Ângela

Até hoje fico sem saber se o fato aconteceu, ou se foi um sonho. Eu tinha dezoito anos naquela época. Quando relato essa história para meus amigos, alguns acham que ela foi inventada, ou­tros pensam que foi um sonho desses que a gente fica em dúvida se ocorreu ou não, e outros, mais crédulos, pensam que a pessoa que apareceu para mim, e que denominei de Ângela, não passa de um ser de outra galáxia. De minha parte penso que um anjo apareceu para mim e tanto é assim que não podia ser um ser comum. Foi o encontro mais emocionante que tive em toda minha vida e que jamais esquecerei.

Eu era uma pessoa sem rumo, mais ainda do que agora. O dinheiro era muito pouco. O que eu ganhava na época permitia-me economizar um pouquinho, com grande esforço, para patroci­nar minhas viagens e meus casos amorosos. Eu viajava muito, não grandes viagens, mas idas a diversas cidades do interior de Minas. Visitava pequenas cidades em que, sem saber bem por quê, deci­dia permanecer. Alojava-me como podia. Dormia em pensões de terceira categoria ou na casa de algum conhecido do momento. Muitas vezes dormia até mesmo em paióis, engenhos ou pequenos casebres abandonados sem moradores, onde tinha por companhei­ros escorpiões e sapos.

Alimentava-me com qualquer coisa: frutas da época, quase sempre de graça, leite, ovos a preço de banana e, às vezes, um prato feito. Não fumava, mas bebia ocasionalmente. Poucas vezes tomei um porre violento pra valer.

Na noite em que Ângela apareceu, eu havia bebido muito, mas mesmo assim acho que estava lúcido.

Havia três dias que chegara a Cidadela, uma cidadezinha do nordeste de Minas, lugar semelhante a todas as outras pequenas cidades do país, com seu grupo escolar, igreja, cemitério e mui­tos botecos, onde se vendia cachaça de pior qualidade, linguiça e queijo. Eu havia visitado anteriormente essa cidade, há dois anos, quando me apaixonei violentamente e ali namorei Ângela. Isto não era novidade, pois sempre me apaixonava pelas minhas na­moradas.

Ela era uma menina de quinze anos de idade, linda como deve ser um anjo celestial. Morava com sua mãe, uma beata que limpava a igreja diariamente para alegrar o padre da cidade. Di­ziam que Ângela era filha natural de um padre, descendente de italianos, jovem e bonito, que lá permaneceu por pouco tempo, tendo abandonado a cidade logo após o seu nascimento. Eu, que sempre fui discreto, nada perguntei a Ângela acerca desse fato. Ela era magra, sofrendo de reumatismo infeccioso agudo e tinha, de tempos em tempos, todo o seu corpo inchado, o que a tornava ainda mais bela e mais lisa.

Na verdade havia decidido parar em Cidadela para vê-la, pois era ela a única coisa que me atraía naquela cidade insossa. Soube, com tristeza e até com sentimento de culpa, que ela havia mor­rido. No nosso último encontro havia prometido, como sempre fazia, mesmo sabendo que provavelmente não iria cumprir, que me casaria com ela. Ela morreu de parada cardíaca devido ao reu­matismo. Soube que Ângela sofreu muito antes de falecer, devido à falta de ar e barriga d’água. Nos últimos dias, ela não mais con­seguia alimentar-se ou dormir. Contaram-me que sempre falava a meu respeito e tinha esperança do meu retorno, para casar-me com ela, como eu havia jurado.

Nosso namoro foi curto, no máximo uma semana, pois nun­ca tolerei ficar muito tempo num só lugar e com uma mesma pes­soa. Cansava-me rápido.

Em todos os lugares que passava, infalivelmente, namorava alguém do lugarejo, quase sempre a moça mais bonita do lugar, não em virtude de meus dotes físicos, mas sim devido a uma perso­nalidade que confundia as pessoas. Apresentando uma mistura de timidez e audácia, medo e coragem e, ao mesmo tempo, fortaleza e destemor, as moças sentiam também por mim dó e proteção. As­sim é que elas decidiam proteger-me e também conquistar-me para suas posses devido à minha fraqueza, mas também se sentiam pro­tegidas pela repentina coragem e espírito aventureiro que emer­gia, sem mais nem menos. Desse modo as moças eram ao mesmo tempo mães de um desvalido e filhas de um pai duro, que sabia o que queria.

Após as aventuras, conversas, passeios, abraços e beijos, en­tediado, sentia-me como que afogado. Nesses momentos tinha que partir para procurar outra. Com a nova namorada, repetia-se o que parecia estar gravado em minha alma. Não dava mais notícias após a partida, apesar de que sempre pensava seriamente em escrever. Naquela época eram poucas as cidades que possuíam telefones, mas estes eram caros e difíceis de ouvir o que se falava.

Naquela noite eu bebi um pouco mais do que o costume. Pensava muito na morte de Ângela. Deitei-me, decidido a sair da cidade e percorrer um pouco mais o nordeste, indo até Ipatinga, pois ainda me sobrava alguma grana. Deitei-me na cama barulhenta, na velha pensão ao lado de onde parava a jardineira, que trazia os viajantes. Não havia rodoviária, pois o único veículo que conduzia passageiros era uma jardineira como dezesseis lugares apertados que, dia sim, dia não, saía da cidade com destino a Belo Horizonte.

Eram mais de dez horas e a cidade já dormia há muito tempo. Nessa ocasião o único divertimento da noite era assistir, na rádio Nacional, a novela “Ciúme”, que terminava às nove horas da noite. A personagem principal era Nicota, que impedia sua sobrinha de casar-se com o galã. Depois da novela, apenas os bêbados contu­mazes da cidade contavam, em voz alta, suas compridas e repetidas histórias de sempre.

O calor era imenso, terrível mesmo. Para refrescar-me, deixei a janela aberta, por onde penetrava a claridade da lua cheia. Para desfrutar da lua e do pouco ar fresco que entrava, tinha que su­portar os pernilongos que me atacavam impiedosamente, fazendo uma serenata de uma nota só. No boteco do lado da pensão, um rá­dio tocava o Raio de Sol, antiga música que era a preferida de meu pai, uma música que eu não ouvia há tempos. O som péssimo e rouco, ora era escutado com mais clareza, ora sumia totalmente, o que me irritava, pois impedia-me de ir seguindo, em minha mente, os sons da melodia.

Já estava sonolento, tonto e mesmo em transe hipnótico devi­do à mistura do álcool, música e do calor, agora insuportável. Des­pertei um pouco mais, ao ouvir um leve e delicado bater na porta e o som inesquecível de uma doce voz angelical.

— Sou eu, trouxe sua água.

Geralmente evito beber água à noite, para não ter que levan­tar-me para urinar. Estranhei o ocorrido, apesar de curioso para sa­ber de quem era aquela voz deliciosamente rouca e sensual e senti sede. Apesar disso, cumpri minhas determinações internas e, sem abrir a porta, respondi, com uma voz fingindo aborrecimento, que não havia pedido água, apesar de estar com sede e com curiosida­de pela dona da voz.

Do outro lado da porta, ouviu-se a mesma voz, indiferente às minhas ponderações.

— Sou eu, trouxe sua água.

Senti uma mistura de raiva e curiosidade. Levantei-me. Puxei com força a velha tramela que segurava a porta, a qual saiu de minha mão e caiu no chão. Deslumbrado, vi-me diante da mais bela imagem de toda minha vida. Estava ali parado, diante de mim, um anjo sem asas, mas estranhamente belo, de feições femininas. Não fazia barulho ao andar. Tronco erguido, seu corpo roçando no meu, atravessou o pequeno quarto sob o clarão da lua. Pude distin­guir seu olhar penetrante e sereno, seus cabelos claros e lisos com pequenas ondulações, seu vestido leve, branco e transparente, que permitia visualizar com clareza seu belo e magnífico corpo de uma adolescente de aproximadamente dezoito anos. Seus traços lem­bravam-me muito os de Ângela, apesar de aparentar ser um pouco mais corpulenta e mais amadurecida.

Permaneci extasiado, imóvel e confuso como nunca aconte­cera. Estava sonhando? Meus olhos estavam inteiramente abertos e eu não havia bebido exageradamente. Quando a figura, rodeando-me, se aproximou sem que eu nada fizesse ou falasse, deitou-me na velha e suja cama da pensão. Em seguida, gentilmente, ela deitou-se ao meu lado, abraçando-me com seus braços compridos, delica­dos e macios.

Até hoje não me lembro se ela trouxe, ou não, a água. Hip­notizado por sua silhueta, nada mais percebi. Nada conversamos, mas garanto que ouvia sua respiração e o seu, ou, quem sabe, o meu coração bater. Não fizemos barulho. Deitada ao meu lado, pude perceber sua face sorridente, sem mudança na expressão. Era um sorriso único, tranquilo. Paralisado, usufruía esse magní­fico contato, mas ao mesmo tempo sentia medo do que ocorria. Minha terrível cabeça com frequência processava o que se passava, impedindo-me de gozar os fatos do momento.

Permaneci inerte por longo tempo, talvez por toda a noite, sentido seu perfume leve, seu hálito morno que contrastava com o mau cheiro do quarto. Parte de seu cabelo longo e sedoso cobria seu belo rosto. O contato era esplêndido. Isto me permitiu, pou­co a pouco, eliminar as preocupações do dia-a-dia, como a falta de dinheiro, o medo, meus sentimentos de culpa e até mesmo os pernilongos, que não foram mais percebidos. Sentia suas mãos e parte de seu corpo colado ao meu, transmitindo-me uma sensação incrível, rara e inacreditável.

O véu que cobria seu corpo foi vagarosamente retirado e jo­gado ao chão. A claridade da lua permitia-me ver seu corpo nunca antes visto, onde cada pelo tocava-me e acariciava-me. Suas mãos sedosas e quentes deslizaram sobre meu corpo inerte, dos pés à ca­beça, tocando-me de leve. Não senti o peso do seu corpo.

Ali ficamos, deitados por algum tempo, não sei quanto, nós dois respirando o mesmo ar. Sentia o meu ser fundido no dela, for­mando uma só unidade, conduzindo-me ao Nirvana. Era só prazer.

Havia um profundo silêncio no ar. A lua continuava seu tra­jeto pelo chão do quarto indiferente à nossa “morte passageira”. Penso que assim adormeci.

No dia seguinte acordei tarde, suando muito, confuso com o que acontecera na véspera. Preparei-me para deixar a pensão. Fiz rapidamente minha mochila e sentia-me absolutamente só. Não vi nenhum vestígio de vivalma.

Assustei-me quando, ao sair, percebi em cima de um velho caixote improvisado de criado mudo, ao lado da cama, uma garrafa cheia de água morna. Despejei um pouco da água de mau gosto pelo gargalo da garrafa, mitigando minha sede de ressaca da noite anterior. Foi minha noite de prazer. Lembrei-me de Ângela e tive saudades.

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