A Investigação do Índio Surdo

O índio Jutay foi preso. Brigou, acompanhado por seu sobri­nho, num boteco da zona boêmia de Itabira. Durante a luta, Jutay levou um murro na orelha dado por um policial e, como usava um aparelho para surdez, teve esse quebrado e perdido no campo de luta. Levado até a delegacia de polícia junto a um advogado do sindi­cato arrumado por seu sobrinho, ele foi inquirido pelo delegado.

Seu depoimento foi difícil, pois ele pouco ou nada ouvia sem o aparelho e, sem ouvir, não sabia responder ao que lhe era per­guntado. Alguém na delegacia lhe deu uma corneta de brinquedo, para facilitar a transmissão do som para o ouvido. Assim, quando o delegado falava, Jutay enfiava a ponta da corneta no canal auditivo e movimentava a parte mais larga desta em direção à voz do advo­gado ou do delegado. Para piorar, Jutay entendia e falava muito mal o português, somente falava uma ou outra palavra, mas falava fluen­temente a língua indígena compreendida somente pelo sobrinho. Entretanto, esse não compareceu à delegacia na audiência.

Durante a leitura da ocorrência, Jutay segurava a corneta que era enfiada no ouvido do lado esquerdo, enquanto puxava as ore­lhas para frente, na vã esperança de captar algum som compreen­sível. Seus olhos percorriam os soldados, o escrivão, uma mulher que fazia a limpeza do assoalho e outros que estavam ali sem fazer nada. Quando o escrivão terminou a leitura da ocorrência, sem Jutay ter escutado nada, ele agarrou a manga do paletó de seu ad­vogado, que conhecia pouco sua língua, e com gestos melodramá­ticos começou a falar agitadamente.

— Que foi que ele disse? – perguntou o delegado ao advogado.

— Disse que há anos recebeu um soco no ouvido esquerdo e, a partir de então, não escuta mais. Estava usando um aparelho para ou­vir, mas tomou outro soco agora e perdeu-o.

— Quem foi que o agrediu?

— Um policial na zona boêmia.

— Não vejo conexão alguma entre a surdez e essa causa.

— Exatamente, Excelência. Dr. Alberto parecia querer acres­centar alguma observação, mas calou-se.

O acusado tornou a agarrar o braço do advogado, vociferan­do algum palavrão incompreensível. Novamente o delegado pediu explicações ao advogado.

— Diz que perdeu o aparelho quando tomava uma cachaça num bar, junto a uma mulher. O policial, que era gigolô da mulher, não gostou de seus modos. Aí a briga começou e ele pediu-lhe para providenciar um novo aparelho.

Jutay agitava a sua corneta acústica, como para provar que não funcionava. O delegado dignou-se levantar os olhos do papel por um instante e disse:

— Diga-lhe que irei providenciar outro, mas isto fica para mais tarde.

O advogado aproximou-se do surdo e berrou-lhe ao ouvido:

— Mais tarde! – usando algumas palavras da língua do índio.

— Mais tarde, mais tarde – repetiu Jutay.

— Pergunte-lhe se tem alguma declaração a fazer a respeito deste processo.

— Quer dizer alguma coisa?

— Sagen? Sagen? Perguntou Jutay nervosamente.

— Quer ver seu sobrinho e quer saber por que ele não está aqui.

— Mas o senhor não lhe explicou por que está sendo proces­sado? – perguntou o delegado admirado.

— Claro, expliquei-lhe várias vezes.

— O médico perito que examinou o acusado declarou-o men­talmente são, apenas em estado neurótico excitado – declarou o delegado Alcebíades.

— Sim. Doutor… – hesitou e depois se decidiu a falar:

— Acho que não se deva interpretar como sinal de insanidade mental o fato de um indivíduo que, após escapar de uma surra vio­lenta, um perigo de morte, suplica à justiça que lhe conceda abraçar, por um instante, o único parente que ele conhece aqui em Itabira.

Após um instante, o delegado perguntou:

— O sobrinho de Jutay vive em… ?

— Trabalha na companhia Vale do Rio Doce, aqui em Itabira.

— Está presente?

— Não, está internado num hospital.

— Dengue?

O advogado acenou que não.

— Que diabo, todo o mundo parece estar atacado de dengue, comentou o delegado. Fechou a pasta e inclinou-se para trás:

— Fale o defensor público!

Um homem grande e magro começou a falar com uma veloci­dade incrível, pedindo a condenação de seis meses de detenção e subsequente envio para sua aldeia. O advogado pediu a palavra.

— Se eu for perseguido por um inimigo em plena rua e, na­quele momento, passar um ônibus, eu não hesitaria em saltar sobre o estribo, ainda que isto seja contra o regulamento do tráfego. Mas pergunto a V. Excelência, teria o motorista direito a processar-me por desrespeito ao regulamento?

O advogado terminou com essa interrogação, sentou-se e procurou no bolso dois comprimidos de aspirina que engoliu sem titubear. Ninguém entendeu sua defesa.

Jutay estava excitadíssimo:

— Tonado, cataca natov?

— Natocava, berrou-lhe na corneta: — Natocava!

— Tonado? – perguntou o acusado, apelando para toda e re­duzidíssima assistência. Alcebíades, o delegado, tomou uma pose solene e, vagando o olhar pela sala, declarou:

— Como de costume, repito mais uma vez que, na função de delegado, estou autorizado a aplicar penas provisórias com o fim de coibir e sancionar a lei. Lançou um olhar para o réu e continuou:

— Mostro-me compreensivo para o que acabou de dizer o Dr. Alberto, advogado do réu. Isto é, que as condições internas de certos estados emocionais provocaram um êxodo em massa e que nestas circunstâncias seria inumano aplicar sanções. Mas devo acrescentar que, na minha função de delegado, estou obrigado a velar pelo respeito à ordem legal, não cabendo à minha alçada dis­cutir a lei, nem mesmo forçar uma interpretação. Pigarreou, e após uma pausa deliberada para tirar um cigarro e acendê-lo demorada­mente, declarou:

— É possível que eu esteja enganado e que causas semelhan­tes comportem uma apreciação diferente. Espero, outrossim, que o acusado apele de minha humilde e simples ordem para o juiz, ou seja, para uma instância superior. Espero também que a corte suprema se digne esclarecer essa conduta de desrespeito à ordem pública e oriente a questão em debate.

Jutay parecia desesperado no esforço hercúleo que fizera para captar algum som, entender alguma coisa. Suas orelhas esta­vam muito vermelhas, quase roxas. O delegado continuou:

— Por essas razões resolvi enviar o réu para a prisão, até que ele seja julgado em definitivo por sua Excelência, o juiz ou o de­sembargador.

No silêncio constrangedor, o réu começou a bradar:

— Tonado, cataca? Os presentes levantaram-se. Estavam en­cerrados os trabalhos do período da manhã. Mas Jutay recusava-se a se retirar e ser levado à cela da prisão, vociferava que queria a todo custo ver o sobrinho. Dois policiais carregaram-no para a sala contígua, enquanto o homenzinho se debatia e gritava:

— Tonado, cataca? Que fiz eu?

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