Inalda

Caminhava sem rumo, alegria e ideias, pelo centro da cidade, após mais um dia vazio. Não havia produzido nada. As ruas estavam cheias de pessoas cansadas e apressadas, que se dirigiam para o repouso da noite. Suas fisionomias eram tristonhas. Todos sabiam que, no dia seguinte, fariam o mesmo trajeto, o mesmo serviço até a chegada do dia da aposentadoria. Respirava um ar poluído da tarde abafada e quente.

Saio do meu entorpecimento ao me deparar, de repente, com um grupo de pessoas que rodeavam alguém que acabara de ser atropelado. Indiferente, acostumado e embrutecido por essas situ­ações tão frequentes, fiz uma volta para continuar minha caminha­da, percebendo a inutilidade de qualquer gesto meu. Entretanto, curioso e como que atraído pelas desgraças, lanço um olhar por baixo dos braços de um dos “voyeurs” e, sem grande emoção, per­cebo, estendida na rua, ensanguentada, com uma expressão de dor e vergonha, minha antiga amiga Inalda. Estava feia. Fiquei paralisa­do, sem saber qual ação tomaria. Ela agora nada mais significava em minha vida, há muitos anos não nos víamos.

Tinha tido ocasionalmente algumas notícias suas através de um seu companheiro da secretaria, onde ela era atendente escritu­rária. Ouvia sempre entediado os relatos a seu respeito. Nossas vi­das, durante alguns anos, correram juntas, agora nada mais tinham em comum. Praticamente moramos juntos, logo após eu ter termi­nado a universidade, quando ela, com os seus 17 anos, despontava linda, alegre, brejeira.

Sua pele morena exalava um perfume que me excitava. Ela era provocante, totalmente irresponsável, mas, sobretudo, cativan­te e sedutora.

Eu, sério e compenetrado, imaginava, naquela época, poder salvar todos, principalmente as mulheres bonitas. Tentei inutilmen­te convertê-la para os caminhos que julgava serem os corretos. Ela ria bondosamente da minha inocência. Apesar de ser cinco anos mais nova, julgava-me complacentemente, pois era muito mais ex­periente do que eu na arte de viver, conquistar e amar. Eu só vim a saber disso anos mais tarde. Hoje sinto vergonha da minha igno­rância. Nesse instante lembrei-me dela viva. Visualizei particular­mente uma noite, após ter jantado no Hospital onde tirava plantões e escutei sua voz rouca, do outro lado do telefone, ligeiramente apressada a me dizer:

— Eu vou aí te ver. Você pode me esperar? Eu tenho que ir rápi­do. Acabei de me casar. Saí da festa e vim lhe telefonar. Estou indo…

— Mas como? Você se casou? Com quem? Ela não me respondeu.

Confirmei o encontro para onde morava. Sempre fui atraí­do por situações estranhas, por pessoas complicadas e diferentes. Inalda era uma delas. Detestava o comum e o normal. As situações iguais às outras nunca me atraíram. Para que entramos nelas, se já sabemos como vão terminar?

Inalda chegou rápido num táxi. Estava vestida de branco, bem penteada e maquiada. Eu não sabia como começar a conver­sa, mas ela sorriu, para colocar-me à vontade. Foi logo dando boas gargalhadas e achando graça na minha confusão. Deu-me um gran­de abraço e confirmou o seu casamento naquele início de noite. Estava tranquila como sempre. Não havia com o que se preocupar, pois não teria problema. Voltaria daqui a pouco e veio para me dar um “alô”. Daria para seu marido uma explicação qualquer. Como ele estava apaixonado por ela, ele aceitaria, exteriormente, qual­quer desculpa.

Eu discuti com Inalda diversas maneiras para ela explicar ao marido e tentar escapar de seu possível aborrecimento. Ela ouviu-me desinteressada pois, melhor do que eu, era perita nisso.

Não ficamos juntos mais do que uma hora. Tomou um táxi e partiu. Eu não dormi mais naquela noite, preocupado com o que poderia lhe acontecer. E também com sua possível perda, com receio de ela abandonar a alegria, que só ela sabia transmitir e mo­dificar minha mente solitária e cinzenta.

Tornei a vê-la outras vezes. Sentia que as ligações iam en­fraquecendo e perdendo o vigor. Uma vez tendo terminado meu curso superior, interessava-me por arranjar emprego, fazer novas amizades. Ela perdia um pouco sua juventude e, junto com ela, sua alegria e bom humor. Pouco a pouco adquiria o tédio, a irrita­bilidade e cacoetes dos que perderam a juventude, dos que come­çaram a ficar sem planos. Nós não éramos mais os mesmos, pouco a pouco o antigo par que convivia bem e alegremente, já não era o mesmo, o par atual não mais reconhecia o antigo.

Num domingo de carnaval, encontramo-nos por acaso na avenida. Caminhamos juntos, lembramos coisas antigas. Mas os sorrisos atuais eram bem diferentes dos de alguns anos antes. Can­sados da caminhada e talvez da solidão a dois que se estabelecera por falta de assunto que nos ligasse no presente, acabamos por nos deitar nos jardins da Igreja São José. Lá ficamos e chegamos a adormecer. Percebíamos, com algum sofrimento, o pouco de co­mum que agora tínhamos, o aumento do fosso entre nós.

Nossos caminhos se distanciavam a cada dia. Ela já tinha se separado. Tinha dois filhos, que eram criados pela sua mãe. Tra­balhava na secretaria, num emprego que pouco lhe rendia em di­nheiro ou prazer. Seus sonhos de ser, um dia, porta-estandarte, ou mesmo dançarina de cabaré, se acabaram, pois já estava velha para aquilo. Ela ainda era bonita, mas sua alma era agora pessi­mista, mais do que a minha. No último encontro, notava, com frequência, seus olhos mais brilhantes, cheios de lágrimas, que ela tentava disfarçar, limpando-as com as costas da mão. Não tivemos coragem de estabelecer planos para novos encontros. Ambos per­cebíamos a distância aumentando entre nós. Alguns sulcos leves já se desenhavam no seu rosto moreno.

Não mais ouvi as suas gargalhadas roucas e longas, não mais percebia sua irreverência para tudo e para todos. Agora nascia uma mulher chata, pessimista, temerosa a respeito de tudo: dinheiro, desemprego, solidão e futuro. Percebia, com profunda tristeza, que minha Inalda morrera, não era em nada a do passado. Tornou-se queixosa, resmungona, amarga, exigente e amedrontada. Amargu­rado, sabia que não mais a desejava. Ela, que antes me atraía, agora me incomodava. Ao mesmo tempo, recriminava-me amargamente ao criticar uma pessoa que amei e que não mais existia. Sentia-me impiedoso e crítico demais para com um ser humano que sofria. Eu padecia pelo contato com sua presença morta.

Chegou a ambulância. Não me aproximei, envergonhado de alguém poder adivinhar as nossas ligações, minhas emoções do momento e os meus pensamentos. Tinha agora certeza de que era ela. Não sei se ela estava já morta ou apenas desmaiada. Inalda parecia sorrir, suas faces transformaram-se, novamente. Senti nas­cer, por alguns momentos, sua beleza anterior e senti saudades da antiga Inalda, desejos de tentar uma aproximação e de, juntos, voltarmos ao passado.

Naquele momento, ela nada percebia. Devia sofrer. Seu cor­po inerte transportou-me ao mundo dos sonhos, dos nossos pri­meiros encontros, quando ela acreditava, talvez como agora, des­maiada, que no mundo tudo seria fácil de ser feito, de que não havia necessidade de planejar nada. No mundo de Inalda as coisas se arrumariam por si mesmas, não precisavam ser administradas. Ela era poderosa por ser bonita, jovem, alegre e inteligente, e isso nunca iria desaparecer. Tudo um sonho dos jovens. Agora, deitada na maca, ela devia estar voltando para o passado. Um passado onde ela foi feliz por estar enganada acerca da vida. Só enganada teve, em sua pobre vida, chances de ser alguém.

Não tive mais notícias suas. Passei por diversas vezes pelo lo­cal do acidente, tentei visualizar o seu belo rosto desmaiado. Foi tudo inútil, ela não mais aparecia como antes.

Um comentário para “Inalda”

  1. Descobri este site ha pouco tempo,mas sempre que posso dou uma espiadinha.
    Parabens!!!
    Você usa muito bem as palavras,os textos são maravilhosos.
    Grande abraço!

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