Meus Cabelos

A história de Teresa é triste, como a maioria das histórias dos pobres moradores das favelas. Ela nasceu numa madrugada quente e abafada de 15 de outubro, dia de Santa Terezinha, quase sozinha. Seu parto não teve médico e nem parteira, pois não houve tempo, nem dinheiro, nem lembrança, de que sua mãe poderia ser coloca­da num táxi e levada até uma maternidade.

No parto, a mãe de Teresa foi ajudada por uma vizinha, que estava sempre cambaleando, devido a diversos comprimidos que tomava diariamente para dormir, até mesmo durante as manhãs e tardes. Tendo já completado 80 anos, D. Diná, como era chamada – ninguém jamais soube seu verdadeiro nome – lutava contra sua hipertensão, adquirida aos 40 anos. Há dois anos, ela sofrera um derrame e, por isso mesmo, andava com suas pernas inchadas e magras, com dificuldade pelas ruelas da favela e mesmo dentro do pequeno quarto que ocupava. Ao andar, ela arrastava sua perna direita, de cuja ponta saía seu pé endurecido, avermelhado e caído para baixo. Desse modo, seu andar dava a impressão de ela estar foiçando o chão, do lado onde havia o defeito físico. D. Diná, com seus tremores e rigidez do braço direito, mal conseguia segurar um simples copo d’água. Quando assim fazia, a água derramava-se, du­rante cada tremor, sobre o queixo e tronco descarnado e ossudo.

D. Esperança, mãe de Teresa, morava com seus dois filhos menores, seu marido Eufrásio e Consolação, sua prima, que viera morar com ela por uns tempos e lá ficou. Toda a família se aglome­rava num minúsculo quarto de chão de terra, em cujas paredes de madeira encostavam-se colchões velhos e rasgados.

Espalhados pelo chão viam-se trapos diversos, pratos e colhe­res sem lavar, sacolas de supermercados, alguns caixotes onde os seus ocupantes se assentavam para assistir às novelas num velho aparelho de televisão dado pela patroa onde D. Esperança fazia faxina, antes de engravidar do terceiro filho.

Teresa nasceu nesse quarto escuro, sujo e desarrumado. Nele, ratos e baratas passeavam felizes e livres durante as noites quentes do verão e se escondiam nos buracos por onde saía o esgoto.

Dona Esperança não passou bem durante todo o período em que esperou Teresa. Cansava-se facilmente, sentia falta de ar e ton­teiras diante de pequenos esforços. Nesses momentos procurava, para melhorar seu mal-estar, assentar-se na cama recostada em dois travesseiros grandes e altos. Consolação, sempre prestativa, era a sua ajudante constante nessas ocasiões. No dia do parto, ao ouvir os gritos de socorro de Consolação e de dor de Dona Esperança, D. Diná veio em sua ajuda, tentando confortá-la com o pouco que podia oferecer.

O pai de Teresa, sem profissão certa, bebia exageradamente e nesta noite nem acordou com todo o barulho que foi feito. Conso­lação, sem experiência e submissa à vontade da velha senhora que dirigiu o parto, não fez outra coisa que obedecer às ordens dela. As crianças acordaram com os primeiros gritos, mas adormeceram em seguida. Nesta noite de alegria pelo nascimento de Teresa, D. Esperança morreu de hemorragia, que só foi percebida quando a parturiente já estava morta. Não houve demonstração de grande sofrimento pelos que assistiram ao desenlace. Parece que os ha­bitantes da favela estavam acostumados com sofrimentos iguais a estes, vividos por eles com frequência.

O viúvo não era um marginal, ao contrário, era um homem bom e até muito honesto. A família, sem recursos, sempre ganhara dos amigos roupas e alimentos para sobreviver. Mas após a morte de Esperança, as dificuldades aumentaram, pois era D. Esperança e Consolação que trabalhavam como faxineiras, ganhando algum dinheiro para ajudar no sustento da família.

Sem capacidade para administrar a família, Eufrásio, aconse­lhado pelos parentes, decidiu, sem outra opção, repartir os filhos Letícia, Paulo e Teresa. Ele aceitou a partilha sem discussões e cada filho foi morar com uma família e num lugar diferente. Teresa ficou com sua prima Consolação, que já morava com D. Esperança quan­do ficou grávida e veio morar na favela para fugir das conversas maldosas de Capão Dourado. Seu namorado, quando soube que Consolação estava esperando um filho seu, sumiu e ninguém mais ouviu falar nele. O filho de Consolação nasceu pesando pouco mais de um quilo e sem os dois braços. Morreu no dia seguinte, de cau­sa ignorada. Consolação, sem coragem de retornar a sua casa, foi ficando por mais algum tempo, ajudando sua prima que esperava o nascimento de Teresa e era sua grande amiga e confidente.

Consolação era uma moça forte e trabalhadeira. Muito ho­nesta, em sua terra, Capão Dourado, ela fazia parte do grupo das Filhas de Maria. Respeitadora das normas religiosas e sociais, fre­quentadora da igreja, procurava seguir, à risca, os mandamentos religiosos. Apesar de ser seguidora dos preceitos da Igreja, falhou com respeito à castidade, pois, atraída pelos rapazes da cidade, acabou ficando grávida. Consolação, sempre que pôde, trabalhou. Ela aceitava qualquer serviço. Poucos dias após o parto de D. Es­perança, Consolação imaginou ter o direito de adotar Teresa, para compensar a perda do filho, que ela jamais esqueceu.

Para ficar como mãe adotiva de Teresa, Conceição argumen­tou com Eufrásio, o pai biológico dela, que ninguém melhor que ela seria capaz de cuidar da recém-nascida e, além disso, seu ins­tinto maternal estava paralisado temporariamente com a morte de seu filho que não vingou. Defendendo seu pedido, argumentou que, para ficar com Teresa, ela arrumaria um emprego fixo – qual­quer um servia – faria biscates nas horas de folga. Ela imaginava, desse modo, poder cuidar da menina muito bem, pois, acima de tudo, a amava muito. Disputando seus direitos com outros can­didatos à adoção, Conceição exaltava, confiante, sua capacidade para cuidar de crianças.

O pai de Teresa, que não tinha grande interesse em gastar tempo cuidando da filha, aceitou prontamente o pedido de Conso­lação. Eufrásio sentia falta apenas de sua falecida mulher.

Uma vez decidida a partilha dos filhos, Consolação ganhou o direito de criar Teresa. Cumprindo o compromisso, ela conseguiu emprego com facilidade numa empresa de limpeza de bancos, em virtude de sua desinibição e da boa conversa, que transmitia confiança.

Consolação ainda não havia recebido o primeiro salário quan­do, acompanhada de Teresa, agora sua filha, já tinha alugado um novo quartinho na favela. Seus bagulhos foram levados numa velha carroça, puxada por uma preguiçosa mula. Ali estava tudo a que teve direito na partilha: um colchão velho e manchado de urina, uma mesa feita de caixote, um velho rádio de pilhas, um estrado quebrado, dois lençóis rasgados, uma sandália havaiana, trapos uti­lizados como fraldas.

Consolação saía de casa às cinco e meia da manhã, para co­meçar seu árduo trabalho às sete. Largava às duas da tarde e pe­gava outro, das três às nove da noite. Teresa era cuidada por uma vizinha da favela, uma espécie de babá, uma preta velha gorda que vivia assentada, equilibrando-se num pequeno banco, que ela roti­neiramente carregava consigo. Com seu tamanho e peso – era uma mulher imensa – ela jamais caiu do banco, apesar de parecer estar sempre sonolenta e desequilibrada. Esta mulher abocanhava uma boa parte do salário de Consolação.

Quanto aos outros filhos de Esperança, Paulo, o preferido da avó materna, foi morar com esta e não teve mais contato com seus outros irmãos. Letícia, a mais velha, foi morar no interior com a mãe de Consolação. Esta defendeu o ponto de vista que tinha esse “direito”, por ter sua filha Consolação, após sua gravidez, ido para a capital e não mais voltar para Capão Dourado. Sô Eufrásio, aban­donado e amaldiçoado pela família, permaneceu morando sozinho e Deus sabe como.

Poucas notícias surgiram acerca de Letícia e de Paulo, mas muitas foram contadas acerca de Teresa. Esta foi crescendo, forte e bonita, como havia sido sua mãe. Consolação mostrava-a, com orgulho, para todos, e sempre a apresentava como se ela fosse sua filha. Teresa, criada com esmero, cresceu sem grandes problemas, mas, ao mesmo tempo, sem grandes planos.

Frequentou a escola pública, onde era uma menina bem edu­cada, capaz de respeitar a professora e outros mais velhos. Ela era, ao mesmo tempo, uma menina obediente, mas também decidida, capaz de lutar pelos seus direitos. Andava sempre limpa, simples, mas demonstrando estar bem cuidada. Apesar de sua simplicidade, Teresa tinha um trunfo que a destacava ao ser comparada com suas colegas e amigas, em todos os lugares que frequentava. Na escola, na favela, nas ruas da cidade, sempre quando saía, todos admira­vam – as mulheres com certa inveja – seus belos e longos cabelos pretos, que jamais foram cortados. Só muito raramente eram apa­radas as pontas. Mesmos quando Teresa pegou piolhos na escola, sua mãe, em lugar de cortá-los, passou remédios receitados pelo farmacêutico, e pente fino. Consolação ajudava Teresa a mantê-los “bonitos e sedosos”, mesmo se tivesse que gastar mais que podia. Teresa, perto dos quinze anos, e já com namorado, imaginava sua noite de casamento, quando, no leito de núpcias, soltaria os cabe­los, sempre trazidos presos, para prazer de seu marido.

Quando completou 15 anos, seus cabelos já atingiam suas nádegas. Nessa ocasião, namorava Marcelo, há mais de um ano. Ela, apesar de ser uma pessoa discreta, orgulhava-se dos seus cabelos. Eram eles que lhe davam motivos para viver. Identificava-se com eles, percebendo-se bonita, atraente e cobiçada.

Todos imaginavam, um dia, poder pegar naqueles belos cabelos. Alguns tentavam passar as mãos neles para terem a sensação agradável do contato maravilhoso com aqueles cabelos negros e ondulados.

Teresa tinha uma testa lisa e saliente, abaixo da qual nasciam seus pequenos olhos pretos e fundos, que ela geralmente trazia quase fechados, por não suportar a claridade.

Sua boca rasgada era formada por lábios grossos e vermelhos. Quando sorria, apareciam seus grandes caninos, que encobriam a falta de dois molares inferiores. Às vezes, ela prendia seus longos cabelos com uma fitinha amarela, formando um “rabo de cavalo” e, na maioria das vezes, os prendia, fazendo uma espécie de coque atrás da cabeça. Mas sempre, penteados ou soltos, seus cabelos eram admirados com entusiasmo pelos amigos e inimigos.

Seus quinze anos foram comemorados com festa. Consolação convidou os amigos de sempre e mais alguns vizinhos selecionados para um lanche à base de mortadela, pão francês, pinga, pasteis, Coca-Cola e o infalível bolo de aniversário. Não faltaram retratos da ocasião, com a participação dos convidados que rodeavam Teresa, cortando o bolo. Ela chorou de emoção quando foi cantado o “pa­rabéns para você”. O namorado de sua mãe adotiva, Demócrito, um admirador antigo de Teresa, empolgado com a festa, discursou nessa ocasião:

— “Minha gente! Meu povo laborioso. Transcorre hoje o ani­versário de nossa querida Teresa. Ela é uma pessoa que nós ama­mos e amaremos por toda nossa vida. Conheci essa formosura com dez anos, quando a vi saindo da escola e uma ventania esvoaçava seus maravilhosos cabelos. Ao vê-la, segurando suas saias que se levantavam com o vento, senti enorme emoção.

— Nessa ocasião, imaginei estar, por um momento, vendo uma deusa, uma atriz de TV, ou mesmo de cinema. Embriagado de tanta beleza, hipnotizado pelos seus cabelos, a segui pelas ruas do bairro. Vim até aqui. Foi ela que me fez vir até esse humilde, mas hospitaleiro barracão. Aqui, encontrei a felicidade que faltava em minha vida, Consolação”.

Nessa hora, as palavras de Demócrito foram interrompidas por palmas e até por choros dos presentes. Ele continuou seu discurso:

— “Nunca mais me afastei dessa família. Hoje quero brindar, junto a todos vocês, à felicidade e à saúde de Teresa, bem como da minha querida Consolação. Deus permita que as duas possam continuar a dar alegria a toda essa gente amiga. Tenho dito”.

Mas as palavras finais de Demócrito não foram ouvidas pela ingrata natureza. Teresa, que há algum tempo via seu ventre cres­cer exageradamente, a princípio pensou estar grávida, pois não teve os cuidados necessários nas suas andanças com Marcelo. Pe­quenas hemorragias começaram a aparecer e, às vezes, um líquido espumoso. Suas menstruações não mais vieram. Sua barriga aumen­tava exageradamente para ser uma simples gravidez. Consolação não a recriminou, imaginando o neto que viria. Ficou até alegre. A hemorragia e o líquido espumoso que saíam de sua vagina preocu­param Teresa.

Esta, por fim, decidiu procurar um balconista na farmácia da favela, seu grande admirador, para consultá-lo acerca dos seus males. Este lhe receitou pílulas diversas, dizendo-lhe que aquilo era devido à gestação e que seu filho deveria nascer cinco meses depois. Não houve melhoras. Diante do fracasso, procurou orien­tação através da sessão espírita. Ali lhe disseram que em outra vida ela foi uma prostituta, contaminou muitas pessoas, pecou muito nesse mundo e que estava pagando pelos seus pecados. Deveria orar, pedir auxílio a outros espíritos e esperar sua passagem para a outra vida, pois só lá descansaria. Aconselhada por outros amigos, procurou a igreja evangélica. Disseram-lhe que tudo existia por vontade divina e que ela precisava orar diariamente. Não houve mudanças no seu estado, ao contrário, piorou, as secreções au­mentaram.

Desanimada, foi atrás de macumbeiro e teve que tomar, no início da manhã do dia treze, sangue de bode recém-morto. Tudo foi feito como foi mandado, entretanto o abdômen continuava seu crescimento e os líquidos saindo através da vagina. Após muitas tentativas em vão, resolveu, a conselho do patrão dela, procurar um posto médico.

Madrugou e se dirigiu à fila para marcar consulta. Depois de horas, através da ajuda do porteiro do posto, que se impressionou com seus cabelos e convidou-a para um encontro, ela conseguiu uma ficha.

Teresa, acostumada a conquistar os homens através de seus cabelos, achou natural a cantada e marcou o encontro com o ga­lanteador, sabendo que provavelmente não iria, como aconteceu inúmeras vezes. Após quatro horas de espera, chegou finalmente diante do médico, Dr. Sidarta, um médico muito novo, recém-for­mado, encarregado de atender às parturientes.

Teresa sentiu como se estivesse numa delegacia de polícia: uma pequena sala, sem móveis, a não ser uma mesa, duas cadeiras, e uma maca escondida atrás de uma cortina rasgada. O interrogató­rio começou áspero:

— O que você veio fazer aqui? – perguntou o doutor, num tom de voz apressado, pronto para despachá-la o mais rápido pos­sível, para terminar seu longo dia de atendimento.

— Posso sentar-me? – disse Teresa, um pouco envergonhada.

— Claro, esqueci-me de convidá-la para sentar-se, disse o mé­dico um pouco irritado.

Quando percebeu e focalizou seus lindos cabelos pretos, continuou:

— Que belos cabelos você tem, gostaria de poder penteá-los. Está grávida? Quem foi o felizardo?

— Doutor, não vim a um cabeleireiro para pentear-me, e sim consultar-me, devido à minha gravidez. Eu tenho quem me pen­teie. Vim para saber o que está acontecendo comigo. Tem saído muita coisa esquisita nas partes.

— Eu estava brincando, para colocá-la mais à vontade. É o meu jeito, sabe… Vamos ver, tire suas roupas, vista aquela bata ali e deite-se nessa maca. Maria, ajude esta mocinha a despir-se.

O exame demorou apenas alguns poucos minutos. Entretan­to deu para notar que a fisionomia, bem como o tom de voz do médico, se alteraram após suas observações. Ele, que esperava uma gravidez comum, não escutou nada, nenhum batimento fetal no interior do útero. Não mais conseguiu mais disfarçar sua preocupa­ção com o estado de Teresa.

— Seu caso preocupa-me e exige mais cuidados. Você irá procurar-me no hospital Madre Aparecida, no sábado de manhã. É dia de meu plantão e será fácil localizar-me.

— Possivelmente, caso haja vaga, irei interná-la. No sábado, é comum elas existirem, pois ninguém quer ver pacientes nos fins de semana. Você ficará internada por uns poucos dias, para que possa­mos fazer alguns exames e, com isso, um diagnóstico mais correto. Lá você fará ultrassom, dosagens hormonais diversas, urina, eletro e dosagem de Beta HCL ou outros que forem necessários. Não se preocupe, tudo está bem. Você está ótima. Deve vir com sua mãe, pois, sendo menor de idade, não é responsável pelos seus atos. Pre­ciso da presença dela para assinar que concorda com as condições do Hospital. Mais uma coisa, você não terá nenhuma despesa.

— Minha mãe já morreu.

— Você deve morar com alguém! – disse o médico irritado. Venha com a pessoa responsável por você. Aproveitando sua raiva, afirmou para provocar-lhe medo:

— Seu caso é grave, você talvez tenha um tumor na barriga, no seu útero… Você não está grávida! Não dá para fazer um diag­nóstico correto aqui, nessa espelunca, sem aparelhagem e condi­ções de um exame mais minucioso. Ainda não sei, ao certo, que tipo de tumor é. Não deixe de ir, se você não for, poderá morrer em pouco tempo.

Teresa saiu atordoada da sala, tão confusa que não conseguiu se despedir do médico. A gravidez, a ideia de um belo menino de cabelos longos e pretos, sumira com aquelas palavras secas e frias. Caminhou alguns passos após vestir-se e, antes de chegar à rua, cambaleou e espatifou-se no cimento molhado pela urina. Alguns, menos doentes que ela, correram para ampará-la. Carregaram-na e puseram-na num dos bancos do ambulatório. Do boteco de frente trouxeram um café ralo e morno e um copo d’água. Pouco a pouco voltou a si, chorando de desespero diante da nova situação.

Uma senhora presente, condoída do seu estado, fez uma va­quinha para angariar dinheiro para que ela pudesse ir para casa de táxi. O motorista, encantado com seus cabelos, também con­tribuiu, e assim ela foi conduzida até seu barraco. Ainda no táxi, Teresa conversava consigo mesma: “Um tumor na barriga. Então não é um menino? Será câncer? Vou morrer? Oh, meu Deus, todo poderoso! Deve ser mentira dele! Outros falaram que era gravidez, pecado, mau olhado.”

Teresa deitou-se logo ao chegar e não mais se levantou até sua madrasta chegar às 10 horas da noite. Contou tudo a ela e as duas, abraçadas, choraram o resto da noite sem conseguir dormir.

Chegou o sábado terrível, o dia da internação, dos exames, o dia da sentença, talvez de morte! As duas, em silêncio, cada uma pen­sando o pior, tomaram o ônibus que as levaria até o hospital. Apesar do medo, elas não tiveram dificuldade em encontrar o doutor Sidar­ta, hoje de plantão, e que a havia examinado no posto de saúde.

A vaga foi reservada com presteza, pois além de ser sábado, o médico imaginava ser um “caso interessante”: talvez tumor da placenta, ou melhor, Mola hidatiforme. Tratava-se de um caso raro, em lugar de crescer no útero uma criança, crescia exageradamente apenas o tecido placentário.

Não se podia dizer que era uma doença muito ruim, pois esse tumor tinha cura na maior parte dos casos, desde que se fizesse um tratamento bem cedo, antes que ocorressem metástases, principal­mente as do cérebro. Nesse caso, a morte era o mais provável. O oncologista do hospital, avisado do possível diagnóstico, também se interessou pela paciente e veio vê-la, tratando-a cordialmente, com educação e cuidado.

Teresa foi internada, como boi no matadouro, para que os exames fossem realizados. Sua madrasta chorou sem parar, en­quanto era preenchido o prontuário e os documentos necessários à internação. Por fim, foi mandada para casa, pois estava atrapa­lhando o andamento dos serviços. As duas se despediram num longo abraço.

Nesse momento, Consolação abriu sua sacola e tirou um em­brulho que deu a Teresa, que ficou emocionada com o presente dado num momento tenso como aquele. Do embrulho, feito para presente, saiu uma vistosa embalagem de xampu e condicionador importados, desejados há muito tempo por Teresa.

Agora, diante da gravidade do caso, Consolação reuniu o di­nheiro necessário para comprar o xampu de ervas vindo dos Esta­dos Unidos: retirou suas economias da poupança – pouco mais de dez reais – e pediu adiantado parte do salário na firma.

Os exames, que duraram mais de uma semana, comprovaram o diagnóstico inicial do Dr. Sidarta, uma dosagem alta de Beta HCL. Felizmente era um câncer fácil de ser curado naquele estágio ainda inicial, com quimioterápicos. A equipe médica reuniu-se e transfe­riu o caso para o setor de Oncologia do Hospital. O Doutor Amin, chefe da equipe, que já tinha tido uma conversa com Teresa, foi o encarregado de dar as “boas notícias” à paciente:

— Como vai Teresa? Lembra-se de mim? Estive aqui, quando você foi internada. Eu sou Dr. Amin. Trabalho aqui. Estudei seu prontuário, que me foi passado pelo Dr. Sidarta. Seu caso agora passará a ser cuidado, não mais por ele, mas por nós da oncologia. Faremos o melhor para colocar você boa.

Teresa até que o achou simpático, limpo, bem barbeado, sé­rio e com cara de boa gente.

— O que é oncologia? – perguntou confusa, aproveitando o longo silêncio que ocorrera.

— É a parte da medicina que cuida dos tumores.

— Tumores ou câncer?

— É mais ou menos a mesma coisa. Mas não se preocupe, pois seu caso tem bom prognóstico e…

— O que é prognóstico?

Dr. Amin, irritado pela interrupção:

— É a mesma coisa que futuro, não, consequência, resultado. A palavra certa não vinha na sua mente.

Dr. Amin continuou:

— De outro modo, você vai sarar, vai ficar boa, sem nada. Para isso, você tomará alguns remédios na veia, ou seja, quimiote­rapia. São necessárias algumas sessões. Elas provocam efeitos ruins no organismo, mas por pouco tempo. Assim, no início, você po­derá ter náuseas e vômitos, sentir um mau cheiro nas coisas, ou mesmo no seu corpo, mas tudo passa.

— O importante é que você vai ficar boa, vai voltar a ser o que era. Tem mais um pequeno problema! Quando as pessoas to­mam esse remédio, os cabelos caem, isto é, você vai ficar careca por umas semanas, mas eles voltam a crescer.

— O quê? Meu cabelo vai cair com o tratamento? Nunca! Arranje um tratamento no qual o cabelo não caia. Se não tiver, não faço!

— Não existe! Os existentes não vão te curar. Ele torna a crescer. Que bobagem, toda essa preocupação… jogar a saúde fora por causa do cabelo.

Teresa estava desesperada e irritada com a pressão do Dr. Amin.

— Não! Se o cabelo cair eu não trato. Dê-me alta. Eu quero ir embora o mais depressa possível. Eu quero ir embora!

Não houve meios de convencê-la. Foi tudo em vão. Vieram freiras simpáticas, padre, pastor, amigos, seu namorado e sua mãe. Teresa ficou irredutível. Ninguém a convenceu a fazer o tratamen­to. Sua identidade estava ligada ao seu cabelo, que era a razão de sua vida. Ela vivia para eles e por causa deles. Sem eles, ela não se­ria mais Teresa e sim outra pessoa. Jamais ela se imaginou sem seus maravilhosos cabelos. O jeito foi a alta, assinada pelos médicos, após escreverem um laudo assinado por Consolação, dizendo que a paciente saía do hospital sem tratamento.

A conduta de Teresa, realizando apenas consultas médicas sem aceitar o tratamento indicado, contribuiu para sua piora. O tu­mor foi crescendo. Aos poucos produziu metástases, inclusive no cérebro de Teresa. Os médicos contaram a gravidade do seu estado para Consolação e Demócrito, que choraram durante toda a conversa com a equipe reunida. Entretanto, Teresa continuava firme na sua ideia de não tomar nada, não fazer tratamento algum que fizesse cair seus cabelos. Nenhum argumento a fez mudar de opinião.

Teresa continuou expelindo secreções muco-sanguinolentas, mas vivendo com seus belos cabelos. Procurou todos os milagreiros possíveis que utilizavam as outras “ciências”, tais como rezas, po­ções, cristais, homeopatias, isto é, remédios suaves que não faziam o cabelo cair.

Passaram-se três meses. Teresa foi piorando. Ficou mais magra ainda, pálida e com uma enorme barriga. Cada vez mais ela passava a maior parte do tempo deitada.

O seu namorado foi, pouco a pouco, se afastando. Aconselhada por Consolação e Demócrito, ela voltou ao médico. Foi bem recebida pelo Dr. Amin, que continuava dirigindo o Serviço de Oncologia do hospital. Uma vez reinternada, novos exames foram pedidos. Como se previra, Teresa tinha piorado: o tumor tinha gerado metástases, inclusive no cérebro.

Os médicos contaram a gravidade do seu estado para Consolação e Demócrito, que choraram durante toda a conversa com a equipe reunida. Entretanto, Teresa continuava firme na sua ideia de não tomar nada, não fazer tratamento algum que fizesse cair seus cabelos. Nada fazia mudá-la de opinião.

Os médicos foram ficando desesperançados e, ao mesmo tempo, irritados pela impotência deles diante da teimosia de Te­resa. Os dias foram passando e Teresa piorando. As rezas não sur­tiram efeito algum. Ainda havia um resto de esperança de salvá-la, caso a quimioterapia fosse instituída. Desanimada, a equipe se reu­niu, numa última tentativa. A reunião acalorada durou horas. Era preciso achar uma solução para aquela cliente especial. O grupo discutiu longamente o caso, conhecido no hospital como o caso da menina dos cabelos longos, para se tentar uma estratégia capaz de surtir algum efeito. O saber e o orgulho médico estavam sendo derrotados por uma criança teimosa.

Alguém sugeriu tratá-la à força, pois tinham medo da crítica da imprensa e da opinião pública, caso ela morresse por falta de tratamento num caso relativamente fácil. Era um absurdo, um abu­so, uma criança manhosa e histérica não aceitar, para salvar tempo­rariamente fios de cabelos, o tratamento instituído por quem sabia o que está fazendo. Tiveram medo também de forçá-la a aceitar o tratamento. Mudaram de opinião devido às consequências legais.

Um professor, depois de muito refletir, sugeriu mentir para ela. E assim foi feito.

Para executar o imaginado, o corpo médico afirmou para Te­resa que felizmente havia chegado da Alemanha um novo e pode­roso medicamento, capaz de vencer todos os cânceres existentes, e este, especialmente, não fazia cair os cabelos. Dr. Amin deu a boa nova a Teresa, receoso de ela não se convencer de sua men­tira. Era a sua última tentativa, falar-lhe sobre o “novo remédio”. Finalmente, após idas e vindas, ela aceitou fazer o tratamento e tomar o medicamento, ainda que bastante desconfiada.

As sessões começaram logo em seguida. Havia pressa em iniciar o tratamento. Para evitar que ela descobrisse a queda dos cabelos, mantiveram-na adormecida, dia após dia, em virtude de grandes quantidades de sedativos. Dessa forma, era-lhe impossível verificar ou pensar que seus cabelos tinham caído. Sem cabelos, sua grande testa aparecia mais realçada, e por trás desta surgiu um crânio feio, ovalado e comprido. Assim ela permaneceu por várias semanas. Milagrosamente, o tumor foi regredindo, inclusive o do cérebro. A equipe médica vibrava de alegria pela vitória. Seu ab­dômen diminuía de tamanho a cada dia e sua cor melhorava. Con­solação e Demócrito vinham vê-la, sempre que eram permitidas as visitas, e choravam de alegria.

Finalmente o tratamento terminou com absoluto sucesso. Havia mais um problema preocupante. Como ela reagiria quan­do acordasse e verificasse que estava careca? Os otimistas acre­ditavam que ela ficaria tão alegre com sua cura, que nem ligaria para uma calvície provisória. Seguindo o programa estabelecido, os calmantes foram retirados pouco a pouco e sua consciência foi voltando. Teresa ainda não se dera conta da perda de seus cabelos. Foi colocada na sua cabeça uma linda touca branca feita de tricô.

Acontece que, tão logo começou a recuperar-se quando os sedativos foram diminuindo, ela passou a mão pela cabeça, como sempre fazia ao acordar. Não sentiu a gostosa sensação de seu pelo. Amargurada e desesperada, ficou furiosa. Depois, com o pas­sar dos dias, ela ficou sem forças para lutar e sua vida perdeu o brilho que tinha.

Quando ela perguntou para uma enfermeira o que fora feito de seus cabelos, esta não lhe deu importância, pois tinha mais coi­sas a fazer. De fato, os cabelos, à medida que foram caindo, foram sendo jogados fora.

O dia da alta foi se aproximando. O Dr. Amin, bem como toda a equipe, orgulhosos pelo belo resultado foram-se despedir da paciente. Teresa, há alguns dias, mostrava um olhar vago e qua­se nada falava. A equipe médica, eufórica com o sucesso, não per­cebeu a expressão de desespero de Teresa.

Diante de todos, ela, antes de se aprontar para deixar o hos­pital, ainda no leito pediu um espelho para se olhar. Prontamente uma companheira de enfermaria lhe entregou um pedaço de espe­lho, o suficiente para que ela não se reconhecesse como Teresa. Seu maxilar contraiu-se diante de todos.

Duas lágrimas silenciosas desceram suavemente de seu rosto comprido, abandonando seus pequenos olhos. Os médicos abai­xaram a face, envergonhados com o que presenciavam. Ao ver sua cabeça sem cabelos, sua fisionomia, que já estava séria, tornou-se sombria. Havia pavor na sua face. Os médicos, sem saber o que fazer, apressaram a despedida. Sorriram confusamente para ela e a abraçaram. Lentamente foram caminhando para ver outro pacien­te, na mesma enfermaria.

Teresa poderia sair ainda naquela manhã. Firme, apoiada no seu ódio, levantou-se, a princípio vagarosamente. Desequilibrou-se aos primeiros passos e apoiou-se na enfermeira que a auxiliava. Ganhou forças, através de sua ira, ao passar novamente a mão pelo crânio e sentir a ausência de cabelos. Firmou-se mais, pouco a pouco. Agora, já conseguia caminhar sem o auxílio da enfermeira, pelas suas próprias pernas.

Caminhou mais pela enfermaria. Foi de um canto ao outro, como se estivesse medindo sua força futura. Suas feições foram mudando. Foi ficando mais calma e segura quanto aos seus planos. De repente, passou rápido diante do grupo de médicos que discu­tiam outro caso clínico, no leito ao lado.

Diante deles e de todos, sem que ninguém pudesse fazer nada, Teresa apressou seus passos, agora totalmente firmes. Ini­ciou uma pequena corrida, subiu numa cama colocada embaixo da janela. Diante dos olhares e da impotência de todos, médicos, enfermeiras e pacientes, Teresa pulou do vigésimo andar do hos­pital em direção à morte.

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