A Vingança de Otávio Parpante

Otávio Parpante, como era comumente chamado, era um le­nhador muito forte, que articulava umas poucas palavras e quase não escutava, a não ser quando gritavam no seu ouvido. O apelido “Parpante” foi criado para descrever seu modo de andar, que dava a impressão de que ele parecia estar apalpando tudo por onde an­dava, com seus pés abertos para os lados.

Poucos meses após ter sido dispensado de seus serviços na fazenda do Sô Quincas, onde cortava árvores para fazer carvão, ele, através de seu ex-patrão, conseguiu um lugar para dormir e ao mesmo tempo trabalhar, na casa de D. Amélia.

D. Amélia morava numa bela casa na rua Direita da cidade, logo acima da igreja, de modo que, muitas vezes sem sair de sua casa, ela podia ouvir muito bem os sermões do padre Leão. Havia, atrás da casa de D. Amélia, um enorme terreno onde foram plan­tados pés de mangas, jabuticabas, goiabas, banana e outras frutas. Mais para o fundo do terreno, mais perto do rio que passava pela cidade, D. Amélia criava porcos e galinhas para o gasto da família.

Seu marido havia morrido há alguns anos, seus cinco filhos, já casados, moravam todos em volta da casa da matriarca que era visitada, a todo instante, por eles e pelos netos, para contar uma coisa ou outra, pedir um conselho, ou talvez para aproximar-se dela e, assim, sentirem segurança, uma proteção que só ela sabia dar às pessoas. Como o ser­viço das ajudantes, cozinheira e arrumadeira, estava grande demais, ela contratou Otávio Parpante para ajudá-las, principalmente quanto à limpeza do terreiro e o cuidado com as galinhas e porcos.

Otávio Parpante fazia tudo de modo obsessivo. Não tolerava uma enxada colocada no lugar “errado”, isso é, fora do lugar de­terminado por ele ou por sua patroa, uma mulher forte que sabia o que queria e quase nunca voltava atrás em suas decisões. Otávio Parpante, tendo sua lógica própria, exigia que o lugar de guardar o milho deveria ser antes do lugar de guardar o fubá, pois este último é feito pelo primeiro. As enxadas deveriam ser penduradas numa espécie de cabide com a lâmina colocada para cima e todas elas dependuradas sem que os cabos delas encostassem no chão. Se alguém tirasse um dos objetos guardados por ele, e os pusesse fora do lugar determinado pela sua ordem obsessiva, ele não só se desesperava, como também ameaçava a pessoa de agredi-la, ou mesmo matá-la. Apesar de sua enorme força física, e por isso mes­mo temido por todos quanto a esse aspecto, ele jamais dera o me­nor problema para D. Amélia com respeito a esse comportamento. Suas agressões eram sempre uma cara fechada e resmungos conti­nuados, uma conduta que, às vezes, durava um dia ou mais.

Parpante dormia num cômodo, junto ao galinheiro e chiquei­ro, onde eram guardados os mantimentos necessários – milho, fubá, etc., – que serviam de alimento para as galinhas e os porcos. Junto ao cômodo onde ele dormia, havia uma bica por onde corria uma água cristalina transportada através de um pequeno rego, que co­meçava na nascente existente no próprio terreiro da casa. No cô­modo que ocupava não havia banheiro, entretanto, como o terreno terminava num rio que passava nos fundos dele, D. Amélia mandou construir um pequeno cômodo, cujo piso era furado de modo cir­cular, permitindo, assim, fazer as necessidades nesse lugar, as quais iriam cair na água do rio que passava abaixo. Esse estreito banheiro havia sido construído quando ela fez uma reforma na sua casa e era para ser usado pelos operários que ali trabalhavam, pois nenhum deles jamais tinha acesso às privadas usadas pelos patrões.

Mas Parpante não gostava desse banheiro, ele se sentia mal, ao olhar, pisando no piso, as águas passando e em movimento con­tinuado lá em baixo.

Assim, em vez de usar o banheiro improvisado mandado cons­truir por D. Amélia em cima do rio, Otávio Parpante preferia fazer suas necessidades no próprio terreiro, isto é, dentro da pocilga ou do galinheiro, de modo tal que, logo depois, os seus dejetos eram prontamente ingeridos pelos porcos ou pelas galinhas, diminuindo o gasto que teria com milho e outras substâncias nutritivas.

Parpante trabalhou com D. Amélia alguns meses sem dar o menor problema: não amolava ninguém, fazia seu serviço como ordenado pela patroa, que tolerava bem suas regras fixas e rígi­das. Quase sem falar, levantava-se muito cedo e trabalhava até o sol se pôr.

Todas as tardes, invariavelmente, ao terminar seu trabalho, calado e sem fazer o menor ruído, ele se assentava numa pequena pedra que foi ali deixada durante a construção e ficava esperando o jantar. Maria, a cozinheira, sabia quando ele devia estar esperando e, também, do que ele gostava mais – canjiquinha, angu, quiabo, mandioca, costelinha e couve – preparava seu prato e o levava. Ele comia com as mãos, não usava talheres, por mais que sua patroa tentasse ensiná-lo a usá-los. Após jantar um prato enorme que lhe era servido pela cozinheira, sem que Parpante pedisse ou reclamas­se nada, ele deixava o prato em cima da pedra e ia embora, sem nada falar, direto para seu quarto. Cheio de manias, em lugar de usar a lâmpada que lá já tinha sido instalada, usava um lampião Ala­dim de querosene, até o sono vir, após rezar diversos terços. Não gostava de rádio e não sabia ler, apesar de guardar com especial cuidado um missal, ganho de um amigo de infância que frequentou o catecismo por algum tempo.

Às vezes, preocupado com um pintinho ou um porquinho, à noite, levava-os para seu quarto, pois assim poderia cuidar me­lhor deles. Segundo ele, devido às chuvas, ventos fortes e frio, os pobres animais poderiam sofrer muito e até morrer, o que o fazia sofrer demasiadamente.

Certa vez cuidou de um pinto encontrado quase morto no galinheiro, durante sua visita noturna antes de se deitar.

Levando-o para o quarto, agasalhando-o e alimentando-o qua­se a noite inteira, o pinto foi melhorando pouco a pouco. Como a melhora do pinto foi lenta, tornaram-se necessários cuidados especiais durante alguns dias e noites. O trabalhou compensou. Desse pinto moribundo surgiu uma franga bela e formosa, alta­mente presa ao seu tratador. Parpante, a cada dia foi ficando mais encantado com a franguinha que despontava e se tornava grande amiga dele. Como foi criada por ele desde que nasceu, passou a acompanhá-lo por todos os lugares onde ele ia. Para Parpante, essa foi uma experiência agradabilíssima. Era-lhe pesaroso deixá-la lon­ge dele. Seu coração batia apertado quando ele a largava dentro do galinheiro, abandonada por ele e sujeita a ser agredida por uma ou outra galinha mais poderosa. Mas, com alegria, tirava a franga do galinheiro e soltava-a, deixando-a acompanhá-lo onde ele ia por todo o grande terreiro.

Ao anoitecer, depois de irem juntos jantar, os dois, ele na frente e ela atrás, iam para o quarto de ferramentas onde ele dor­mia junto à franga, na sua imunda cama, os dois cobertos pelo mesmo cobertor.

Aos poucos a franguinha foi se tornando adulta, isto é, foi virando galinha, e nesse estágio de seu desenvolvimento, o galo metido e arrogante do galinheiro começou a olhar para ela com olhos sedutores. Era mais uma possível esposa para aumentar seu harém. Assim Cocota, como era chamada, cada dia se aproximava mais do galo intrometido.

A princípio, Parpante não ligou, ou talvez não imaginasse que ela pudesse ser infiel, já que ele lhe dispensava um grande amor e cuidado. Mas os fatos não ocorreram como ele imaginava. Num certo dia, com o passar do tempo, aproximando-se o período de vida adulta e da franga botar, falou mais alto o poder biológico. Após Parpante ter jogado o milho para a alimentação das aves, o galo intrometido e indiferente às ligações amorosas existente en­tre os dois, iniciou seu trabalho de macho com sua nova parceira Cocota, até então uma franguinha bonita e virgem.

Parpante ficou indignado ao presenciar a cena que temia. Ini­cialmente ele correu atrás do galo, afastando-o de sua amada, mas sem conseguir pegá-lo, desistiu irritado. Nessa noite, imaginando poder reconquistar sua amada, ele resmungou por toda a noite jun­to a Cocota, que o ouvia seriamente e talvez se desculpando pela sua conduta indecorosa, fruto dos instintos e hormônios que che­gavam alheios à sua vontade. Vendo a seriedade de Cocota, decidiu perdoá-la por aquela traição feita na presença dele, despudorada­mente. Mas dias depois ele presenciou outros carinhos dispensa­dos pelo galo à galinha predileta de Parpante. Ele sentiu como que uma facada no peito. Definitivamente, havia perdido o amor de sua galinha de estimação. Naquela tarde, durante o jantar, Cocota não o acompanhou até a porta da cozinha, para receber parte de seu jantar, antes deles irem dormir juntos.

— Parpante – perguntou Maria – cadê a Cocota?

Nesse momento, Parpante, assustado, resmungou quase sem voz:

— Ela não quis vir. Está adoentada.

— Oh! Coitada. Leva um pouco de canjiquinha, pois ela gos­ta tanto.

Nesse fim de tarde, Parpante quase não jantou e jogou na terra, em vez de levar parte da comida que ele deixou no prato. Em seguida foi para seu quarto. No dia seguinte Parpante, após ter enterrado Cocota, informou à patroa que a galinha havia morrido de uma doença que ele não conhecia.

Tudo continuou como antes, apenas Otávio Parpante, duran­te dias, não dormiu direito, pouco se alimentava, e durante alguns dias não falou uma palavra com ninguém.

Nesse ínterim, uma das cozinheiras mais antigas de D. Amélia, há tempos sofrendo do coração, após ter sido internada no hospital da cidade, morreu de uma pneumonia que pegou no próprio hospital. No seu lugar entrou uma moça morena, de coxas fortes e belas, muito sorridente e desinibida. Logo no primeiro dia de serviço, ao servir o jantar a Parpante, ela foi logo brincando e conversando com ele.

— Não te conhecia, conheço todo mundo aqui na cidade.

— Saio pouco, resmungou tristonho, pensando na Cocota.

— Mas você é forte, bonito e novo. Não arruma nem uma namorada?

— Não. Ele custou a falar, pegou o prato de comida e come­çou a comer. Mas o apetite era pouco. Só se lembrava que daí a pouco iria para sua cama, sem a presença de Cocota. Ficou mudo.

— Esquisito: você não gosta de falar? Eu falo muito. Mas vou fazer você falar. Sou boa nisso.

Parpante, sem se despedir, foi embora chorando. Antes de ir para seu quarto foi até onde havia enterrado Cocota. Pensou em abrir a cova, para vê-la uma última vez. Desistiu, mas antes de entrar no seu quarto catou algumas pedras, as mais bonitas que encontrou, e colocou-as em torno do lugar onde Cocota descansava para sem­pre. Depois de ter enfeitado o jazigo onde fora enterrada, ajoelhou-se e rezou algumas Ave-Marias diante do túmulo de sua amada.

Com o passar do tempo, porém, os sonhos tecidos por Par­pante com respeito a Cocota, foram ficando mais fracos. Não que eles desaparecessem, pois sempre, todas as noites, lembrava-se de Cocota e do carinho e simpatia com que ela se aconchegava em torno de seus braços e ouvia seus elogios.

Alzira, a alegre e desinibida nova cozinheira que entrou no lugar de Maria, muito conversadeira, aos poucos conquistou o amor de Parpante. Todas as tardes, durante seu jantar, Alzira, além de preparar as iguarias que ele mais gostava, assentava-se ao seu lado, enquanto ele jantava. Ela conversava sem parar. Às vezes, chegava mesmo a pegar em seus braços ou mãos, de modo muito natural, pois fazia parte dessas pessoas que, para contar alguma coisa, tinha que pegar no outro. Isso provocava um estremeci­mento em Parpante, fazendo com que ele perdesse o sono nesses dias. Mais excitado ainda ficava, quando Alzira, após o jantar, o acompanhava até seu quarto e, assentada ao seu lado, na cama onde dormia, conversava de tudo, enquanto ele a escutava com os olhos vidrados.

A partir desses fatos, foi-se esquecendo em definitivo de Co­cota, tirando as pedras que havia colocado em torno de onde havia enterrado a franga. Chegou mesmo a plantar um pé de milho em cima da cova onde a enterrara. Enquanto uma ia desaparecendo de sua memória, Alzira ia nascendo.

D. Amélia, astuta e observadora, notou a mudança ocorrida na conduta de Parpante, após a contratação de Alzira. Ela percebeu que, a todo o momento, ele arrumava um motivo para ver a moça, pois era para ele um sofrimento estar longe dela por muito tempo. Ao arrumar, sem parar, uma e outra desculpa para vê-la, ele passou a produzir muito pouco, pois deixava tudo para depois e, além dis­so, não deixava sua amiga trabalhar.

Em virtude disso tudo que estava acontecendo, D. Amélia de­cidiu, após custosos e habilidosos arranjos políticos, no que ela era perita, arrumar um casamento para Alzira com um rapaz dono de uma banca de revistas e jornais, que só tinha um defeito: era um tremendo beberrão, conhecido por todos na cidade.

D. Amélia, antecipadamente, para evitar uma tragédia, ou seja, que Parpante fosse atrás do vendedor de revistas e, quem sabe, até tentasse matá-lo, falou com ele que Alzira, bem como o vendedor, bebiam muito. Além disso, ela pediu aos dois que simu­lassem, diante dele, uma cena onde os dois estivessem bebendo pinga, que na realidade era água misturada a laranjada. Acontece que Parpante tinha pavor ao álcool, bem como detestava quem fizesse uso de pinga, cerveja ou outra bebida semelhante.

A partir desse dia, quando ela fingiu que bebia diante dele, a pedido da patroa, nunca mais aproximou-se dela. O prato de suas refeições era colocado por ela em cima da pedra, sem que trocas­sem uma só palavra. Novamente ele entrou em desespero, tornan­do-se ainda mais calado e sombrio.

O choque foi tão grande que Parpante, apesar dos seus es­forços, quase nada rendia, permanecendo uma grande parte do tempo dentro de seu quarto, rezando o terço. Sua patroa, apesar de se sentir culpada do seu estado, já pensava em despedi-lo, quando aconteceu um novo evento que mudou a situação.

Durante uma enchente no rio que cortava o fundo do lote onde ele trabalhava e morava, Parpante, sombrio e pensando sem parar em Alzira, viu um cãozinho sendo levado pela correnteza, fa­zendo um esforço enorme para se salvar. Parpante, que olhava para o rio sem pensar em nada mais que Alzira, viu o cão desesperado. A princípio não prestou atenção ao cão, olhava, sem ver. Num certo momento, focalizou mais o fato. Neste instante caminhou resoluto em direção ao rio, e após entrar na água, procurou agarrar o cão que se debatia desesperadamente sem resultado. Não foi difícil sal­var o cãozinho, que foi, em seguida, levada para seu quarto.

Uma vez salvo o cachorro, que na verdade era uma cadela branca de pintas pretas pelo corpo, por estar muito molhada, pare­cia ainda menor do que era. Tremendo de frio e de medo, a cade­linha aceitou, prazerosamente, o contato com o tórax imenso de Parpante. Era um fim de tarde, assim, condoído após sentir-se bem com o contato da cadela, ele decidiu, sem falar nada com sua pa­troa, levá-la para dentro de seu cômodo. Na primeira noite, por es­tar ainda molhada, ele colocou a cadela, para aquecê-la, dentro de um balaio de milho, enrolando-a com sacos vazios que ali estavam. Antes abriu uma canastra velha e quebrada, onde guardava suas roupas, e de lá retirou um pedaço de pão que deu para a cadela, que o devorou de uma vez.

Aconteceu o esperado: ele afeiçoou-se exageradamente à ca­dela, que recebeu o nome de Mélia. Sua patroa até que gostou da cadela, apesar de não ter gostado do nome, entretanto, já conhe­cendo seu dono, prevendo coisas piores, pediu a ele que a desse para alguém que de fato pudesse cuidar dela de foram adequada. Assim, contra a vontade dele, ela foi dada para um sobrinho de D. Amélia. Entretanto, dois dias depois a cadela, que havia sumido da casa do sobrinho, retornou para junto de Parpante. Nova conversa séria de D. Amélia contra a permanência da cadela em casa, pois não só aumentavam as despesas, como a cadela, que não se afasta­va de Parpante, não o deixava trabalhar, além do inconveniente da quantidade de pulgas que passaram a infestar seu quarto.

Certo dia, ao passar perto de Parpante, D. Amélia parou para avisá-lo que a cadela precisava ficar presa ou ir embora. A cachorra, após rosnar, deu uma pequena mordida no tornozelo da patroa, o que bastou para que ela tomasse uma decisão final:

— Ela não fica mais aqui. Será dada ou vendida hoje ainda. Em seguida, após conversar com o filho, D. Amélia pediu-lhe que levasse a cadela.

Logo após ser levada e sumir, Parpante gritou, chorando dias e dias. Desesperado pela solidão, ele largou o serviço e saiu – o que não era seu costume – pelas ruas da cidade, à procura da cadela. Nesse período ele não só emagreceu, como também não dormia, além de chorar constantemente, o que indicava seu sofrimento.

Certo dia, andando e olhando para todos os lados, Parpante encontrou Mélia. Foi um encontro emocionante, de abraços e beijos por um longo tempo. Entrando pelos fundos, carregando a cadela bem escondida, Parpante a levou para seu quarto e a colocou dentro do balaio vazio de milho. Em seguida foi esperar seu jantar e, nesse dia, disse que iria jantar no quarto, pois não queria ficar exposto ao vento frio que soprava naquele início de inverno.

Mas dois dias depois, D. Amélia descobriu a cadela ao ouvir seus latidos conhecidos e foi pessoalmente até onde ele estava no quarto, exigindo que ele lhe entregasse a cadela, para que ela fosse dada a alguém. Parpante, segurando em seus braços podero­sos a pequena cadela, resistiu e afirmou que não a entregaria para ninguém. Sem muito conversar, D. Amélia procurou ajuda entre os policiais da cidade e do médico do posto. Um grupo de cinco homens, ao chegar à casa de D Amélia, após diversas tentativas infrutíferas de negociação para que Parpante entregasse o animal, decidiram tomá-la à força. Para isso, após tremenda luta dos cinco contra um, um dos soldados, o mais forte do grupo, deu-lhe uma “gravata” por trás, bem apertada, até que ele perdesse os senti­dos, enquanto os outros o seguravam e tiravam Mélia, apavorada, dos seus braços.

O médico aproveitou a oportunidade para lhe aplicar um cal­mante na veia, que o fez dormir de imediato. Assim conseguiram sequestrar a cadela Mélia. Mas pouco depois, ainda com os poli­ciais e o médico dentro do quarto, ainda grogue, retomou a consci­ência, derrotado e calmo. Vendo que tudo estava perdido, decidiu fazer uma última proposta com lágrimas nos olhos, o que comoveu até aos soldados:

— Tá certo… eu levo-a embora, levo-a para onde a peguei, para o rio.

— Mas ela vai nadar e sair, respondeu um dos soldados, que continuou:

— O rio está vazio, está fácil sair.

— Não. Antes, eu mato ela. Nesse momento ele não conse­guiu falar mais nada, pois soluçava de um modo tal que sua voz não saía.

Por sugestão de um policial mais acostumado a essas coisas, foi proposto que Parpante enforcasse a cadela com uma corda, antes de jogá-la ao rio.

Dominado pelo grupo, pelo desespero, pela tonteira da in­jeção e sem outra alternativa, prometeu matá-la, enforcando-a e jogando-a no rio. Teve por testemunhas todos os presentes, inclu­sive a patroa e Alzira, a cozinheira, por quem era apaixonado. An­tes pediu licença para vestir o terno preto, que tinha sido ganho e guardado para quando morresse. Após se vestir, preparado para o ritual e acompanhado pelo grupo, caminhou para o fundo do terreno, onde passava o rio, com a cadela amarrada num fio de luz, pois ninguém conseguiu arrumar uma corda bem adaptada ao proposto.

Antes de apertar o fio em torno do pescoço, fez um último pedido: dar a última refeição à cadela. O pedido, após ser discuti­do, com alguns contra, outros a favor, foi aceito. Assim, com algu­ma demora enquanto o grupo esperava, Alzira foi até a cozinha e preparou um angu com pedaços de carne picada, a comida favorita da cadela. Ainda quente, a comida foi trazida.

Parpante, para evitar queimar a boca da cadela, pediu ao gru­po para que esperasse a comida esfriar. Para isso ele foi mexendo o angu com carne, enquanto ia provando e comendo parte do ali­mento. Certo de que a comida já esfriara, ele deu, com carinho e cuidado, diante de todos, o angu com carne. A cadela, talvez assus­tada com tantos olhares, mistura de dó e angústia, apenas provou o último alimento.

Em seguida, apanhou pedras de um certo tamanho e foi as amarrando no fio que numa das pontas circundava o pescoço da cadela. O grupo formado pelos cinco soldados, o médico, D. Amé­lia e Alzira, em silêncio assistiam à complicada e demorada amar­ração feita por Parpante, como se seguisse um ritual já feito por diversas vezes. Ouvia-se apenas o barulho das águas do rio e os grunhidos ocasionais da cadela, tendo um laço no pescoço e presa com tantas pedras amarradas na outra parte do fio.

— Tudo pronto – falou Parpante com sua voz estranha. Todos estavam impacientes, desejosos de acabar com aquele martírio. Al­zira começou a chorar e pediu para que não fizessem aquilo. D. Amélia, apenas, após balançar a cabeça negativamente, falou:

— Joga!

Ao cair na água, não se ouviu nada, nem o latido agudo e cos­tumeiro de Mélia. Parecia que ninguém ali escutava nada, nem o baque pesado na água do corpo e das pedras, tudo amarrado junto. Rapidamente foram sumindo Mélia e as pedras. Depois instalou-se um silêncio total, ninguém falava nada, todos olhavam para o local onde Mélia foi jogada.

O grupo ainda ficou por alguns minutos diante do rio, olhan­do para as pequenas ondas que corriam lentas e indiferentes ao drama daquelas cabeças. Um a um, de cabeça baixa, foram dando as costas para o rio onde a cadela havia sido enterrada para sempre e, em silêncio, caminharam em direção à casa.

A noite começava, uma noite mais calma que as outras. Lá no fundo, as ondas continuavam a correr como dantes. Chocavam-se entre si e quebravam-se, como se nada tivesse acontecido.

A partir desse dia, Parpante não conversou mais com ninguém, não saiu mais de casa. Todas as tardes ficava olhando para o lugar onde Mélia fora jogada, esperando talvez que ela voltasse, como havia vol­tado antes.

Uma tarde, enquanto ele olhava para o rio, D. Amélia apro­ximou-se, sentindo-se culpada do lamentável estado de Parpante. Junto a ela, dentro de um pequeno carrinho, estava seu neto de seis meses que tomava um pouco do sol de fim da tarde. Após tirá-lo do berço, mostrou-lhe o rio, as ondas e o barulho monótono e triste das águas que corriam à sua frente. Às vezes ela imitava, enchendo de ar sua própria boca, o barulho do rio. Nesse momento Alzira a chamou para ver se a goiabada que ela estava fazendo já estava no ponto para ser colocada em formas.

Condoída com o silêncio e a dor de Parpante, desejando que seu neto tomasse mais um pouco de sol, ela colocou o menino no carrinho e pediu-lhe para que tomasse conta dele, enquanto ela ia ver o doce.

— Ele te fará companhia – falou rindo para Parpante.

Poucos minutos depois ela voltou. Ao chegar perto do ber­ço, D. Amélia começou a gritar desesperada com o que assistia, sem poder fazer nada. Parpante, após tirar o menino do carrinho, apertou seu pescoço com mãos possantes, até certificar-se que ele estava morto. O menino não chegou nem mesmo a chorar. O es­trangulamento foi rápido e brutal. Em seguida, Parpante atirou o menino já morto ao rio, no mesmo lugar onde jogara a cadela. As ondas passaram indiferentes por cima do corpo inerte do menino, como passaram por cima do corpo de Mélia.

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