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A descoberta das motivações, discursos e condutas inconscientes dos seres humanos originaram os primeiros golpes desferidos na ideia existente do homem como criador de suas ações e raciocínios.

Não se pode mais aceitar a concepção totalmente determinista de que a autonomia, imaginada por nós na programação de nossas ações, seria mera ilusão; como se tudo fosse a realização de um programa antecipadamente fixado. O programa existente não contém todas as respostas previstas anteriormente. Mas, por outro lado, não podemos considerar a consciência e a vontade como manifestações extremas e livres fazendo parte de um princípio vital misterioso, de forças extrafísicas, atuando na matéria.

A auto-organização inconsciente existente em cada organismo humano deve ser considerada como o fenômeno primordial no mecanismo do querer (vontade, desejo), do planejamento ou da intenção direcionada ao futuro. É a associação semiautomática de nossa consciência e vontade que dá origem à consciência voluntária; esta é, suposta e erradamente, imaginada como fonte de nossa determinação; este mecanismo propiciou a ilusão do livre-arbítrio.

Nós sabemos que, na realidade, as coisas que acontecem raramente são as que queremos. Temos, muitas vezes, a impressão de que não fomos nós os executores da ação, muito embora saibamos que nós é que as fizemos: “Foi sem querer”; “Perdão; não queria fazer isso”. 

Acontece o seguinte: o nosso querer faz uso de uma parte de nós mesmos – um atributo chamado de consciência voluntária – ao passo que a totalidade de nosso organismo nos leva – arrasta, empurra, conduz – a fazer outra coisa. A totalidade do organismo não é dirigida por nós; é comandada por outras forças independentes do nosso poder ou querer. Essas forças são orientadas por princípios ou paradigmas inconscientes, trabalhando em conjunto com os fatores biológicos; as duas ações, em parte, nos comandam. 

A totalidade, ou organismo como um todo, como uma força que nos leva a agir orientada para o futuro, de fato, não pode ser conhecida ou conscientizada através de nenhuma técnica. Um motivo para o seu não conhecimento, ou a sua não conscientização, deriva do fato de que ela não é fixa, ao contrário, vai sendo constituída e estruturada à medida que nós agimos. Isso torna impossível o conhecimento da estruturação, pois ela está, continuamente, sendo formada e modificada. A estruturação dessas forças é determinada de um lado pelos milhares de acontecimentos, fora do nosso organismo, que nos atingem num determinado momento sem nosso conhecimento, de outro, pelos eventos automáticos que ocorrem dentro do organismo.

Podemos afirmar que o “querer real”, aquele que se manifesta e se  mostra eficaz, o que de virtual torna-se real ao se realizar, é construído ou nasce de programas impossíveis de serem revelados à nossa consciência. Nós só temos acesso ao produto, ao resultado final, que é a conduta visível e observável. O homem produz ações através dele; o querer amplo – não o específico – é realizado através de todas as células, neurotransmissores, hormônios, glóbulos sanguíneos etc. e, também, a partir dos modelos teóricos, paradigmas, princípios, pensamentos automáticos etc. durantes as continuadas interações do indivíduo com os fenômenos aleatórios do meio ambiente. Quase iguais à abelha, amarrados e obedientes nesses poderosos processos ordenadores automáticos, somos ejetados para o que chamamos de nosso caminho futuro, de nossa liberdade de ação e de decisão.

Nosso futuro é fabricado através da memória armazenada que, durante nosso confronto com o meio ambiente, torna  presente o passado; expõe o estocado recuperado num dado momento; este sempre será uma parte da totalidade de um organismo particular possuidor de uma auto-organização singular. Fica claro que a memória, surgida num momento, em parte, somente em parte, através de nosso querer, é um dos elementos e foi construída, inicialmente, por um organismo que segue seus próprios princípios de organização biológica e de aprendizado, não acatando, nem se importando, com nossos desejos, comandos e valores aprendidos culturalmente. Não adianta  querer estar bem disposto, se o organismo não trabalha para isso. O organismo agindo aleatoriamente criou a nossa memória, que depende de nosso querer específico para se apresentar. Não podem conviver  num mesmo sistema sem interagir o organismo/memória e o nosso querer consciente; essas interações fabricam novos fenômenos:  uma mistura de ações conscientes movidas por vontade próprias mas, também, ações dominadas e orientadas pelos processos inconscientes, automáticos e biológicos.

O resultado é um trabalho conjunto: uma consciência voluntária de um lado e, de outro, fenômenos desvelados, automáticos e inconscientes. Assim, a consciência voluntária e a vontade que emerge na consciência sob a forma do querer, desejos e impulsos devem ser compreendidos como resultados simétricos de interações entre a consciência- memória do passado – e o querer inconsciente auto organizador do futuro.

A consciência voluntária deve ser examinada como sendo resultado de uns  poucos elementos do organismo antes memorizados, que intervêm, secundariamente, nos processos de resposta organizadora às estimulações do meio ambiente, como programas parciais, subprogramas, sem tanta importância. A consciência voluntária, também, nasceu do processo maior que é inconsciente.

A vida do inconsciente não pode ser reduzida a um fenômeno secundário, resultante do recalcamento ou censura de desejos e ilusões por meios conscientes. O querer inconsciente é o conjunto de mecanismos pelos quais nosso organismo inteiro – total e compacto – reage aos estímulos aleatórios, às novidades e aos estímulos eventuais esperados e conhecidos. O querer inconsciente não precisa, na maioria das vezes, para se realizar, aparecer ou desvelar-se – tornar-se consciente e sujeito a exame – e se transformar em desejo. Se tivéssemos uma visualização muito grande dele, como memória dos processos auto organizadores, isso poderia impedir seu aparecimento e bloqueá-lo. Para a sobrevivência do sistema, às vezes, é melhor que ele continue inconsciente. Quando falamos ou escrevemos, se começarmos a examinar, usando nossa memória consciente, exageradamente, como usamos nosso conhecimento ao expormos nossas ideias, elas, geralmente, terão dificuldade para aparecerem. 

O desejo tem como mãe o organismo natural e inconsciente total, como pai a memória explicitada consciente e carregada de regras que podem ser examinadas. Por tudo isso, nosso querer não é da ordem do querer inconsciente “puro”, mas a emergência do querer inconsciente na consciência consciente.

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