Cenas de Fim de Namoro

Cenas de Fim de NamoroHá cinco anos atrás, durante o casamento de Pedro, primo pri­meiro e amigo de José, ele conheceu Maria.

Durante a cerimônia religiosa José assentou-se nervoso no banco, enquanto esperava o início desta, sem notar que uma moça elegante, morena clara, aparentando ter no máximo 35 anos, estava ao seu lado. Sem saber o que fazer, preso ao banco, ele ora olhava para um lado, ora para outro, fingindo estar procurando alguém. Na verdade estava só, com seus 45 anos, pois havia se separado de sua mulher há pouco mais de seis meses. Num certo momento, ao virar-se para o lado de Maria, esta o olhou nos olhos e começou uma conversa desajeitada:

— Você é irmão de Pedro? Parece-se tanto com ele.

— Não. Respondeu José, quase sem pensar e ainda sem se inte­ressar pela vizinha de banco. Sou primo e muito amigo, muito amigo mesmo. Ele continuou:

— Você é amiga dele?

— Não, sou amiga da noiva, de Carmen. Fomos colegas de escola, estudei Veterinária, quando era mais nova.

Cheguei a terminar o curso.

— Então é veterinária?

— Não. Não exerço a profissão. Trabalho no Banco do Bra­sil, vim para Belo Horizonte há pouco mais de um mês, estava em Varginha.

A conversa começou e continuou até a cerimônia acabar. Ela também era separada, tinha um filho de 13 anos que ora morava com ela, ora com o ex-marido. José, entusiasmado, começou a lhe contar sua vida de casado, sua separação, seus filhos que nunca nas­ceram pois sua ex-mulher desistiu de tentar após ter três abortos.

A partir desse dia os encontros se tornaram frequentes e, a princípio, como sempre acontece, com muito entusiasmo. Os dois tinham conversas animadas, planos diversos para viagens juntas, festas, cinema, jantares e tudo o mais, que foi realizado logo nos primeiros encontros. Financeiramente não havia problemas, ela ganhava razoavelmente, ele, como funcionário da Receita Federal, também tinha, além do salário bom, recebido um pequena soma após a morte do pai que era viúvo. Também não tinha que dar pen­são à ex-mulher, pois esta também era funcionária da mesma seção onde ele ainda trabalhava.

Inicialmente, como sempre, os encontros eram quase diários, alegres e animados. As conversas duravam horas, havia entre eles uma concordância quase total. Tinham a mesma postura política, isso é, contra o governo. Criticavam todas as religiões, apesar de praticarem, sem consciência, os preceitos delas todas, pois ambos tinham postura social e ética rígida e de acordo com os preceitos da maioria ou de todas as religiões. Os dois tiveram uma educação semelhante, pertenciam à mesma classe média, eram livres para pensar e criticar tudo, sem grandes emoções e devoção aos ideais defendidos, ou estavam talvez aprisionados à mesma ideologia po­lítica de não seguir nada.

Por tudo isso, no começo tudo era encantamento. Não havia imposições, não havia ciúmes de nenhuma parte, nada precisava ser negociado, pois tudo era aceito como uma escolha de cada um, na maior parte das vezes até havia uma concordância de valores.

Mas o tempo foi passando e estragando, como sempre, a maioria das concordâncias. Pouco a pouco, tudo foi sendo destru­ído. Primeiro foi o desinteresse, e talvez a irritação de Pedro, pelas conversas de Maria acerca de como o filho dela crescia e ela acha­va uma beleza. Muito bem educado, conquistaria inúmeras garotas inteligentes e bonitas. Por outro lado, José notava que o rapazinho não era muito dado a conquistas amorosas femininas, era mais para gay e sua mãe fingia que não via ou não notava.

Por outro lado, José notou que Maria jamais gastava um ní­quel com as despesas que os dois faziam. Ela sempre esquecia o talão de cheques, fazia de conta que estava distraída ou mesmo pedia para que ele pagasse, pois, com mais calma, ela lhe paga­ria depois e ele não via nunca a cor do dinheiro. Em seguida ele começou a achar Maria suja e desleixada, porca mesmo, pois não só custava a tomar banho, como vestia a mesma blusa, suja e fe­dorenta, por várias vezes. Para encobrir o mau cheiro, usava um perfume que provocava espirros em Pedro, e que, naturalmente devido ao cheiro forte, ofuscava o mau odor que exalava de seu corpo sem banho.

Aos poucos, José ia descobrindo outros aspectos negativos em Maria. Notou que ela jamais tomava iniciativa em qualquer coi­sa como para uma saída, decidir a hora de ir se deitar, de levantar-se da mesa para preparar a refeição, lavar uma vasilha ou qualquer outra coisa. Era sempre ele que tomava a iniciativa, enquanto ela permanecia assentada e conversando calmamente. Tudo que de­veria ou precisava ser feito partia dele, até trocar de canal quando os dois estavam vendo TV.

José foi perdendo as ilusões iniciais diante da realidade dos fatos concretos e não de suas expectativas, frutos de seus desejos idealizados.

Depois de esperá-la por vários minutos na cozinha, onde iam preparar o almoço, foi até o quarto onde ela dormia.

Como de costume, lá estava ela, deitada na cama, às 4 horas da tarde, com sua revista preferida na mão. Tinha se levantado às 11 horas e ainda não havia trocado a camisola. No quarto, havia diversas calcinhas, sutiãs, meias, blusas e saias, espalhadas em cima da cama e no chão do quarto onde havia dormido.

Maria engordava a cada dia. As discussões, antes ausentes, começaram e foram aumentando.

— Você viu as horas? Já são quatro horas. Você podia fazer o arroz, enquanto faço a omelete e frito uns bifes.

— Certo, vou lavar o arroz.

— Não! Esse arroz não precisar ser lavado.

— Você acha que não sei fazer arroz?

— Claro que não sabe. Nem café. Pelo menos até hoje você nunca fez nenhum.

— Você nunca me pediu..

— Precisava pedir! Ora! Não é assim que se faz arroz. Deixe! Eu mesmo faço! Não precisa sujar tanta vasilha para fazer uma coi­sa tão simples e fácil.

— Eu lavo depois…

— Lava? Lava nada! Deixa tudo para mim! Fica assentada, conversando, se deixar fica a tarde toda. Só se levanta depois que percebe que eu já lavei e guardei tudo. É sempre assim.

— Oh! Estou cheia. Chega, faça tudo então…

A situação aumentou a gravidade, prestes a estourar, quando Maria, talvez percebendo a teia, antes firmemente formada, mas agora começando a se romper, decidiu se mudar de cidade e, após algumas tentativas, conseguiu uma transferência para Juiz de Fora. Com isso, ambos ficaram menos tensos e imaginaram poder reati­var o amor que começava a se deteriorar.

Mas o afastamento pouco adiantou, pois não conseguiu con­sertar o que estava apodrecendo aos poucos. Novos problemas: agora ciúmes, mais brigas, pirraças, cada um provocando o outro exatamente nos seus pontos fracos. O que era detestado, e que ambos se vangloriavam de não possuir, agora fazia parte de suas relações: discussões ridículas, continuadas, por nada, emergiram.

— Gosto muito de futebol, principalmente na TV.

— Detesto, como pode? Idiotas ficarem disputando quem manda uma bola para o “fundo das redes”? Jamais pensei de você fosse gostar de futebol. Sempre te julguei um homem inteligente…

— Visto dessa maneira, talvez você tenha razão. Mas há ma­neiras menos idiotas de se ver um esporte, há outros modos menos simples e tolos de examinar um jogo qualquer, como o de futebol, diferente do seu modo de enxergá-lo.

— Para os homens talvez. Nós, mulheres, não gostamos. Vocês, do sexo forte e inteligentes, sim.

— Muitas gostam, que diferença faz?

— Ora, as mulheres sempre tiveram mais senso crítico, foram mais minuciosas do que homens. Não vê nos botecos, um mundo de marmanjos bebendo e conversando os mesmos assuntos, sem­pre repetindo: conquistas amorosas e futebol.

— Você hoje não está bem, aliás está sempre reclamando de tudo. Devia se tratar.

— Eu? Estou ótima, você é que está ruim. Anda irritado por nada. Você se acha o máximo, suas ideias são sempre as certas, tudo que você fala é dogma.

— É… – desanimado. Não tem mesmo jeito. Tá tudo perdido.

As brigas e separações começaram a se tornar mais frequen­tes, os telefonemas que eram quase diários, diminuíram. Pouco a pouco foi aumentando a invenção de desculpas para escapar de um ou outro encontro, quer nos fins de semana, quer nos feriados prolongados. Todo e qualquer assunto foi, aos poucos, servindo como um grave motivo de discórdia.

Até que certo dia:

— Está tudo acabado! Não dá mais. Não te aguento!

— Mas, por quê? Não fiz nada!

— Não fez? Como? Não vê que, sem parar, você age de modo indiferente ao que gosto e quero?

— Mas faço tudo para te agradar.

— Então você é uma idiota, pois nunca notou que me desagrada.

— Desagrado, porque você não gosta de nada. Quanto mais te agrado, mais você me agride.

— Você me agride com seus agrados. Eles, por si só, são agressões. Se eu faço uma coisa que não te agrada, mas uso o nome “agradar”, isso não muda o fato ruim.

— Imaginei ser o que faço, o que você queria que eu fizesse.

— Por mais que eu tivesse falado, te criticando? Parece que o que foi dito, você não ouviu, ou não entendeu. Acho mesmo que você é incapaz de perceber os desejos e valores do outro.

— Mas eu sempre te amei. E muito.

— Como? Imagine se não me amasse. Se eu amo alguém, o fator inicial para isso é entender quem é a pessoa que eu amo, para, só assim, ajudá-la, ou facilitar o que ela deseja alcançar.

— É o que eu faço. Estou sempre preocupada com você, que­rendo ajudá-lo.

— Oh… eu quero ficar sozinho e ler, você se aproxima e per­gunta: “Benzinho, está calado hoje. Está triste?

— Mas eu penso que, se uma pessoa está numa casa com a outra, elas deviam estar juntas.

— Se possível, abraçadas, o dia inteiro?

— Não precisa de tanto. Mas juntas, conversando.

— Não devíamos então dormir, pois nessa hora estamos sós. Nem ir ao banheiro, a não ser acompanhados do nosso grande amor.

— Não precisa ir tão longe. Você sabe que não estou falando isso.

— Você não admite eu fazer sozinho uma coisa que gosto, como assistir a um jogo de futebol ou ler um jornal, o que você detesta.

— Eu gosto também, não tanto como você.

— Então, por que fica fazendo perguntas o tempo todo: “O repórter hoje veio com uma roupa mais bonita”, ou “aquele joga­dor tem uma perna forte, mais que aquele outro”.

— Mas fica chato assistir sem falar nada.

— Mas será possível que eu não posso gostar de assistir sem fazer comentários?

— É muito esquisito isso. Pelo menos para mim.

— Mas para mim esquisito é não aceitar um modo de vida do outro, não cooperar com ele, ou, no mínimo, deixar que a outra pessoa faça alguma coisa que ela goste.

— Mas nunca fui contra nada que você faz. Nunca fui contra você ser dentista, ter um consultório na Savassi.

— Mas é contra eu trabalhar sábado pela manhã, ficar até mais tarde um dia ou outro, atender um telefonema de um cliente mais necessitado ou até mais chato.

— Mas, nesses casos, eu estou tentando te ajudar a viver melhor.

— Ora, você não entende mesmo! Não entende que eu gosto de viver dessa maneira!

— Mas esta é uma maneira errada. Eu faço tudo isso por amor a você.

— Amor, para mim, é ajudar a pessoa a fazer o que faz para ela viver bem. Se você vai contra o que quero, você está me abor­recendo, me impedindo de atingir o que desejo.

— Que absurdo! Tudo voltado para o seu bem. Para mim isso é um ato egoísta seu, não voltado para mim, mas para você próprio.

O último encontro

— Na minha opinião, a comida feita na panela de ferro ou de alumínio, na panela comum ou na de pedra, tem o mesmo gosto. Se fizermos um teste, sem que a pessoa saiba onde foi preparada a iguaria, ninguém acertaria.

— De modo algum. O arroz, feijão, qualquer comida na panela de pedra é mais saborosa. Você não entende disso.

— Ora, entendo sim! Eu comi a vida inteira, desde que nasci. Além disso, não sou tão novo assim.

— Isso não basta. Pode comer a vida toda e não entender nada acerca de iguarias boas e más. Deve ser seu caso.

— Para que uma comida mais saborosa? Para comer mais? Você já está gorda, gorda demais. Está querendo engordar mais ainda, caso sua hipótese seja a certa, isto é, a comida da panela de pedra é mais saborosa. Se sua suposição é correta, você irá comer mais e, naturalmente, engordar mais ainda do que está.

— Isso é problema meu! Gosto, gosto muito de comer. Sim! Ninguém tem nada a ver com isso!

— Pensei que estivesse preocupada com o corpo, com o ex­cesso de banha pelo corpo afora.

— Já fui magrinha e graciosa, hoje sou gorda. As roupas de que gosto não me servem mais, meu corpo não entra nelas.

— E tem saudades desse corpo. Deve ter sido mais bonito.

— Você mesmo o conheceu. Muitos homens, não só você não, gostaram do meu corpo.

— Mas sempre foi meio gordinha…

— Nem um pouco, agora sim. Gosto de comer. Fique ciente: quando arrumar um homem pelo qual eu passe a me interessar, poderei fazer um regime, até uma plástica, e tentar voltar ao peso antigo.

— Isso não será fácil.

— O quê? Fazer um regime e plástica?

— Não! Arrumar um homem que possa se interessar por você.

— Eu sei que meu corpo jamais será o que foi, tenho que gos­tar muito dele como é. O seu também não está essas coisas, não. Macaco, olha teu rabo.

Nesse momento, a moça de bordo avisou Maria que o ônibus estava saindo para o aeroporto..

Os dois, ex-namorados, brigavam entediados, sem mais ne­nhuma ligação afetiva boa entre eles. A ligação agora era de brigas, cumprir, ali, naquele momento, a cena final de um romance. O momento enfadonho e descolorido. Chegara o momento da des­pedida. José respirou fundo, a fala final e esperada para ele emitir estava próxima.

Não havia mais interesse dela, tudo parecia ter se acabado. Para terminar a conversa, ele comentou, derrotado:

— Você tem razão, já disse para muitos gordos: comam, co­mam mais, se você gosta é de comer, para quê fazer regime? Cada qual busca seus prazeres singulares, aquilo que mais lhe interessa. Se isso é prazeroso, por que não fazer?

— Como mesmo, até o dia que encontrar alguém que me faça mudar de opinião, alguém por quem de fato eu me interesse!

— Vamos entrar, tornou a falar a moça loira do ônibus.

— Boa viagem, falou sem grande entusiasmo José.

— Obrigada, até outro dia

— Adeus…

Maria entrou no ônibus pisando duro com seus noventa qui­los, José caminhou para o outro lado. Os dois sabiam que aquele seria o último encontro.

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