Desabafo na Mesa do Bar

B — Puxa! Você custou a aparecer… Senta aí. Estou te espe­rando há meia hora.

A — Ah! Estou meio chateado.

B — Que você vai tomar?

A — Qualquer coisa.

B — Que houve?

A — Briguei com a menina. Troço besta…

B — É por isso que tá chateado? Ora Zé, deixa isso prá lá… Vamos tomar uma pinga. Isto passa.

A — Não é muito fácil não.

B — Olha, escuta aqui: mulher a gente esquece com mulher. Eu tô de carro aí.

A — Seu?

B — Meu irmão emprestou o dele. Tenho duas cupinchas lá no conjunto do IAPI. Dois chuchus. Topam qualquer parada. Pode perguntar ao Zé Alberto. E não tem hora não. Aquilo lá é meu.

A — É seu?

B — É nosso, não complica. Basta eu telefonar. É programa certo. A gente podia sair daqui, apanhar as garotas e dar um pulo lá no Peter’s. Topa?

A — Ah, não sei não…

B — Olha o que te falei: mulher a gente esquece com mulher. Vamos, Zé! Duas uvas, garanto.

A — Você está confundindo mulher com mulher. Minha na­morada é minha namorada.

B — Sua não. Foi.

A — Pra mim, continua minha. Não é uma mulher qualquer, no sentido que você fala. É diferente.

B — Não seja besta, Zé. Não existe mulher diferente. Você é cismado com esse negócio de mulher diferente. Desde que eu te conheço você fala em mulher e fica bobo. Você dá cartaz demais pras suas namoradas.

A — Não é isso não… Eu não gosto é de…

B — É isso, sim! Com aquela do ano passado…

A — Não é não…

B — Foi a mesma coisa. Você brigou e…

A — Não fala besteira. Aquela menina do Sion era outra coisa completamente diferente… .

B — Deixe eu falar?

A —… diferente. Eu não gostava dela nem…

B — Deixa eu falar?

A — Tá bem. Fala.

B — Escuta aqui, Zé. Você é romântico demais. Você ainda acredita nesse negócio de levar flor prá namorada, fazer poesia… É, ou não é?

A — Mas eu sou assim, que que eu vou fazer?

B — Pois é! Você é assim. Aí é que tá a coisa. Isto não dá camisa a ninguém não, Zé. A gente tem que mostrar uma certa in­diferença, compreendeu? Você não compreende não, não precisa compreender. Brigou, não brigou? Então pronto. Não tem nada de ficar corneado aí não. Sai pra outra. Amanhã, ou melhor, daqui a três dias, você taca um telefonema pra ela. Ela vem se desmanchan­do pra você. Você não. Você briga e fica com cara de enterro: “tô chateado, tô chateado”. Chateado a gente fica, mas não pode dar bola pra isso. O melhor é beber a sua pinga, que já está esfriando.

A — Acontece que…

B — E fazer o programa com as enxutas do IAPI. Você não vai se arrepender.

A — Não, João, a coisa não é simples assim. Você não sabe de nada…

B — O que que eu não sei, Zé?

A — Uma porção de coisas. Você não conhece a garota, não sabe como foi, porque foi, onde… .

B — Tá bem. Então fala. Quero saber.

A — É complicado. Essa menina tinha um namorado. Estu­dante de Direito. Eu detesto tirar a namorada do outros. Eles namo­ravam lá perto de casa. Eu tava na janela, via os dois passando da mãos dadas. A menina é bonita pra burro. Não é um tipo de beleza não, mas tem uma coisa — você sabe como é. Às vezes eu estava na janela, ela passava sozinha e dava uma bola danada. Eu ficava meio assim, não queria olhar…

B — Mas olhava…

A — Nem sempre. Mas acabei olhando sempre.

B — E ela continuava com o outro?

A — Toda noite o cara ia lá. Eu manjava tudo. No dia seguin­te, ela voltava da aula — ela estuda no Instituto de Educação — dava uma bola pra mim.

B — E você ficava na janela esperando ela passar?

A — Acostumei. Às cinco horas da tarde ela passava, eu tava firme na janela.

B — E daí?

A — Um dia, isto foi em Abril, não, Maio, eu estava em casa, ela telefonou.

B — Ela é que telefonou?

A — Foi. Conversou, conversou. Não quis dar o nome. Mar­cou um encontro.

B — Você foi!

A — Fui.

B — Você sabia que era ela?

A — Não sabia. Mas suspeitei.

B — Encontrou com ela?

A — Ela não foi.

B — Não foi?

A — Esperei tempo pra burro. Desisti. No dia seguinte, era um sábado, ela telefonou de novo e deu o nome.

B — Você sabia o nome dela?

A — Já. A empregada da república descobriu pra mim. Deu uma porção de desculpas, falou que não pôde ir ao encontro, que não sei o que mais, ah! Disse que tinha visita na casa dela, não po­dia sair… .

B — Você acreditou?

A — Claro, acreditei.

B — E daí?

A — Marcou outro encontro.

B — E foi?

A — Desta vez foi. Acho que eu já estava apaixonado.

B — Acha?

A — Bem, estava gostando dela. Falei do tal cara de Direito. Ela disse que tinha brigado com ele.

B — Você ficou satisfeito.

A — Fiquei.

B — Demonstrou isso?

A — Acho que sim. Fiquei alegre, ri muito, fomos tomar um sorvete. E passamos a nos encontrar seguidamente.

B — Todo dia?

A — Não. Três vezes por semana.

B — Por quê?

A — Ela estuda e eu também.

B — Mas ela estuda de tarde.

A — Começou um curso de inglês no Brasil-Estados Unidos.

B — Foi ela que falou?

A — Foi. Ontem não era dia da gente se encontrar. Mas eu estava cansado demais para ficar em casa. Fui ao cinema Metrópo­le. Tinha uma fila enorme. Fui ver esse filme que todo mundo está falando.

B — Que filme?

A — Esse francês… Como é que chama? É… O Sol por Teste­munha.

B — Hum! Hum!

A — Chego no cinema, vejo a garota com o tal cara.

B — O estudante de Direito?

A — Ele mesmo. Estavam de mãos dadas.

B — Que é que você fez?

A — Tive vontade de… nem sei o quê. Ir falar com os dois, pas­sar uma esculhambação nela, fazer um escândalo, brigar com o cara — o cara é até um sujeito magricela, eu podia ter massacrado ele…

B — Mas o que é que você fez?

A — Saí do cinema e fui embora.

B — Ela te viu?

A — Viu. Peguei o ônibus e fui pra casa. Nem dormi direito. Hoje ela telefonou. Eu não ia atender… acabei atendendo. Falei com ela o negócio do cinema. Peguei ela meio de surpresa. Deu umas desculpas, mas eu fiquei chateado e acabei desligando. E vim pra cá.

B — Acabou, Zé? Pois olha: é exatamente aquilo que eu te falei: você não sabe mexer com mulher.

A — Não sabe, como?

B — Pois a menina não tava com o cara de Direito e não dava bola pra você? Como é que você foi confiar numa mulher destas? Isto até parece coisa de criança!

A — Que é que tem isso? Ela não podia estar gostando mes­mo de mim?

B — Ora Zé, deixa de ser trouxa. Você não manjou logo que ela queria era movimento? Chegou a telefonar pra você! Mulher que anda atrás de homem dá pra desconfiar.

A — Desconfiar, por quê? Quem disse que ela anda atrás de homem?

B — Você mesmo.

A — Eu não disse isso. Disse que ela telefonou pra mim.

B — Pra mim, mulher que telefona pra homem, tá querendo homem.

A — Você tem mania de achar que tudo é esquemático… Ela podia estar gostando de mim.

B — Você é que acreditava nisso.

A — Eu não tinha razão pra não acreditar.

B — Não tinha, porque você sempre foi assim: mulher olha pra você, você se baba todo. Eu sei por quê.

A — Ora, você sabe demais… Você vive sabendo… você é um sábio…

B — E sou mesmo! Você tem é complexo de inferioridade, Zé. Você não tem personalidade nenhuma. Já vai encontrar com a namorada, esperando as ordens dela. Você é um sujeito tão burro que acreditou naquela história do Brasil-Estados Unidos…

A — A menina está matriculada lá. Eu verifiquei hoje!

B — Olha aqui, Zé: você não sabe o que é ser homem! Você é tímido demais. Além disso, eu te conheço. Você nunca topou uma farra com a gente, se tem mulher no meio. Você duvida da sua mas­culinidade, Zé. Você não sabe o que é macho, Zé, MACHO! Fica namorando essas meninas de colégio como fuga. Você quer provar que é macho, conquistando esses brotinhos imbecis.

A — Olha aqui, João, você já está me enchendo com esse ne­gócio de macho. Eu nunca falei o que penso de você.

B — Nem me interessa. Eu falo é porque sei. Conheço sua fa­mília toda, e há muito tempo, quando vocês moravam no interior. Seus irmãos são assim também, inquietos, não decidem nada, fica tudo no ”que é que eu vou fazer”…

A — Você está metendo negócio de família no meio, João, e eu não gosto disto…

Um comentário para “Desabafo na Mesa do Bar”

  1. Muito bom…..Muito ótimo!

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