A Felicidade Mora ao Lado

Imagem - Observando Vizinhanca

Após a morte de sua mulher, Sô Nico viveu algum tempo so­zinho no casarão que fora de seu pai e avó. Cansado do lugar gran­de demais, que lhe dava muito trabalho, e também em virtude da casa lhe provocar muitos pensamentos tristes que lhe lembravam de sua querida Nica, aconselhado por amigos e parentes Sô Nico alugou um quarto na pensão da rua Direita.

Na nova residência, quase ninguém via Sô Nico, pois ele saía cedo para seu trabalho e retornando à pensão, ia para seu quarto e lá ficava lendo algum livro. Sua grande distração era ler, um fato raro naquela cidade. Com seus quarenta anos, sem filhos, Sô Nico saía cedo para o trabalho e voltava tarde. Sabiam que ele era for­mado em alguma coisa, falava-se que em Direito, mas ele jamais advogara. Era funcionário da prefeitura local.

Sô Nico andava sempre sozinho, não tinha amigos e na repar­tição não conversava, a não ser com o prefeito, quando era chama­do para isso. Após a morte da mulher, ele perdeu as relações com a família, que era quase só a família de sua falecida esposa. A mãe de Sô Nico morreu de parto quando ele era ainda criança, seu pai, após a morte da esposa, tornou-se um alcoólatra e morreu um ano depois. Os outros seus parentes mais próximos, irmãos e sobri­nhos, moravam em Belém do Pará, dificultando os encontros que, cada vez mais, se tornavam raros.

Ele saía do trabalho pontualmente às cinco horas da tarde e, em seguida, andava pelas ruas até se cansar com as roupas com que tinha ido trabalhar. Num certo dia, devido à morte de um funcio­nário da prefeitura, esfaqueado por um bêbado, ele chegou mais cedo ao quarto onde dormia. Sô Felício, proprietário da pensão, vendo que ele estava no escuro, após bater na porta, ofereceu-lhe uma nova lâmpada, imaginando que a do quarto estava queimada.

Mas Sô Nico, após agradecer a gentileza, quase sem falar, ges­ticulando, explicou-lhe que queria descansar um pouco e não ia ler naquele dia, pois gostava também do escuro. Num certo instante, uma luz invadiu seu quarto, uma luz vinda do outro lado de sua ja­nela que estava aberta. Era a luz da casa dos vizinhos, a família dos Rochas, tornando seu quarto bastante claro.

A família dos Rochas era constituída dos pais e de dois filhos. Vendo a mãe dos garotos cuidar dos filhos e os ajudar a servir, Sô Nico ficou preso aos acontecimentos, divertindo-se e gostando do que via, pois há muito não via uma família se reunir, conversar, sor­rir e brincar entre eles, enquanto ceavam. Durante o resto da noite, até que as luzes da sala de jantar da casa vizinha se apagaram, Sô Nico ficou assentado na cadeira, escondido na sombra que se forma­va atrás de sua janela aberta, olhando e ouvindo parte das conversas dos familiares vizinhos, a que ele nunca havia prestado atenção.

Encantado com o que viu, a partir desse dia voltava mais cedo para casa, deixando, assim, de fazer seus passeios solitários, pois eles o impediam de observar a cena da ceia da família, que come­çava em torno das 5:30 horas.

A partir desse dia, todos os fins de tarde Sô Nico ficava no es­curo, vendo a família reunida. Sô Felício, bisbilhoteiro, perceben­do que ele ficava no escuro sem fazer o menor barulho no quarto, vendo através do buraco da porta que ele não dormia, olhou mais demoradamente, como fazia várias vezes com todos os hóspedes, através do buraco da fechadura e da própria porta, feita de enco­menda para esse fim. Assim descobriu o motivo de tanto silêncio.

A partir daí, ele esperava ansioso pelo apagar das luzes para namorar a dona da casa, sem que ela o visse. Gostava de vê-la servir o marido, por sinal uma pessoa muito simpática e alegre. Os filhos, bem educados, pareciam ser muito amigos dos pais.

Pouquíssimas vezes ele presenciou, durante suas observa­ções, alguma discussão mais acalorada entre seus vizinhos.

O tempo foi passando, aquela família passou a ser parte de sua vida. À noite ele não mais via TV e nem lia seus preciosos li­vros, pois participava com fortes emoções em cada conduta de sua segunda família. Se a dona da casa, Sara, começava a cantar, ele, no escuro, cantarolava junto com ela a mesma canção. Se uma história engraçada era contada, mesmo quando ele não a escutava correta­mente, ele ria junto aos familiares. Uma notícia desagradável que um deles contava, era sentida por ele até com lágrimas nos olhos. Uma doença como uma gripe, num dos meninos, o fez sofrer ven­do a mãe tensa diante da tosse rebelde, dos espirros e da falta de apetite da criança.

Para participar mais ativamente dos acontecimentos da casa vizinha, Sô Nico com frequência preparava seu lanche e o levava para o quarto e somente começava a ingeri-lo quando sua “segun­da família” iniciasse suas refeições. Nas festas como no Natal, ele preparava seu vinho e durante as comemorações onde o vinho era servido, ele se servia e bebia ao mesmo tempo em que os vizinhos da outra janela degustavam suas bebidas.

Num certo dia, quando tudo era alegria do lado de lá e a família comemorava um aniversário do filho mais novo, o marido de sua vi­zinha, ao brindar e cantar o “parabéns para você” começou a tossir, tornando-se a princípio bastante vermelho e, a seguir, pálido. Nesse momento, ajudado pelos filhos e pela esposa, ele foi levado até um sofá que ficava na sala e lá, rodeados pelos familiares, deitou-se.

Sô Nico pode perceber a tensão e desespero dos familiares à medida que o tempo foi passando. Um médico foi chamado e lá chegou alguns minutos depois. Este examinou o homem que, nes­se instante, parecia não se mexer. Examinou uma vez, mais outra e começou a fazer massagens vigorosas no coração do homem, que não reagia. Após alguns minutos, o médico se aproximou mais da mulher e lhe disse algo que a fez chorar junto aos filhos. Ele tinha morrido.

Do lado de cá, Sô Nico chorou também, apreensivo com aque­la morte estúpida. Passou a noite toda vendo os preparativos do velório. O caixão onde fora colocado o senhor ficou na sala, bem diante de quarto de Sô Nico. Familiares e amigos foram chegando e reunindo-se, rezando em torno do corpo. Sô Nico, também sem dormir a noite toda, rezava do lado de cá pela alma bondosa do seu vizinho, que foi uma companhia para ele por diversas noites.

No dia seguinte não foi trabalhar, alegando uma indisposição corporal qualquer, não arredando o pé da sua janela. Assistiu a todas as cerimônias durante a retirada do corpo e depois, ao ser le­vado ao cemitério e acompanhado por grande parte da população de Lunópolis.

Automaticamente, um pouco antes do corpo ser retirado de onde estava para ser levado ao cemitério para ser enterrado, Sô Nico se aprontou. Nem fez a barba, decidido a sair para acompa­nhar o enterro que, naquela época, era feito a pé, sendo o caixão carregado por um grupo de pessoas.

Quando o caixão começou a sair da casa, também ele foi para a rua e seguiu, como os outros, o enterro. Agora ele pôde ver de perto sua vizinha Sara, sob a luz do Sol, pois sempre a olhava dentro de casa sem muita claridade. Ao vê-la bem ao seu lado, mesmo abatida e com os olhos inchados, ele se apaixonou mais ainda por aquela mulher tão simpática e atraente.

Sem se apresentar a Sara, caminhou durante todo o cortejo fúnebre de cabeça baixa, mas sempre procurando olhá-la. No ce­mitério sentiu um calafrio durante a descida do caixão, pois nesse momento ele ficou junto a ela, cara-a-cara. Nesse instante ele sen­tiu um forte impulso em abraçá-la e confortá-la.

Após o sepultamento, grupos de pessoas tristonhas, algu­mas chorando, desceram o morro onde se situa o cemitério. Sô Nico acompanhou, como sempre sozinho, os diversos grupos. Logo adiante dele caminhava Sara, conversando ora com um, ora com outro. Andando mais depressa alcançou-a e ao passar por ela olhou-a mais uma vez. Ela, por sua vez, olhou-o por segundos.

A emoção foi forte demais para Sô Nico. Animado com aque­le olhar tão conhecido seu e ao mesmo tempo tão distante, ali, naquela situação, encorajado aproximou-se dela e cumprimentou-a educadamente, dando-lhe seus pêsames pela perda.

Como houve uma certa receptividade, Sô Nico ficou em dúvi­da se ela já o conhecia, ou não, pois dava a impressão, pelo menos para ele, que ela já era uma velha conhecida e amiga. Por isso, ani­mado, desceu o resto do morro até chegar à rua principal, decidido a falar quem ele era:

— Sou seu vizinho. Por um acaso estava à janela, quando pre­senciei seu marido passando mal.

— Meu vizinho? Ah! Acho que o conheço. Nesse momento ela o olhou como se o estivesse examinando e continuou:

— Você mora na pensão, trabalha na prefeitura... sim, já o vi muitas vezes.

A partir desse dia fatídico e de sorte, os dois passaram a con­versar, a princípio através da bendita janela que os unia, mas aos poucos Sô Nico, numa tarde de domingo vazio e triste, chegou à janela quando Sara e os filhos, já recuperados do trauma, se prepa­ravam para iniciar o lanche. Sara, chegando o mais perto possível dele através da janela, falou com uma voz sonora e cativante:

— O que você vai fazer agora?

— Nada! Se vocês não se importarem, ficarei aqui olhando vocês lanchando, se isso não os incomoda.

— Incomoda, sim! Não irá incomodar se você, em lugar de ficar aí olhando, sair da pensão e vier aqui lanchar conosco.

— Está me convidando?

— Claro!

— Vou me aprontar rápido.

— Sim, nós o esperaremos.

Sô Nico quase desmaiou de alegria. Em pouco mais que cinco minutos estava pronto para ir ver o que havia esperado há muito tempo. Antes, pegou em seus guardados um presentinho para Sara, um belo colar, um presente que ele havia dado para sua mulher um pouco antes dela falecer e que, infelizmente, nunca fora usado.

A partir desse dia, os dois passaram a se encontrar e sair sem­pre. Pouco mais de um ano depois, eles se casaram e ele foi morar na casa da vizinha. Às vezes Sô Nico alugava o quarto da pensão e lá ficava por algumas horas, enquanto Sara, do outro lado, de vez em quando o olhava e saudava, sorrindo com a brincadeira que os fez unir.

Um comentário para “A Felicidade Mora ao Lado”

  1. Essa história mexeu muito comigo.
    Tenho buscado essa tal felicidade, e acabei apostando demais. E diante disso acabei perdendo a grande aposta da minha felicidade.
    Hoje, vejo que tenho que de novo, buscar uma nova rota, forma ou talvez caminho, para encontrar a minha felicidade.
    Agradeço a Deus pela vida do Dr. Galeno, por sua sabedoria que tem me ajudado muito na minha caminhada para encontrar a felicidade.

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