Comportamento

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Historicamente, a ênfase para censurar e domesticar o homem foi colocada no elemento destruidor deste. Mas é possível que muita raiva e agressividade do homem derivassem das frustrações impostas pelos processos educacionais.

Em todas as sociedades, as pessoas avaliam e comentam as ações de outras, elogiando-as ou criticando-as. Certas condutas são tidas como obrigatórias; as pessoas são forçadas a alcançá-las. Os que fracassam em possuir tais virtudes são criticados e rejeitados.

A realidade social e nossa atividade na sociedade são guiadas por uma ilusão. Não percebemos uma realidade, apenas vivenciamos um modelo ou estruturação ilusória dela, criada pelo grupo dominante. Entre as ilusões encontra-se a ideia de liberdade que se insere numa forma particular de ideologia. Somos escravos de uma “liberdade” inventada pelo modo de pensar ditado pela ideologia predominante.

Em 1530, Erasmo de Rotterdam escreveu “Da Civilidade em Crianças”, que teve 130 edições com traduções e imitações. O livro trata do comportamento das pessoas em sociedade. É dedicado ao menino nobre e escrito para a educação das crianças. O livro descreve, entre outras coisas, como as pessoas olham e o significado de cada olhar: “O olhar esbugalhado é sinal de estupidez; o fixo, de inércia; o cortante, dos que têm propensão à ira;  vivo e eloquentes, dos impudicos”. Escreve também acerca da postura,  vestuário, expressões faciais etc. : “Não deve haver meleca nas narinas”; “O camponês deve limpar o nariz no boné, o fabricante de salsichas, no braço”.

Antes dos livros de Erasmo, cada um mostrava com naturalidade sua nudez. As pessoas andavam e dormiam nuas; apenas alguns religiosos não o faziam. Nos casamentos, a noiva se despia diante das damas de companhia; a sexualidade era aberta.

A agressividade, como o sexo, era natural e aceita. Muitos homens viviam para a violência; era natural matar e queimar em praça pública homens, gatos e prisioneiros. A agressão era incentivada, bem como as lutas, brigas e torturas; os afetos eram, também, totalmente liberados.

Num desenho de uma estalagem da época de Erasmo, nota-se a presença de 80 a 90 indivíduos. Entre eles encontram-se pessoas comuns reunidas com outras mais bem vestidas, possivelmente ricos e nobres e, também, mulheres e crianças. Muitos suam e enxugam-se; um deles limpa a bota em cima da mesa, outros têm relação sexual.

Pessoas desconhecidas dormiam na mesma cama; a etiqueta e “boa educação” aconselhava “o inferior” a deitar-se primeiro, ficar espichado para não se encostar no “importante”, e levantar-se primeiro sem esbarrar no companheiro.

As necessidades fisiológicas eram “aliviadas” em qualquer lugar: ruas e praças, diante de todos. Erasmo aconselhou ao educado, ao ver o outro defecando na rua, olhar para outro lado, como se estivesse vendo alguma coisa interessante, pois assim não o incomodaria. As pessoas tomavam banhos nos banheiros públicos; para isso, saíam nuas de casa. 

Erasmo não foi o primeiro a descrever os costumes corretos que deviam ser seguidos. Documentos escritos após o séc. XIII, antes dele, descrevem normas tidas como adequadas, ou seja, formas de “cortesia”. O modo usado na corte é que deu origem à maneira “correta” de se comportar na sociedade civilizada: “Um homem requintado não deve fazer barulho de sucção com a colher quando estiver em boa companhia“; “Não deve escarrar em cima da mesa diante dos outros enquanto almoça; apenas  no chão e, após escarrar, deve passar o pé em cima para espalhar o escarro”; “A mão usada para escarrar deve ser a que não esteja ocupada em partir a carne para os visitantes”.

Quanto ao modo de falar, Erasmo prescreve: “Os educados não devem falar “como bem sabe”; “um bocado de vezes”; “acamado”; “defunto”. Devem falar:  “perdão”; “desculpe”; “por favor”;  “meu falecido pai”; “é necessário que façamos isso”. O critério para considerar essas condutas como “boas maneiras” decorre delas serem as usadas pelos membros da elite; o contrário era incorreto por ser a própria dos “inferiores sociais”. Outras regras: “As palavras antiquadas são impróprias para a fala séria. Palavras muito novas podem levar a afetação; as de baixo calão devem ser evitadas, pois os “baixos” as usam”.

Uma vez disseminadas as “boas maneiras”, as pessoas passaram a se sentir envergonhadas ao agirem conforme o “modo errado”. Assim a maneira ensinada e “correta” foi sendo exigida para todos os “bem-educados”. 

Aos poucos, as pessoas começaram não só a agirem conforme as regras, mas, também, exigindo a conduta “certa” dos outros: “Isso não fica bem”; “Faça isso e não aquilo”.

O garfo, surgido no fim da idade média, era usado somente para retirar os alimentos da travessa, não era usado para levar a comida à boca.

A igreja revelou-se, como ocorreu tantas vezes, um dos mais importantes órgãos da difusão de estilos de conduta a serem seguidos pelos “mais baixos”. Para padre La Salle, o modo correto de agir veio de Deus e, por isso, devia ser seguido.

O livro, trazendo centenas de exemplos de “boas maneiras”, nos mostra uma etiqueta um pouco diferente da dos nossos dias. Mas essas instruções ditadas por Erasmo, numa certa época, foram todas consideradas certas e, portanto, exigidas.

Eu e você rimos das regras de etiqueta descritas acima. Erasmo descreveu as maneiras usadas na corte como as corretas; eram os nobres que sabiam e ditavam o modo de agir diante de convidados, nas festas etc. Atualmente, como antes, livros têm sido publicados sobre etiqueta, diferentes dos de Erasmo. Mas o livro de Erasmo era também, naquela época, diferente dos anteriores. Será que os leitores de 2.500 irão rir de nossas regras acerca do comportamento do “homem bem-educado”?

Um comentário para “Comportamento”

  1. Boa noite, Professor.
    Bem colocado e tratado o assunto.
    E trata-se de algo que os populares, massa de manobra, nem se dão de conta que assim é. Chega um momento em que não importa a condição social ou financeira, a pessoa simplesmente age da forma que lhe foi ensinado, sem cogitar atitude diferente e escandalizando-se com a possibilidade de outro agir ou até de um não agir. Quando a sociedade depara com alguém cujos atos não coadunam com o “normal”, tacha-o das mais variadas formas.
    Então nascem os abomináveis, tanto os que nem são notados quanto aqueles que explodem em alguma forma de violência.
    Portanto, cada sociedade tem os psicopatas que merece.
    Na época de Erasmo, parece que o grupo dominante era apenas um ou eram tão poucos que ao seguirem e ditarem as mesmas regras pareciam um.
    Já hoje, são inúmeros os grupos dominantes. E ainda temos grupos, subgrupos e por aí vai.
    Liberdade mesmo só no pensar, se estivermos atentos a todas as possíveis influências.
    Acho que é por isso que as escolas não nos ensinam mais a pensar.
    Até mais.

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