Amanhecer sem Futuro: Fortunato e Felicidade vão às Compras

Fortunato e Felicidade, casados e sem filhos, ele gerente de supermercado, ela, caixa de banco, como seus amigos, jamais per­deram uma liquidação como aquela marcada para acontecer no fim de semana. Os devotos fiéis, adoradores de mercadorias desne­cessárias e descartáveis, encurvados, avidamente procuraram nos encartes dos jornais se inteirar do local e horário da sensacional liquidação, onde seriam vendidas as novas e as velhas bugigangas indispensáveis para habitarem nossas casas.

Às nove horas da noite de sábado, o casal saiu de casa e tomou o ônibus em direção à loja onde ia ser realizada a grande liquidação. Centenas – ou milhares de pessoas – companheiros de Fortunato e Felicidade, submissos e obedientes, fazendo parte desse imenso exército bem treinado de compradores fanáticos e compulsivos, esperavam, preocupados, ocupar os primeiros lugares da fila, pois assim teriam maiores chances de alcançar, antes dos outros, os ob­jetos disputados.

Depois da longa viagem de ônibus, o casal chegou à porta da loja ainda fechada, onde se descortinava uma enorme fila. Os sortu­dos que ocupavam os primeiros lugares sorriam satisfeitos perante os invejosos concorrentes, um tanto desanimados com a diminui­ção das oportunidades.

Dois a três minutos de atraso poderia ser fatal, tempo necessá­rio para que as mais cobiçadas ofertas, num piscar de olhos, desapa­recessem das prateleiras. A porta seria aberta às 6 horas da manhã de domingo. A publicidade bela e colorida anunciou, por diversos dias, as ofertas que seriam vendidas a “preços nunca vistos”.

Na madrugada escura e fria, uma chuvinha miúda caía sem se importar com a multidão solitária formada em torno do prédio. Tensos, silenciosos, cada um por si, todos esperavam a sirene dar a partida: os compradores imaginavam as fantásticas compras. De mãos dadas, do lado de dentro da loja, vendedores rezavam pedin­do a Deus para que tudo acabasse o mais rápido possível, pois a tempestade dos desesperados estava perto de desabar a qualquer momento.

A hora ia se aproximando: 5:00 horas, 5:30 horas. Todos, a postos e em pé, começam a se preparar para a ação. Às 5:45 horas, os concorrentes/compradores começam a tirar suas roupas, em se­guida entregam suas vestimentas e pertences aos funcionários/po­liciais da empresa ou aos parentes e amigos acompanhantes, pois, como foi anunciado, todos fariam suas compras despidos. Os ami­gos, caso tivessem, tomariam conta das roupas e, posteriormente, serviriam de guardas para as compras efetuadas.

5:48 horas. Centenas de compradores nus, debaixo da chuva, começam a esquentar as pernas e as mãos na esperança de conse­guirem agarrar mais objetos no menor tempo possível.

6:00 horas. Finalmente a hora chega: o relógio da matriz, hoje pouco frequentada, bate demoradamente às 6 horas desse domin­go triste. Toca a sirene estridente, carregada de energia potencial, que liberará, em seguida, nos corpos ainda frios, uma imensa quan­tidade de energia cinética e calórica.

É dada a partida! Começa a competição desenfreada: homens e mulheres nus expõem, uns para os outros, suas marcas corporais até então bem escondidas. Hoje tudo será exposto à visitação do grande público: gorduras caídas, seios e bundas murchas, cicatri­zes, tatuagens, manchas escuras, vermelhas e purulentas, espinhas, verrugas, rachas e pintos murchos, tristes e desnecessários e sem fun­ção no momento, pêlos escuros, lisos e eriçados, louros, pretos, pin­tados, descoloridos e brancos, em profusão. Tudo irreconhecível.

Como cavalos e éguas livres dos cabrestos, rinchando, ho­mens e mulheres ofegantes movem-se em disparada em direção ao cocho onde estão expostos os alimentos cobiçados. Mantendo os olhos fixos e esbugalhados, as mãos duras e esticadas em dire­ção às prateleiras, cada comprador saboreia, virtualmente, antes de agarrá-la, a mercadoria sedutora à mostra.

Na arena da imensa loja, aterrorizados e enfurecidos, imagi­nando não conseguir alcançar a ração sonhada, animais aflitos dis­putam a carne ainda possível de ser abocanhada. Trava-se uma luta feroz. Corpos tensos e agitados correm velozmente de um lado a outro, avançam, recuam, caem, trombam e esfregam-se uns contra os outros, deixando um rastro de suas sobras. Um odor fétido e asfixiante se desprende de suas peles cobertas de suor. De suas bo­cas semiabertas escorrem salivas grossas e espumosas sem tempo de serem engolidas. De suas bexigas, contraídas pelo desespero, pingam gotas de urina exalando seu cheiro peculiar. De seus ânus relaxados pela incomensurável apreensão, escorrem fezes semilí­quidas e nojentas.

Entretanto, lá dentro, naquele momento, nesse campo de luta pela sobrevivência, sem asco e sem atração, bumbuns desco­nhecidos, soltos, moles, que não seduzem e nem agridem, encos­tam-se e afastam-se indiferentes, presos aos seus donos na busca pela sonhada e sedutora tigela amarela, da espreguiçadeira para ver a vida rolar, ou da garrafa térmica colorida agarrada pelo sor­tudo mais rápido.

Fortunato uiva ao segurar com suas mãos vigorosas um fer­ro em bom estado. Felicidade berra hilariante diante da posse da panela, que sobrou na prateleira quase vazia. Prendendo a relíquia junto ao corpo, ela corre, triunfante, para mostrá-la ao marido. Um homem magro, de peito escavado, avança sobre Felicidade e puxa a panela presa entre os seios.

Os dois rolam pelo chão lutando pela posse do troféu. For­tunato, alertado pelos gemidos conhecidos, ao tentar salvar a pa­nela de Felicidade, abandona, por instantes, seu precioso ferro, correndo em auxílio à mulher. Eufórico e agitado ao reconquistar a panela perdida, ele larga Felicidade ferida no chão. O ferro de Fortunato, solto de suas mãos, foi seguro rapidamente por uma mulher sardenta e magra, que foge correndo com ele escondido entre as coxas gordas e brancas. Fortunato avança como louco so­bre a mulher que abocanhara seu ferro, derrubando-a e ferindo-a no nariz. Levanta-se abraçando o ferro em uma das mãos e a panela na outra, segurando-os contra o peito nu. Tenta, esquecendo que não está vestido, escondê-los das outras feras predadoras que dese­jam apoderar-se do seu alimento. Felicidade consegue, após alguns segundos, levantar-se. De sua boca ferida escorre um sangue ralo, misturado à saliva que é cuspida no chão imundo. Ela olha com pe­sar para as prateleiras quase vazias. As mercadorias mágicas estão chegando ao fim.

Empurrados de todos os lados, alguns caem e uivam, não por terem sido jogados ao chão, mas sim porque a queda atrasou em alguns segundos a ida ao alvo sonhado. Pisoteados, blasfemando, Felicidade e Fortunato olham desolados para o sonhado conjunto de pratos fundos avermelhados quando esse é pego por um homem alto de ombros largos, bem em frente dos olhos espantados do ca­sal, conjunto esse no qual almoçariam junto à família no domingo de páscoa.

Fortunato soluça, seus olhos, encobertos pelos óculos verme­lhos que pegara num cesto quase vazio, lacrimejam. Um inimigo en­furecido abraça Fortunato por trás, dando-lhe uma “gravata”, numa tentativa de apoderar-se do seu ferro. Jogado ao chão, e depois pi­soteado, Fortunato vê seus óculos vermelhos se espatifarem, óculos que iriam substituir sua visão do mundo no próximo verão.

O estoque chega ao fim. Termina a liquidação. Agora só resta entrar na fila para procurar os guardas que tomaram conta das rou­pas, dos cartões de crédito e de cheques para fazer o pagamento.

As filas começam a se formar. Termina a festa com os uivos de alguns que ainda rolam no chão agarrados a restos de papelões rasgados, manchados de urina, fezes e sangue, mesas, cadeiras e peças quebradas, copos, xícaras, tigelas, rádios, fios de cabelos e cabeleiras pisoteadas.

Entretanto, apesar de tudo, a multidão sai da loja esperanço­sa, alegre e animada. Segundo os anúncios estampados com letras enormes nas paredes, no próximo ano haverá outra liquidação, maior ainda do que a agora terminada e, na entressafra, a massa atenta detectará e consumirá rapidamente todo e qualquer novo produto lançado. Alguns, na fila, comentam eufóricos os novos medicamentos lançados, imaginando usá-los logo, antes que desa­pareçam do mercado ao mostrar sua ineficácia. Uma vez vestidos, cantarolando, segurando com firmeza o ferro e a panela, Fortunato e Felicidade, unidos, caminham felizes sob a chuva miúda, satisfei­tos pelo dever cumprido.

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