Sociedade e Cultura

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É arriscado examinar um povo a partir das experiências de outro povo ou cultura; examinar as mulheres com os “olhos” dos homens; os clientes com os olhos dos médicos; os negros com os valores dos brancos etc. Usar um tipo de linguagem para examinar outra pode não ser o ideal, entretanto, algumas vezes, produz uma melhor compreensão de uma ou de outra parte.

Quem sou eu? Posso conceber-me como um sistema físico de bilhões de átomos; um sistema biológico de trinta bilhões de células; um sistema orgânico com de centenas de órgãos; um elemento no sistema familiar, urbano, profissional, social, nacional ou étnico. Ao fazermos uma escolha quanto à avaliação, há algo de pessoal, e, além disso, selecionando uma delas, deixamos de lado as outras possíveis e válidas. 

Compreender uma pessoa – ou uma cultura – é apreender o significado das experiências e das ações do outro; de outro modo, reconhecer como as experiências e ações da pessoa se referem a outras experiências e ações possíveis vividas por ela. Quando isso ocorre, adquirimos ou tomamos posse do significado das experiências e comportamentos que queremos compreender. Qualquer ação tornar-se-á compreensível quando ela é relacionada a outras ações e experiências da mesma pessoa, e, nesse caso, a parte passa a ganhar sentido sob o “olhar” do conjunto total.

Cada sociedade enfrenta mais ou menos os mesmos problemas: abrigo, comida, doenças, criação dos filhos, morte, amor, cooperação. Cada uma dá suas respostas singulares. Por isso, o mundo real, construído inconscientemente pelos padrões linguísticos de cada grupo ou sociedade, impede a percepção de outros mundos reais, pois cada língua tende a pontuar e categorizar a realidade de maneira própria, e, desse modo, não percebe e classifica outro.

Podemos colocar um recém-nascido em qualquer cultura; ele se comportará razoavelmente nela apesar de possíveis limitações genéticas: um índio numa cultura negra, um esquimó numa cultura equatoriana etc. Os seres humanos não foram geneticamente programados para serem membros desta ou daquela ordem social. Mas o que é possível geneticamente não é permitido nas culturas ou sociedades, pois, em nenhuma delas é tolerado uma diversidade exagerada de modos de vida.

A ordem social, para o pensamento antigo teve seu fundamento na vontade divina. O discurso político repetiu e reproduziu a desigualdade dessa ordem tida como divina. Um exemplo marcante encontra-se nos famosos versos do hino inglês: “o rico em seu castelo – o pobre em seu portão – Deus os fez poderosos ou humildes – e ordenou sua condição”.

Levy Strauss pediu aos habitantes de uma aldeia que desenhassem a disposição espacial das cabanas conforme a crença de grupos antagônicos. O grupo dos “conservadores” desenhou as cabanas dispostas simetricamente em torno de um  círculo, tendo no centro um templo maior. Já o grupo dos “revolucionários” desenhou a aldeia como dois aglomerados distintos separados por uma fronteira invisível. Conclui-se que a percepção do espaço social (divisão concreta) dependerá de constantes ocultas na mente do grupo de observadores e não da disposição objetiva das construções

Para Althusser, os homens, de fato expressam não a relação entre eles e suas condições de existência, mas o modo como eles vivenciam a relação e suas condições de existência. Isso pressupõe tanto uma relação real quanto uma “imaginária” vivida. Na ideologia, a relação real é inevitavelmente investida da imaginária. É impossível isolar uma realidade cuja coerência não seja mantida por mecanismos ideológicos. Se a retirarmos, ela se desintegrará.

Para ter sentido queimar bruxas, é necessário ter como parte do ambiente intelectual /cultural as afirmações de que há demônios e que algumas pessoas podem se aliar a eles para fazer mal aos sem poder. Do mesmo modo, para “ter sentido” para alguns homens agredir mulheres, é preciso que haja um ambiente cultural onde esses homens aprenderam essa “verdade” – o mesmo pode ser pensado para a crença de que podemos e devemos bater nos filhos. Para que fossem aceitas as antigas ideias de que as mulheres não podiam votar, era necessário que houvesse uma crença plantada culturalmente acerca da incapacidade e submissão das mulheres aos homens.

As falsas crenças da inferioridade da mulher, da existência de espíritos, bruxos e feiticeiras, de que a Terra era o centro do universo, jamais foram estabelecidas em fatos possíveis de serem observáveis, ou logicamente inferidas. Mas essas ideias que dominaram a mente humana durante séculos foram defendidas com vigor pelos grandes sábios da época. Todas elas foram construídas em cima de princípios visando a justificar e proteger necessidades de um ou outro grupo detentor do poder. 

Uma vez semeada, nascida e desenvolvida, uma crença básica-tronco tende a dar nascimento a galhos e brotos, permitindo a formação de outras suposições não observáveis dela derivada. Assim, a ideia original inexata passa a ser uma condição para a formação de novas ideias, logicamente falsas. Logo, para entender uma determinada crença ou opinião torna-se necessário conhecer sua base cognitiva não revelada, implícita e inconsciente, inclusive para seu possuidor.

Não tem sentido falar de atitudes diante da educação ou do capitalismo, a não ser que saibamos o que essas categorias significam para o indivíduo que as discute. Não poderá existir  uma mudança de atitude sem que haja, também, uma transformação correspondente no conhecimento básico: o que fornece o suporte à crença que se quer mudar da atitude.

Aristóteles, ao defender a escravidão, baseou-se, “razoavelmente”, nas ideias da época acerca de supostas diferenças individuais que eram falsas. A oposição feita a Galileu foi, principalmente, devido a uma ordem social que tinha pontos de vista rígidos e errados acerca da criação do mundo, da natureza das coisas; esses impediam imaginar uma outra realidade. A falsa crença da inferioridade dos negros apoiou-se na manutenção do poder político e exploração de mão-de-obra.

Estudos mostram que condições ambientais semelhantes dão nascimento a formas parecidas de compreensão do meio ambiente físico e humano. Estas situações, definem de maneiras mais ou menos específicas para os indivíduos, as propriedades de coisas, pessoas, grupos e ações.

Os governos empregam inúmeros recursos para fornecer uma aparência de uma linha política razoável. A censura e certas formas de propaganda são esforços para moldar, ou imprimir, a compreensão e opinião da população conforme o desejado pelos governantes. 

Uma atitude contém em si uma ordenação mais ou menos coerente de diferentes dados. Observações e raciocínios  diversos utilizados pela pessoa devem estar arrumados e unificados para  facilitar os argumentos apresentados. O que a pessoa diz em certo ponto precisa estar ligado, de maneira inteligível, com o que se afirmara antes ou dirá depois, assim como as partes de uma história precisam estar interligadas. 

Uma determinada atitude encontrará resistência caso vá contra sistemas que imperam:  socioculturais e religiosos. Há uma tendência para buscar a estabilidade. Por outro lado, uma transformação numa parte muito poderosa do sistema pode iniciar um processo até então inexistente e, consequentemente, alterar o sistema amplo como um todo.

Podemos afirmar que: 1) uma atitude é uma organização de experiências e dados referentes a um objeto; uma estrutura  de ordem hierárquica, cujas partes funcionam de acordo com sua posição no todo; 2) uma determinada atitude é uma estrutura semiaberta que funciona como parte de um contexto mais amplo. Ela tem o caráter de um compromisso com a orientação da cultura, sendo parte dependente do sistema mais vasto.

Para muitos, as atitudes deformam as observações, a percepção e o pensamento. Elas funcionam como fontes de enganos, nos tornam sugestionáveis para certas experiências. As crenças, por trás das atitudes, são mais do que uma expressão do conhecimento. As necessidades e os interesses são pontos decisivos na elaboração da crença, e tornam-se responsáveis pelas semelhanças e diferenças entre os grupos.

As atitudes têm objetos, ou seja, formam imagens mentais; seus conteúdos nascem desses objetos, tão direta e inexoravelmente quanto uma emoção específica surge de determinada visão de uma situação.

As oposições ou opiniões diferentes entre os indivíduos resultam das diferenças do conteúdo cognitivo, ou do nível de conhecimento, de um e outro indivíduo. Se um tem apenas um conhecimento parcial dos fatos ele estará enfrentando uma situação diferente do que tem uma visão mais abrangente.

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