Esquizofrenia e Elefante

O diagnóstico não podia ser outro: esquizofrenia. Marta havia sentido uma tromba de elefante passar pelo seu rosto enquanto dormitava, numa tarde, dentro de sua própria casa em Águas Tur­vas. O Dr. Mário, único médico da cidade, apesar de sua pouca experiência com doentes mentais, não teve dúvida. Era preciso medicá-la, talvez interná-la para um tratamento sério.

Marta e Mário foram bons amigos quando crianças. Foram colegas no grupo escolar da pequena cidade onde moravam. O tempo passou. Mário saiu ainda jovem de Águas Turvas para vir à capital estudar Medicina e por anos não mais teve notícias de Mar­ta. Depois de formado, voltou a Águas Turvas, onde começou a cli­nicar. Fazia de tudo: partos, pequenas cirurgias, tratava as doenças do coração, câncer e até dos loucos da cidade.

Marta era uma mulher vistosa: alta, longos cabelos negros que combinavam com seus grandes olhos sempre abertos, sua boca ras­gada e circundada por grossos lábios. Com o tempo, após casar-se e ter seus dois filhos, apesar de ter engordado continuava bonita e se­dutora. Ela não foi feliz no seu casamento. Seu marido, sem profissão certa, passava parte do dia nos botecos da cidade, bebendo ou jogan­do baralho. Gustavo voltava sempre tarde para casa e, muitas vezes, agredia Marta, quando essa não lhe dava dinheiro para beber.

As despesas da casa eram pagas por ela, que lecionava na es­cola local e, nas horas de folga, fazia quitutes para vender. O casal morava numa pequena casa, à beira do grande rio da cidade. O único passeio de Marta, nas suas folgas de domingo, era uma curta caminhada na pequena praia que se formara na beira do rio. Há muito não ia a um baile, que ela adorava quando solteira, e não fazia viagens para fora de sua cidade.

Num fim de tarde, Dr. Mário foi chamado às pressas, para exa­minar sua amiga Marta. Ela estava, segundo o mensageiro, “louca”. Cansado e triste com a notícia, depois de um dia estafante, ele ca­minhou até a residência dela. Ali encontrou seu marido, seus pais, irmãos, vizinhos e várias pessoas que passavam pela rua quando ela “enlouquecera”. Todos estavam espantados com sua mudança. Ora um, ora outro, cada qual ao seu modo, eles seguravam a paciente pelos braços e pernas, que se debatia em cima de uma velha cama de casal, tentando se soltar. A família, apavorada com a gravidade do caso, já havia contratado uma corrida com o taxista da cidade para levá-la ao manicômio existente na capital.

Dr. Mário, um tanto perplexo e confuso com tantos palpi­tes, olhou para Marta e, imaginando não ser nada tão grave como parecia, pediu a todos que se afastassem. Ele iria examiná-la a sós. Todos tentaram mostrar-lhe o perigo que estava correndo, pois a “louca” poderia agredi-lo, como já fizera com outros ali presentes.

Uma vez livre dos braços de seus algozes, Marta rapidamente se acalmou. Dr. Mário disse-lhe firmemente quem era e que estava ali para ajudá-la. A sós, no quarto com o médico amigo, Marta, em soluços, foi relatando seus infortúnios: seu trabalho exagerado, o marido mulherengo, jogador e alcoólatra, suas dificuldades finan­ceiras para dar de comer à família… Desabafando, aos poucos foi, não só se acalmando, como também adormecendo, pois havia to­mado diversos remédios dados pelos parentes e amigos.

Dr. Mário saiu do pequeno quarto triunfante, para decepção dos presentes. Deu algumas explicações, pediu para deixá-la em paz e foi-se embora. Poucas vezes Dr. Mário encontrou Marta na rua após a crise sofrida. Nessas ocasiões, ele alertou-a a respeito do risco do internamento.

Os meses passaram e Mário não teve notícias de Marta. Uma tarde de domingo, ele levava seus filhos para ver o circo da cidade, que ali se instalara, quando avistou Marta.

Ela estava um pouco mais gorda, andava lentamente pelas ruas, parecia ter o corpo endurecido e a face inexpressiva. Sua voz, arrastada, custou a sair, quando ele se aproximou dela. Marta tentou escapar, mas ele a cercou rapidamente e perguntou-lhe o que havia acontecido:

— Fui internada logo depois daquele dia. Fiquei três meses no hospital. Voltei há dois meses, estou dando aulas novamente… Meu corpo está todo duro, estou desanimada com tudo. O que posso fazer? Tenho que continuar a viver…

Dr. Mário aconselhou-a, ali mesmo na porta do circo, a largar os medicamentos, pois seu caso não exigia isso. Ela, sem forças, nada fez em seu benefício.

Uma tarde de quinta-feira, Dr. Mário foi novamente chamado às pressas para ver sua antiga amiga e paciente. Sofrera mais uma crise de loucura. Rapidamente, curioso por vê-la, dispensou todos os pacientes que o esperavam no consultório e foi até sua casa.

Lá encontrou a festa de sempre: parentes, vizinhos e conhe­cidos segurando-a em cima da cama de casal. Novamente Dr. Mário dispensou o auxílio destes e ficou com Marta no quarto. Em pou­cos minutos ela se acalmou e contou o que ocorrera:

— Trabalhei toda esta manhã fazendo os quitutes para vender. Depois fiz o almoço, dei banho nos meninos e, após alimentá-los, levei-os à escola. Depois fui dar aulas. Vim cansada para casa. Perto daqui, ao passar pelo bar, avistei meu marido tranquilo, bêbado, jogando baralho, rindo, cantando. Cheguei a casa e só encontrei um resto de arroz e de couve. Fiquei desesperada…

— É… você tem sofrido muito, nesses momentos qualquer um fica assim.

— Desisti de tudo, não sabia o que fazer, os meninos estavam com fome. Fui para o meu quarto desesperada com a minha vida. Queria morrer. Deitei-me com a casa toda escancarada. Acho que adormeci por minutos, não sei bem. Sei que, de repente, senti uma tromba de elefante passando na minha face. Dei um pulo da cama e saí gritando pela casa. Os filhos choraram junto a mim.

— Você teve um sonho e acordou, pois não podia haver um elefante no seu quarto.

— Claro que não, mas eu senti a tromba passar na minha cara, tenho certeza de que era uma tromba de elefante.

As explicações do Dr. Mário pouco adiantaram. Ele passou parte do seu tempo acalmando-a, pois começava a desconfiar que seu diagnóstico, de que ela não tinha nada, estava errado. Tentou imaginar uma outra alternativa, um diagnóstico menos grave para sua amiga. Não conseguiu pensar em outro. Ela continuava a falar com a convicção de que foi uma tromba de elefante que ela sentiu.

Com pesar, Dr. Mário percebeu que sua amiga estava “louca” e, ao contrário do que imaginava anteriormente, era preciso fazer algo mais agressivo. Esquizofrenia? Talvez, quem sabe, histeria, ou até mesmo, devido ao excesso de medicações que tomara, um qua­dro orgânico cerebral? De qualquer forma, ele conseguiu acalmá-la e marcou um encontro em seu consultório no dia seguinte, para conversarem com mais calma. Pensaria melhor até o dia seguinte sobre o que fazer diante dessa evidência. Ela não apareceu, como havia combinado. Depois de alguns dias, Dr. Mário soube que ela foi novamente internada devido ao seu delírio.

Os dias correram como sempre em Águas Turvas. As festas de sempre da igreja, a volta do velho circo, alguns poucos casamen­tos, cavalgadas, bebedeiras, verminoses, disenterias e várias brigas de rua e chifradas de vacas.

Numa tarde calma, Dr. Mário caminhava pelas ruas da cidade, em direção à praia que margeia o rio, quando avistou um moleque conhecido de todos na cidade, “Pão com Linguiça”. Este, paciente­mente, levava dois elefantes do circo, instalado há poucos dias na cidade, para tomar um banho no rio. A conversa entre os dois ve­lhos conhecidos foi interessante e esclarecedora para o Dr. Mário:

— Olá “Pão com Linguiça”, já comeu seu pão com linguiça hoje?

— Ainda não. Só vou comer após ganhar cinco reais.

— Cinco reais?

— Sim, é quanto cobro para levar esses elefantes a tomar banho no rio.

— Não é muito, não?

— Nada! Isso dá muito trabalho. Os elefantes precisam de água e o rio fica longe do circo.

— É, de fato…

— É preciso saber lidar com esse bicho, ele é manhoso. Sem­pre que o circo vem aqui, sou eu quem os levo… só eu sei mexer com eles.

— Ah, eles gostam de água…

— Gostam muito. Dão um trabalho danado. Frequentemen­te, eles saem do caminho, entram por uma rua e outra, vão para o mato.

— Não são inteligentes?

— São burros. Demoro muito tempo para guiá-los até à beira do rio.

— Compreendo, deve ser difícil mesmo. Um bicho desse ta­manho… Não tem medo deles?

— Nem um pouco, já me acostumei. Eles são engraçados. Certa vez um deles fugiu e entrou no quintal de uma casa e foi um custo trazê-lo de volta para a rua…

— No quintal? onde?

— Foi no ano passado. Quando eles já estavam perto do rio, acho que ficaram alegres ao ver a água, um deles escapou e entrou no terreno da professora, na casa de D. Marta, aquela que mora perto do rio. Ele enfiou a tromba na janela do seu quarto.

— O quê? No quarto de Marta?

— Passou a tromba na cara dela. Ela deu um grito, eu morri de rir.

— Na cara de Marta, a professora?

— Sim, ninguém sabe disso não. Eu saí correndo com eles, acho que não fui visto.

— Ah! Até logo, “Pão com Linguiça”, você ajudou-me a deci­frar um enigma.

— Enigma? O que é isso?

— Nada, toma mais cinco reais.

— Tanto assim! Que bom.

Dr. Mário saiu apressado e procurou Marta. Marcou um en­contro para o dia seguinte, no seu consultório, para ter uma con­versa longa com ela. Esta continuava a tomar os medicamentos para alucinações visuais. A conversa, que durou mais de duas ho­ras, produziu bons frutos.

Marta chegou a casa e jogou fora todos seus medicamentos. Procurou, em lugar de um psiquiatra, um advogado e impediu seu marido de entrar em sua casa, a partir daquela data. Dois meses de­pois, estava separada. Após esse esclarecimento e das decisões to­madas, Marta tornou-se uma outra mulher, mais bela, mais segura e feliz. Em Águas Turvas, não mais se ouviu falar de suas “loucuras”.

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