Confidências à Meia-Noite

São nove e meia da noite: o telefone toca insistentemente. Pau­lo, cinquenta e dois anos, administrador de empresas, olha as horas no relógio dependurado na parede. Apesar de cansado, após ter lecionado todo o dia, ele se encontra animado e feliz. Resolve aten­der o chamado, imaginando: “Quem sabe, é ela.”

— Alô, é Paulo? Aqui é Cícero. Tudo bem?

— Cícero! Como vai? Sua voz sai baixa, demonstrando frustração.

— Mais ou menos. Todo dia, aqui no banco, meu chefe me aporrinha.

— Nas minhas aulas eu ensinei como lidar com chefes chatos. Você tem usado o aprendido?

— Claro que sim. Mas com ele não adianta. Tudo que faço, ele acha ruim.

— Mas não foi despedido, como imaginava. Ainda bem, não acha?

— Certo. Mas vou ser transferido. Até que gostei. E você, como vai?

— Tudo bem. Estou com sorte. Estes dias uma antiga amiga me…

— É? Você se lembra daquela moça que lhe falei? Ela canta no conjunto em que toco.

— Sim. Lembro-me. Ela agora te largou, canta no coral, não é?

— É… Mas voltou… está impressionada com a técnica. Deu certo!

— É… esta minha amiga… uma amiga dos tempos da facul…

— Eu, agora, é que não sei se a quero de volta ao conjunto. Vou levando. Paulo, estou azarado. Preciso tocar, mas estou com dor na mão direita. Fui ao médico e, para ele, eu não devo trabalhar com os dedos.

— Isso passa… é coisa simples. Você se impressiona com tudo. Exagera qualquer dor ou mal-estar. A minha amiga morava aqui, há muitos anos. Ela, ao contrário de você, sempre…

— Você acha que devo tirar licença médica? Conversei com um amigo ligado ao diretor. Ele acha que devo cuidar de minha saúde em primeiro lugar. Preciso emagrecer, estou com quinze quilos a mais.

— Puxa! É… precisa mesmo! Se você não for, pode piorar a situa­ção. E esta, como disse, não anda nada boa. Não é? Essa minha amiga fez um regime, emagreceu seis quilos. Ela só come verd…

— Preciso emagrecer, sim. Vou começar a fazer ginástica, comer menos doces: gosto de chocolate. Parei de fumar há três meses.

— É um grande passo. Agora já pode começar a emagrecer. A minha amiga gosta de alimentos naturais como…

— Se for para o interior, irei me sentir isolado. Nunca fiquei longe da família. Sempre morei com minha mãe, moro com ela atu­almente, após a separação com Fofó. Ficamos casados dois anos…

— Viver sozinho tem, também, algumas vantagens. Eu tenho pouco medo da solidão… chego a gostar dela. Quando essa amiga me telefonou, comecei a pensar…

— Acho que acabo me acostumando em Lavras. Não acha?

— É evidente. Até logo. Um grande abraço.

Paulo não conseguiu falar nada do que desejava. Seu amigo, por mais que ele tentasse, não quis escutar seu caso: a amiga, seu retorno, sua conversa ao telefone. Tudo isso estava lhe atormen­tando. Tomou um café requentado e pegou uma revista para ler, mas não conseguiu prestar atenção em nada. Sua mente estava ocupada com Maria. Pensou em ligar para ela. O telefone tocou novamente.

— Paulo, tudo bem? Aqui é Dario, seu sobrinho. Estou lhe tele­fonando para comunicar o nascimento do meu filho, Mário.

— Que bom! Você casou-se? Não sabia, hoje em dia há muito desses casamentos modernos. Mário é um bonito nome, parece com o nome…

— Não casei. Estou morando com aquela minha namorada, Clara. Você a conhece. É aquela que trabalha na Secretaria da Educação.

— Lembro… é uma alta, morena, bonita! Que tal a vida a dois?

— Mais ou menos. Sinto-me muito preso. Ela é ciumenta. Por causa disso, tive que abandonar as outras. Sempre gostei de várias.

— É sempre assim. Se estamos sozinhos, reclamamos, se en­contramos alguém, não suportamos. Amamos quem não nos ama e somos amados por quem não amamos. É o nosso destino. Ela pa­rece ser uma boa moça, deve dar certo. Eu, grande parte de minha vida, fiquei só. A gente, pouco a pouco, vai se acostumando. Esses dias, uma antiga amiga telefonou-me. Ela é bonita e…

— A vida a dois é até boa. Não me arrependi. Mas filho, ainda mais recém-nascido, é um saco. Chora a noite inteira. Não durmo mais como antes. Fico bocejando no trabalho. Estou precisando de sua ajuda. Vi em sua casa, no fundo da garagem, uma banheira velha para dar banho em recém-nascido. Você pode emprestá-la pra mim? Além disso, preciso que você me indique um pediatra. Um que cobre barato, pois o dinheiro está curto. Você elogia mui­to o que cuidou de seus filhos.

— Sim. Tenho, sim. A banheira está estragada, mas ainda pode ser usada. Esta minha amiga contou uma história interessante e cômica do seu primeiro filho e do primeiro banho que ela foi dar numa banheira como…

— Preciso de seus conselhos e experiência para cuidar bem do meu filho. Ele é do saco roxo. Macho como nós. Espero que seja paquerador como sempre fui. Ah! Ia esquecendo-me, estou preci­sando de um empréstimo. Não é uma grande quantia não. Apenas duzentos reais para pagar algumas despesas extras que tive. Daqui a uma semana eu te pago. Posso contar com você?

— Acho que sim. Vou procurar a banheira. Por falar em despe­sa, esta minha amiga gastou uma nota…

— Posso passar aí amanhã para pegar a banheira e o dinheiro?

— Amanhã à noite. Dou aulas durante o dia. Como sabe, moro só e faço tudo sozinho. Se arrumasse uma companhia, talvez as coisas ficassem…

— Vou desligar. O pirralho está berrando e minha mulher está me chamando. Até amanhã.

— Até logo.

Paulo continuava a pensar em sua amiga. Discutia consigo se devia ou não lhe telefonar. Precisava falar com alguém a respeito dela. Tinham sido amigos quando jovens. Maria, após estudar em Belo Horizonte, foi para o Paraná, onde morava sua família. Mais tarde, casou-se. Separou-se há cinco anos. Paulo a imaginava bo­nita, alegre e espontânea, como era quando se conheceram. Ela sempre gostou de ler, frequentar teatro e cinema. Talvez ainda esteja capaz de aguentar e de manter, por horas, uma conversa animada. A corrente de pensamentos de Paulo novamente foi in­terrompida pelo telefone, que volta a tocar.

— Professor Paulo, aqui é sua ex-aluna Fátima. Desculpe-me incomodá-lo às onze horas da noite. O senhor deve estar cansado… mas acontece que preciso conversar com alguém como o senhor. Como sabe, larguei meu marido há quase um ano. A princípio, fiquei feliz por ficar livre do Haroldo. Entretanto, a cada dia mais, sinto-me terrivelmente só. É muito ruim para uma mulher não ter um homem para conversar, sair, jantar fora ou mesmo transar. Es­tou desesperada. Ontem eu o vi. Ele caminhava junto com uma mulher. Não sei quem é: sei que é mais feia e mais velha do que eu. Mulher observa muito as outras. Além disso, é muito magra para meu gosto. Se for uma namorada, ele escolheu mal. Mas diabo! Mesmo assim fiquei com ciúmes. O que devo fazer para ficar livre do fantasma do Haroldo?

— Isto acontece, Fátima. Toda separação é parecida. A pes­soa, ao se separar, lembra-se das coisas ruins que aconteceram e, portanto, fica alegre e eufórica. Após um certo tempo, as coi­sas mudam. Começa a lembrar também dos bons momentos que passaram juntos. Aí a pessoa fica triste. Eu, como você sabe, sou separado há seis anos. Creio que já me acostumei um pouco com a vida longe da ex-mulher e filhos. Mas, outro dia, recebi um tele­fonema de uma antiga amiga. Ela contou-me…

— É! O senhor compreende mais do que minhas amigas esse tipo de problema. Tem uma experiência pessoal, sabe como é difícil viver só. O senhor não sente falta de uma companhia feminina de vez em quando?

— Claro. Todos sentem. Mas é difícil encontrar a pessoa certa para cada um. Não é que uma seja melhor do que outra. As pesso­as são diferentes e temos dificuldades em conviver com diferen­ças. Eu, pessoalmente, acho difícil. Essa amiga até que parece ter ideias parecidas com as minhas. Quando ela telefonou-me, conver­samos…

— Concordo. Já tentei algumas paqueras após o término do meu casamento. Mas os homens que encontrei não me agradaram. Suas conversas não me tocaram. Começo a conversar com eles e lembro-me do Haroldo. Faço imediatamente comparações. Ele é um ho­mem inteligente, culto, com uma grande cabeça, professor também como o senhor. Um chato, às vezes. Ah! Você o conhece.

— Sim, conheço. Participei com ele de uma mesa redonda. Ele é sagaz. Parece-se com a minha amiga. Ela é inteligente e culta. Há…

— É? Também encontrei um ex-namorado. Ele foi meu namora­do antes de conhecer Haroldo. Gostava demais dele. Naquela épo­ca, gostava muito do papo dele. Brigamos por nada. Agora foi uma decepção. Não sei se eu melhorei ou se ele piorou.

— Isto acontece. Antes do Haroldo, você não tinha um crité­rio tão sofisticado para avaliar pessoas. Qualquer um servia. Agora fica difícil encontrar um parecido. Comigo aconteceu diferente. Só hoje é que vejo que esta minha amiga é uma raridade. Comparan­do-a com diversas que tenho encontrado, percebo que ela…

— Haroldo tem muitos defeitos. Eu sei disso. Todos nós temos defeitos. Eu também não sou perfeita. Mas eu preferiria morar com ele, a viver como estou. Não consigo dormir quando penso nele. E ele era bom também para outras coisas, não era bom só de con­versa, não.

— Entendo bem seu problema. Estou vivendo algo parecido com esta amiga. Desde que a reencontrei…

— Professor Paulo, tomei muito seu tempo. Desculpe-me mais uma vez. Gosto demais do senhor, de suas ideias e conversa. Elas me fazem tão bem! Depois, quando tiver na fossa outra vez, volto a lhe telefonar. Boa noite.

— Boa noite. Telefone sempre que precisar. Seus problemas são muito interessantes, lembram os meus…

— Até a próxima.

Paulo, apesar de tudo, ainda continuava feliz, mas engasgado. Automaticamente, pega o telefone para discar para Maria. Talvez ela o escute. Já é meia-noite. “Já é tarde, já deve estar dormindo. Ela levanta-se cedo para trabalhar”… Paulo desiste.

Ele tentou, o dia inteiro, passar para outras pessoas sua vivên­cia e alegria. Ninguém se interessou por seu caso. Ninguém o ou­viu. Cada um queria falar acerca de seus problemas particulares, dando importância às suas misérias e não às dos outros.

Paulo, impotente diante do seu fracasso em comunicar sua ale­gria, procura uma última alternativa, um ouvinte mais obediente, capaz de prestar atenção ao seu relato, sem ter outros interesses. Tenso, após tomar um rápido banho morno, penteou seus cabelos, já ralos. Assentou-se comodamente diante do espelho que cobre toda a parede lateral da sala de visita. Para não ser interrompido, desligou o telefone. Postado diante do espelho, tendo à mão uma taça de seu vinho preferido, começou a falar para sua própria ima­gem refletida no espelho:

— Quando eu ainda era estudante de Administração de Empre­sas, conheci uma moça linda, alegre e inteligente por quem me apaixonei. Ela era, antes de tudo, capaz de ouvir-me. Apesar de nunca brigarmos, caminhamos cada um para seu lado. Não deixa­mos pistas… vinte anos depois, como por milagre…

Paulo, às vezes sorrindo, às vezes tendo lágrimas nos olhos, con­tinuou a contar sua história para si mesmo diante do espelho imó­vel e acolhedor. Do outro lado, sua imagem refletida parecia feliz e ouvia tudo atenta e seriamente. Cada emoção existente no rosto de Paulo transmitia igual sentimento na sua representação. Esta não demonstrava deboche, ironia ou enfado. A atitude simpática da ima­gem favorecia um relato tranquilo, sem temores. Sua figura refletida no espelho, ao contrário dos outros ouvintes, respeitava não só a narração, como as pausas, O reflexo no espelho não interrompeu, nem uma vez sequer, seu relato, prestava atenção a cada detalhe.

Aos poucos, foi relaxando. Tranquilo e feliz, Paulo pôde con­tar sua longa história de amor. Uma história vivida por ele, que só interessava a ele, talvez, quem sabe, também a Maria. Seu relato, carregado de lembranças alegres, terminou às três horas da madru­gada daquela quinta-feira abafada. Após ter completado sua histó­ria, Paulo foi deitar-se e, naquela noite, conseguiu dormir aliviado.

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