A Morte da Funcionária

Chovia. Já eram quase nove horas da manhã, mas o dia ainda estava escuro. Diferente das outras manhãs, nesta eu não precisei ir trabalhar e, por isso mesmo, levantei-me mais tarde. Mas acostu­mado, há anos, a levantar-me às seis e meia, não mais dormi depois desse horário, por mais que tentasse. Fui até à janela e olhei a rua observando os que passavam. Na verdade olhar a rua sempre me fascinou. Resolvi, com um certo cuidado para não ser observado e denunciado pelos vizinhos, contemplar a chuva miúda que caía quase sem fazer barulho. Lá estava a cansada cozinheira carregan­do o pão e o leite para o vizinho de frente, que se levantava sempre tarde. Pelo pequeno orifício que havia feito na persiana, continua­va minhas observações e minhas especulações acerca da vida dos que por ali residiam. Mas minha cabeça hoje estava longe, mais precisamente em D. Fininha.

Dona Maria Josefina De La Fiori Giorni ou, mais simplesmen­te, D. Fininha como era conhecida e carinhosamente chamada. Após trabalhar por mais de 40 anos na Faculdade de Medicina, des­de seus 18 anos de idade, morrera ontem. Ela morava com Deus e seu gato, num apertado apartamento, nas vizinhanças da escola. De sua clausura ela saía todas as manhãs, no mesmo horário, de banho tomado, para ir trabalhar. Magra, de pele muito clara, tendo um rosto sem expressão e fino onde era espalhado, em exagero, pó de arroz Lady. De suas pernas finas e mal feitas nascia um quadril quase achatado por todos os lados. Seu tórax era liso, sem busto, devido a uma displasia mamária.

Sem nunca ter feito exercícios, sem caminhar, sua nádegas eram caídas e quase não eram percebidas.

Caminhava para a Faculdade sempre no mesmo passo, ape­sar de ter sido assaltada diversas vezes nesse trajeto de casa para o trabalho. Isso não mais a assustava, pois o que ela perdia em cada roubo era muito pouco, pois nada possuía de valor. Sua vida não valia de fato grande coisa para a quase totalidade dos habitantes de BH. Poucos a conheciam e, mesmos estes, só se lembravam dela quando precisavam de seus favores na Faculdade. Talvez nenhum aluno, professor ou outro funcionário qualquer iria chorar ou la­mentar sua ausência. Possivelmente somente sua velha cadeira sen­tisse sua falta, pois era nela que D. Fininha descansava, todos os dias, o seu traseiro murcho, enrugado e exausto de viver.

Os companheiros de repartição não a odiavam, mas também não ligavam para sua existência. Ela era uma figura grotesca. Estava sempre falando, agitada e confusa. Tinha sempre algo para se quei­xar. Facilmente esquecia o que estava fazendo, ou falando, quando começava a tagarelar sobre seus infortúnios e a especular sobre a vida e suas dificuldades. Dava a impressão, nos últimos anos, de uma velha boneca de cordas que tivera seu mecanismo estragado, repetindo as mesmas coisas. Muitas vezes ela era grosseira, arro­gante e parecia sentir prazer em frustrar as pessoas que iam buscar sua ajuda, principalmente os mais medrosos. Eram estes os que ela mais maltratava. Entretanto, era capaz, logo depois, de ir atrás da pessoa para ajudá-la, arrependida de ter sido tão má. Tinha raiva, inveja e medo dos fortes e capazes.

Nos últimos dias D. Fininha já não mais falava como antes. Sua voz monótona não expressava mais emoções, não mais sorria, não mais chorava. Sua vida atual não mais comportava decepções ou alegrias. Parecia que ela já antecipava seu fim, sua mente já havia morrido antes do seu corpo. Seu rosto, ultimamente indiferente, fez desaparecer os traços femininos restantes que possuía. A velhi­ce unifica os sexos, não pela troca destes, mas pela criação de um sexo neutro, que se parece com ambos, entretanto não é nenhum.

Distinguiam-se, na sua face assexuada, dois velhos brincos cor-de-rosa e no rosto as manchas mal espalhadas do mesmo pó de arroz que usou por toda sua vida. Seus últimos fios de cabelos, to­dos brancos, eram cuidadosamente arrumados, numa tentativa vã de encobrir o seu couro cabeludo branco, oval e liso. Na sua face áspera e rugosa, teimosamente apareciam alguns malditos fios de cabelo que D. Fininha conservava, com ódio de terem crescido no lugar inadequado

No serviço, seus subordinados faziam todos os rituais neces­sários e usuais para garantirem a boa relação do serviço público. Além dos sorrisos, gentilezas, festinhas de aniversários inesperadas e preparadas com antecedência, com o tradicional bolo e velinhas, guaraná e tudo o mais. D, Fininha odiava Coca Cola. Tudo isso, para dar-lhe, como manda o estatuto, uma demonstração de apre­ço e a ilusão de que ela ainda comandava a repartição.

D. Fininha, adormecida no tempo, não percebia seu isolamen­to e a sua ausência do poder. De fato as decisões e comunicações importantes junto aos superiores já há muito eram comandadas por Glorinha, uma bela morena de cintura delgada, tipo “mignon”, lábios carnudos e sensuais. Era sedutora como ninguém, com suas coxas grossas e roliças e sua alegria juvenil. Foi notada pelo Dr. Martins quando era atendente no hospital. Ele, bacharel em eco­nomia e chefe da repartição, mal-casado, escolheu Glorinha como sua nova amante e tornou-se seu protetor sem nenhuma discrição. Desde então D. Fininha transformou-se num zero à esquerda na direção dos problemas da repartição, mas nada percebia ou, por cansaço, fingia não perceber.

Eu estava ali parado diante da janela, pensativo, tendo como fundo a chuva branda e chata. Meu olhar olhava para o vazio, para o nada, para D. Fininha. Inspecionava dentro de mim o espectro de D. Fininha desfilando em minhas recordações. Estava triste, lembrando sua vida quase inútil, que se acabara sem nunca ter se afirmado como gente. O seu poder, que nunca foi grande e com a idade pouco a pouco foi acabando, hoje dava o último ar da graça, sua última ordem.

Hoje os seus companheiros de repartição não trabalhariam. Sua morte, automaticamente, decretou uma folga no serviço, em plena terça-feira de 23 de outubro, para seus companheiros, in­diferentes à sua vida e muito mais desligados com respeito à sua morte. Cada um ocupado com seus próprios e grandes problemas pessoais, com valores provisórios mais importantes, aproveitariam a folga para fazer outras coisas, mais excitantes do que ir ao enter­ro de D. Fininha para lhe dar o “último adeus”. A estas horas ela já deve estar dentro de um caixão, talvez ajudada por alguma vizinha bondosa, com uma vida infeliz e vazia, que se identificou com ela. Alguém que seguiu o mesmo rastro, vazio e sem opções, de D. Fini­nha e que, com sua morte, viu neste espelho o mesmo fim desta.

Possivelmente ninguém chorará sua morte. Ela já havia faleci­do para a maioria ou para todos há muito tempo. Ninguém sentirá sua falta. Ela já não tinha o que dar aos outros, pois perdera sua ca­pacidade de transmitir gentileza, poder, sabedoria e beleza. Apenas recebia, nesses seus últimos dias, piedade ou indiferença. Estamos ligados às pessoas por transmitirmos algo: poder, beleza, dinheiro, inteligência, sedução ou “serviços gerais”. Ela, não tendo mais nada para dar, foi perdendo suas ligações afetivas. Não possuía beleza, di­nheiro, cultura e inteligência para ser notada. Nunca foi prestativa, capaz de cativar algum explorador do seu poder, não possuía poder político ou físico capaz de aproximar ou amedrontar alguém. Por fim, ela nunca foi perita em fazer quitutes ou jantares saborosos, capazes de mobilizar os amigos da boa cozinha.

D. Fininha viveu e morreu como uma mulher medíocre. Nessa cidade de numerosos estímulos e interesses e com alta rotatividade de novidades, D. Fininha estava “fora do mercado” há muito. Era antiquada, tanto no corpo como na mente. Seus casos, os mesmos repetidos e conhecidos por todos, suas roupas, tanto os vestidos ve­lhos como os novos, eram iguais. Dentro deles, fazia-os parecer ve­lhos. Sua conversa era sem brilho, onde o final da história aparecia no início e perdia a graça. Sua voz grossa e metálica, típica das mu­lheres velhas que fumaram, aborrecia e provocava dor nos ouvidos.

Por trás de todo um declínio, ela apresentava-se arrogante. Julgava-se sempre como dona da verdade. Seus conhecimentos adquiridos na adolescência, na Escola Normal dirigida por freiras, eram, com frequência, repetidos para explicar o início do mundo, a vida sexual, a política e os direitos do cidadão, Por dois anos D, Fininha lecionou geografia e história no interior, antes de vir tra­balhar na Faculdade após um desfecho infeliz do seu noivado com um militar. Nunca quis comentar os motivos do rompimento, mas, com frequência, comentava com ódio a falta de caráter e vergo­nha de todos os militares.

Tenho que ir ao enterro, devo-lhe um favor. Sou um homem que sempre me lembro dos tratamentos ruins e bons que recebi, e nunca me esqueci do meu primeiro dia de trabalho. Nesse dia ela foi gentil e carinhosa para comigo. Eu desconhecia o que devia fazer. Logo depois, como sempre acontecia, fui tratado com casca e tudo. Ela apoiava os fracos e incapazes e detestava os que luta­vam por algo melhor. Acreditava que deveríamos aceitar a nossa inferioridade.

Vou um pouco mais cedo para o velório. Ela deve estar sozi­nha. Não sei se tinha parentes. Diziam que três de seus irmãos já haviam falecido e tinha apenas uma irmã viva, que era fazendeira rica no Sul de Minas e que as duas não combinavam. Ela jamais falara algo a este respeito. Creio que nunca teve outro namorado após o desfecho do seu noivado. Talvez, não sendo mais virgem, desistisse de arrumar um novo namorado e passar pela vergonha de ser repudiada por ele após a descoberta. É possível que ela não tivesse tido nem um amante passageiro, ou profissional de feria­dos, fins de semana ou mesmo de carnaval.

Na repartição comentava-se, de tempos em tempos, que D. Fininha tivera um grande amor, aqui mesmo na Faculdade, após o término de seu noivado. O seu grande amor teria sido um famo­so cirurgião e professor da Faculdade que, durante uma crise forte de depressão, havia se suicidado. Ela era só, vivia com seu gato de estimação, sua companhia nos momentos de solidão, mas provavel­mente este não lhe era fiel, pois haveria alguma gata em sua vida.

Preciso aprontar-me. Faço ou não a barba? Sem fazê-la, dou a impressão de luto e tristeza. Devo ir ou não? Para quê? Apenas para cumprir uma obrigação social? Mas eu já cumpri tantas em minha vida. Mais uma farsa para o cadáver de D. Fininha acrescentar em sua biografia, que também sempre foi uma farsa, a última encena­ção de uma peça bufa. Eu até que não a odiava, mas nunca a amei. Ela era insossa como a maior parte das velhas que viveram como ela, sozinhas, sem filhos, sem casamento, sem transas e que nunca aprenderam a produzir poder de qualquer espécie. A chuva miúda continuava por toda a manhã. Acho que irei despedir-me de D. Fi­ninha. Despedir-me do nada.

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