Todos os morado­res de Lunópolis foram verificar o que tinha acontecido. Todos se es­pantaram com o quadro observado. Ninguém falava nada, o silêncio era absoluto. Afonso Elias esperou a chegada da polícia, ainda man­tendo o punhal preso entre seus dedos da mão, olhando impassível o corpo de Pedro.

Diante dos policiais, Afonso Elias, assustado com tudo que aconteceu e com seu próprio comportamento inusitado, permane­ceu quieto, não oferecendo nenhuma resistência diante da ordem de prisão. De qualquer modo, ele já se acalmara. Poderia dormir melhor essa noite, mesmo sendo na delegacia da cidade…

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