O Assalto

Domingo: o relógio da igreja bateu quatro horas da tarde. Sérgio escrevia no computador.

— Doutor! Doutor! Fui assaltada. Estou desesperada!

— Assaltada? Como? Onde? Fala, Flor.

— Não aguento nem falar, doutor. Vou assentar-me. Estou quase desmaiando!

— Sente-se. O que foi? Conta! O que ocorreu?

— Quase me mataram. Estou com o pescoço todo ferido.

— Foi aqui perto?

— Não aguento falar.

— Pivetes? Quem foi?

— Estou nervosa demais.

Flor caminha na sala para um lado e outro. Assenta-se. Respira fundo. Levanta-se. Passa a mão pelo pescoço, mostrando marcas de unhas. Enfia os dedos nos cabelos crespos, levantando-os, dando a impressão de uma vassoura virada.

— Roubaram-me, nem sei quanto! Sessenta reais, não… du­zentos ou trezentos…

— Como? Saiu de casa para passear com trezentos reais?

— Não. Tinha cinco. O dinheiro que me roubaram, hoje, deve estar valendo seiscentos reais. Mais ainda com a inflação. Fo­ram cruzeiros, cruzados, cruzados novos. Nem sei mais!

— Não estou entendendo nada. Como você foi assaltada, arra­nharam seu pescoço, se você saiu sem dinheiro? Para piorar, você disse que foi em cruzeiros, cruzados, reais. Que confusão!

— Fui assaltada, sim. Estou com ódio. Vou arrumar um ad­vogado para cuidar do caso. A mulher disse que eu fiz um abaixo-assinado contra ela no emprego. Ela saiu do serviço. Ele, sem mo­tivo, de repente quase me enforcou. Olha meu pescoço: as marcas das unhas. Está tudo doendo. Arrumaram um táxi para mim. Eu só tinha dois reais. A Edina ficou lá.

— Não entendi. Quem te assaltou? O que roubaram?

— Doutor, eu já lhe falei que tinha um “pepino” para resol­ver. Pois é isso. Este é o pepino.

— Mas você foi roubada? Alguém levou seu dinheiro?

— Bem… saí com Edina, minha prima. Tem uma mulher lá no Palmital, às vezes empresto-lhe dinheiro. Uma vez ou outra.

— Empresta dinheiro? Seiscentos reais?

— É… ou mais. Deve ser uns mil, com a inflação. O senhor sabe como é… Tudo subiu. Mas ela me paga, desgraçada!

— Mas não foi um homem?

— Foi. Foi o marido dela. Eu nem o conhecia.

— E emprestou dinheiro para ela?

— Coisa antiga. Gente fina, empresto há três anos.

— E nem conhecia o marido de sua amiga de três anos?

— Não! É… conhecia. Trabalha na “Fit” em Contagem.

— Que história confusa. Ainda não entendi nada!

— Eu também não. Estava no bar assentada com meu amigo, conversando. Ele veio sem falar nada e quase me enforcou. Olha as marcas das mãos dele. Tá doendo muito. Acho que queria me matar. Eu disse a ele:

— Vamos conversar direito! Não tenho nada contra ele. O irmão dele está condenado a vinte e cinco anos. Ouvi dizer que ele também tem um ou mais processos na justiça. Acho que precisa urgente de um psiquiatra. Deve estar louco da cabeça.

— Mas como? Por quê? Se você nem o conhecia direito…

— Ele é marido dela. Acho que ele ficou com ciúmes de mim. Eu estava com Fred, que tem os olhos azuis. Agora eu só gosto de homem de olhos azuis.

— Outro dia um “intaliano”, que também trabalha na “Fit”, me cantou. Um homem lindo, doutor. Agora está usando homem branco gostar de negra. Os brancos não estão gostando de brancas. As negras são mais quentes.

— A cada hora a história fica mais confusa. Era um assalto e você nem dinheiro para o táxi tinha. O cara te apertou o pescoço e você diz que era por ciúme?

— Foi no portão da casa. Ele saiu de repente. Eu estava com Edina, conversando com a mulher dele… ele veio…

— Você não disse que estava no bar assentada? Que sua pri­ma estava lá fora? Você gostaria de…

— Não. Eu estava na porta da casa dele. Ele é mais velho, deve ter uns cinquenta anos. Quem falou que gosto de velho?

— A história de assalto já está mudando para namoro.

— É… quando eu vou lá na casa dela. É, vou muito lá, ficamos horas conversando. Ele sempre passa de um lado para o outro, só para me vigiar. Ele anda pela casa e me olha com cara de apaixonado. Eu penso é que ele está caído por mim. Depois que ele me agarrou no pescoço, está tudo marcado. Olha aqui, ele me paga, aquele des­graçado. Ele ficou na cadeira assentado e começou a chorar. Ficou parado, chorando. Aí, eles chamaram o táxi. O motorista ficou com dó de mim e só me cobrou os dois reais que tinha.

— Como que ele ficou assentado, se foi na porta da casa? A cada hora você conta que a cena foi num lugar diferente. O dinhei­ro perdido, quanto foi?

— Eu sempre emprestei dinheiro para ela, gente boa. É para ela pagar o barracão onde mora. Mas ela falou que fiz um abaixoas­sinado no serviço dela.

— Você já falou sobre isso. Você sabe o que é abaixoassina­do? Como você iria fazer um abaixo-assinado no serviço dela? E para quê? Onde ela trabalha?

— Não sei, não senhor. Não sei o que é abaixoassinado. Ela trabalha em casa de família como eu. Mas já foi despedida. Acho que é uma assinatura. Não é? Ela perguntou-me se eu queria tro­car a dívida que ela tem comigo, que é de trinta reais, por um che­que de oitenta reais. Este cheque é de outra pessoa e vai vencer em janeiro. Eu ficaria com o cheque e daria mais cinquenta reais para ela. Ela pensa que sou boba. Acha que eu não sei o que é cheque pré-datado. Todo o dia a televisão fala sobre isso. Que as pessoas não devem fazer compras a prazo, que os juros estão altos e que é melhor dar cheques pré-datados para pagar as compras. Ela quer é me tapear, dando-me um cheque. Ela não me passa a perna nunca.

— Ela está te devendo trinta reais? Você não falou que tinha sido assaltada em mais de seiscentos reais?

— Mas, e os juros? Eu lhe emprestei em cruzeiros, reais, não sei mais, durante a inflação… foi muito dinheiro. Uns cinquenta reais ou muito mais, até uns mil, não sei bem não. Eu sei é que ela me deve e tem que me pagar.

— Talvez isto sirva para você aprender, Flor. A gente só aprende, errando.

— Mas ela é amiga antiga. Ela trabalhava, o marido também. Ele é paquerador, mas ela também tem um amante que dá dinheiro para ela. Para isso ela não é boba não.

— Afinal, você os conhece há muito tempo. Gosta dela e em­presta dinheiro quando ela precisa. Estava na casa deles e ele se enfureceu. Por quê?

— Já ouvi dizer que ele colocou até detetive para saber com quem eu ando e aonde vou aos fins de semana. Eu já tinha notado. Lá na rodoviária, onde passeio aos domingos, um homem sempre anda me vigiando. Quando fui tomar uma coca-cola, ele conversou comigo. Até pediu-me um pouco do refrigerante e eu, boba, lhe dei o resto da lata. Ele disse que a coca-cola estava com gosto de meus lábios. Acho que o marido de minha amiga é apaixonado por mim. Ontem fui lá no bairro. Depois fui até a casa dele junto com o amigo dos olhos azuis. Foi este amigo que chamou o táxi para mim. Tinha muito tempo que não andava de táxi. O motorista até que tentou me cantar. Foi muito simpático comigo. No caminho…

— Termine a história. Passou para outra, a do motorista.

— É… bem… acho que ele me apertou o pescoço de ciúme. Tanto que se arrependeu e chorou. Falou que na quinta-feira vem aqui em casa trazer o dinheiro que sua mulher me deve. Mas que precisa muito conversar comigo. Estou doida para chegar quinta. Ele não é de se jogar fora. Será que saio com ele? O que… o que o senhor acha?

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