Num quarto do hospital

Naquela tarde de terça-feira, após ter sido internado às pres­sas no Pronto-Socorro, por perder os sentidos em plena fila do ban­co, estranhei o ambiente sério e repetitivo da enfermaria onde fui colocado. Lá, tinha por companheiros mais três pacientes, todos mais jovens que eu: Lacyr, um ciclista, que tinha sido atropelado por um automóvel, Mário, que fora esfaqueado por um ex-amigo após se embriagar, e Lúcio, que fora mordido em várias partes do corpo por um cão, após tentar assaltar uma residência.

Ali quase não havia conversas. Os médicos e as enfermei­ras, sérios ou indiferentes aos nossos problemas, se dirigiam aos ali internados como se falassem a uma criança sem poderes e im­portância. Jamais falavam o que pensavam, tentavam sempre me enganar afirmando que meu caso era simples e que sairia dali em poucos dias ou horas. Eu, por outro lado, recebia a notícia com in­diferença, pois sabia que não iria viver muito, talvez nem voltasse mais para minha casa: ali ficaria e dali iria direto para o velório. O medo da morte, que convivera comigo durante minha mocidade, abandonava-me.

Observo-me deitado no colchão mole: minha barriga escava­da e inexistente, os ossos aparecendo nas costelas, braços e per­nas, os músculos minúsculos e flácidos, a pele branca e cheia de dobras, que não é mais a que conheci antes de adoecer há um ano, quando tive o primeiro infarto.

Já estava acostumado aos hospitais: a vergonha inicial de exi­bir meu corpo esquelético e feio aos poucos ia acabando.

Lembrava-me com alguma saudade do pudor existente du­rante minha primeira internação. Não me emocionei, não mostrei a menor vergonha quando duas enfermeiras me despiram no pró­prio leito, me ensaboaram por todo o corpo e rasparam os pelos do tórax, para que fossem realizados os exames necessários para examinar meu debilitado coração, que ameaçava uma greve.

O Dr. Aloísio, numa linguagem técnica que começo a deci­frar, se dirige a uma mulher nova, talvez uma residente, ou, quem sabe, também sua namorada. Ela olha para meu corpo com repug­nância, um corpo que ela jamais pensaria em abraçar, como deve ter feito com o médico que a orienta. Examina-me como se olhasse substância inerte, um objeto qualquer sem valor e do qual se deve fugir o mais rápido possível.

Compreendo o asco da bela moça, pois sei que estou mais morto do que vivo, semimorto por dentro em todos os meus ór­gãos e, morto para os outros, não mais agrado ou atraio ninguém. Sou agora uma pessoa que só desagrada, que dá trabalho, um estor­vo. O corpo vai aos poucos morrendo e junto levaria minha alma, minhas ideias e minha história, que, como a de todos, rapidamente seria esquecida, ou seja, morreria também.

Fui colocado, carregado por três ajudantes, em cima da maca onde seria levado para fazer exames. Dependendo dos aconteci­mentos, poderia ser levado, antecipadamente, para o necrotério. Do meu nariz escorriam líquidos produzidos exageradamente e que não conseguia engolir, minha boca semiaberta buscava um pouco mais de ar. Enxergava mal, tudo parecia nublado, até as vo­zes pareciam longe, vozes tristes e agudas que eram pronunciadas nos corredores, por onde meu corpo inerte e passivo era levado por auxiliares de enfermagem.

Eu era empurrado na maca para um e outro lado. Espero o elevador, levam-me. O elevador para, continuo minha ida em dire­ção ao exame que irá decidir o meu fim, que era altamente incerto: ficar mais tempo no hospital, ir para o necrotério, ou receber alta para morrer em casa.

Fico imaginando se o atestado de óbito já tinha ou não sido redigido, para facilitar minha saída do hospital e, assim, apressar a entrada de outro moribundo como eu. Vejo um médico de man­gas arregaçadas lavando as mãos, ele me olha distraído sem coisa melhor para fazer. Noto que ele está muito distante de mim. Na parede do serviço de cardiologia, uma batida continuada e chata do relógio irrita-me. Presto atenção a ele, apesar de aborrecer-me. Ele bate mais e mais.

Deitado na maca, para desviar minha atenção do relógio, olho para o teto, procuro uma mancha qualquer, pode ser qualquer de­feito na pintura, um excremento de barata, camaleão ou um ovo de aranha: tudo serve para me fazer sair do desespero. Sinto-me só, abandonado, sem ter onde apoiar-me. Uma mulher nova e um senhor mais velho conversam entre si. Eu espero minha hora. A mu­lher aproxima-se, abre meu peito, olha os ossos estufados, a respira­ção ofegante, a magreza e palidez e não consegue esconder um mal-estar ao que vê. Parece ameaçar-me, talvez por aborrecê-la com meu feio e desagradável corpo, justamente naquela linda manhã de sol, depois dos dias continuados de chuvas. Empurra-me para o meio da maca. Meu corpo leve obedece aos seus frágeis músculos. Retorna ao senhor e depois começa a pregar eletrodos em meu corpo, após untá-lo com uma pasta incolor. Tudo é feito maquinalmente, sem lembrar que ali se encontra um homem que fez sua história parti­cular, tem uma vida carregada de experiências. Na sala de exames, eu sou um objeto desprezível, onde todos desejam despachar-me o mais rápido possível.

Manda-me ficar mais quieto ainda. Finjo de morto, sinto o vazio, o nada. Evito pensar no prognóstico, cansado e sonolento, sinto vontade de correr dali, afastar-me de todos para morrer em casa, sozinho, longe dos médicos, paramédicos e enfermeiras.

Sem explicar-me por quê, após conversarem entre eles, uma enfermeira fura-me o braço, uma agulha penetra com vigor e bru­talidade na veia submissa, que circula sobre as costas de minha mão inútil. Fico tonto, sinto náusea, zumbidos, as vozes de perto ficaram longe. Há um silêncio perturbador na sala de exames.

Olham-me com atenção, examinam cada mudança corporal que meu corpo ainda é capaz de executar para sobreviver ou desistir.

O medo me domina, o coração dispara. Será a última vez? Custo a respirar, parece que estou sendo sufocado. Acho que me mataram dessa vez: erraram a dosagem?

Viro minha cabeça para o sujo do teto, assim tento certificar-me que ainda não morri. A ideia de morte não me abandona. Mexo os pés com dificuldade, eles ainda me obedecem. Até quando? Lembro-me do que li acerca de “membros fantasmas”. Quem sabe imaginei que movimentei meus pés, mas é apenas uma ideia? En­fio a unha do dedo indicador na carne do dedo polegar, buscando algum sinal de vida. Custo a acreditar que os dedos são meus.

Retorno à enfermaria e não vejo o rapaz que foi atropelado. Será que ele morreu? Não ouso perguntar à enfermeira de cara fechada que me coloca sozinha, abraçando-me, no meu leito. Ofe­recem-me comida. Não tenho fome. Molho a boca com uma água amarga e morna. Divirto-me olhando o teto à procura de alguma diversão. Vejo uma formiga andando de costas para mim, indife­rente aos meus sofrimentos.

A luz do sol vai, pouco a pouco, sumindo. Lá fora, pela janela ainda aberta, noto que a noite chegou e tenta entrar por ela, mas a luz da lâmpada impede sua penetração. Um vento bate contra as janelas já fechadas, provocando um continuado barulho chato. Durmo por uns minutos ou segundos, um sono leve, acordo e adormeço novamente.

Esse ritmo continua por toda a noite. Escuto ao longe, o baru­lho dos automóveis, a gritaria dos jovens, as discussões e palavrões dos bêbados. Mais de perto, bem junto de mim, as lamentações e gemidos de outros pacientes que à noite são mais percebidas. A todo instante ouço as campainhas tocando, pedindo socorro às enfermeiras e médicos da noite. Saltos de sapato pisam duro no chão liso e encerado do hospital. O relógio da igreja, compassado, bate de hora em hora o tempo que falta para a alta ou o fim.

Acordado, conto as batidas. São seis horas: o sol, insistente­mente, tenta penetrar no quarto de janelas fechadas. Os passos au­mentam no corredor: serventes, cozinheiras, enfermeiras e médi­cos caminham para um lado e outro. Alguns ainda parecem dormir enquanto andam. A luz do dia ainda fraca delineia faces cansadas, tristes e preocupadas.

Através da porta do quarto, sempre aberta, observo os pas­santes, escuto as tosses, os pacientes vomitando, as batidas leves nos quartos pagos. Longe, choros convulsivos, passos apressados, celulares tocando, lá e cá. O relógio da igreja bate cansado às sete horas de mais um dia que passei ali e ainda não morri. Estou confu­so, pois não sei se essa foi a primeira ou segunda noite. Para piorar, confundi a enfermeira com minha namorada e tentei lhe dar um beijo. Ela riu de mim, demonstrando nojo e dó.

Queria calçar meus chinelos para ir ao banheiro. Não tinha chinelos e nem podia ir sozinho fazer meu xixi, se é que tinha xixi para fazer. Após esperar algum tempo, que para mim eram muitas horas, pois nada me distraia, trouxeram uma bacia que colocaram embaixo de minha bunda. Uma tigela achatada que, só depois, des­cobri ter o nome de “marreco”. Não sei mais se urinei ou não, pois o desconforto era grande demais e a urina muito pouca.

O relógio bate 12 horas, demora mais tempo, não consigo contar direito. Retorna o silêncio, para a sesta após o almoço que não quis, só comi a sobremesa, um pedaço de marmelada. O silên­cio é quebrado, o companheiro de quarto que fora esfaqueado pelo amigo é levado às pressas do quarto. Acho que também morreu.

O relógio bate outra vez. Tento contar as horas, mas não con­sigo, pois entra apressadamente o doutor que ainda não sei o nome e começa a me fazer as perguntas de sempre, o que me estimula a responder o já decorado. Dormiu bem? E o apetite? Teve febre? Veio alguém te visitar?

Acho que quando começa a falar, isso o tranquiliza, por isso custa a parar.

O relógio da igreja continua batendo ao compasso das cam­painhas colocadas ao pé dos leitos. Estou me acostumando com as batidas dos sinos, nas portas para entrar e dos saltos de sapato no assoalho.

Chego à noite com raiva. Um céu escuro promete chuva e tro­voadas pesadas. Assisto a tudo com absoluta calma. Lembro-me de quando era criança, do meu medo e das fantasias dos deuses miste­riosos e zangados que faziam o barulho dos trovões, lançavam fle­chas incandescentes dos raios. Agora que sei que estou entre a vida e a morte, as tempestades, relâmpagos e trovoadas são-me indiferen­tes. A febre abaixou. É sempre assim, ela sobe e desce, até quando?

Ouço gritos lancinantes de criança. Choro sozinho e no es­curo, lembro-me de meus filhos. Soluços de adultos se seguem aos choros desesperados da criança. Eles vêm da enfermaria do fundo do corredor. Escuto sons abafados ao lado de meu leito. Deve ser o homem que foi mordido por cães, que está chorando.

Tudo é desespero. O que é a vida? Isto que estou vivendo? Meu pensamento dispara, os quadros vão passando com rapidez. E o menino, terá morrido? Não mais ouço seus berros. Pergunto à moça que veio limpar o quarto o que aconteceu com o menino. Ela me informa que ele melhorou. Mas aqui ninguém diz a verdade, possivelmente ela, como todos, tenta me tapear para que não me desespere antes de chegar minha hora.

Imagino que o menino que chorava será enterrado ainda hoje, ou, talvez, transformado em peça anatômica para ser estu­dado pelos mais poderosos a ainda saudáveis. Procuro dormir. As ideias não me deixam e invadem minha cabeça cansada e já no fim. Tudo é confusão: o menino, a sala de exame, o médico e a sua com­panheira (seria namorada?), minha mãe, meus filhos, a tempestade, os amigos que se foram.

Acho que vou me acabar, minha hora está chegando. Vou devagar penetrar e me diluir nos gemidos e nas pisadas duras, no cheiro dos medicamentos e dos detergentes, nas pancadas nas por­tas, no éter das anestesias…

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