A Doença de Ronaldo

Quatro horas da tarde. Ronaldo havia acabado de atender um cliente no seu escritório de advocacia. Nesse instante ele sente uma pontada dolorosa e aguda no seu peito estufado (que nunca doeu). Amedrontado, telefona rápido para um hospital de urgência cardíaca. Enquanto telefona, mentalmente pergunta a si mesmo, angustiado: “Será que dessa vez vou morrer?” Seus pensamentos pessimistas desfilam na consciência apreensiva. Veste o paletó, despede-se da secretária sem nada lhe dizer e desce de elevador, imaginando: “É melhor tomar um táxi, posso morrer na direção do meu carro. Mente maldita! Só penso coisas ruins.”

Chega ao hospital suando. Espera. Entra na sala de exame. Perguntas rápidas são feitas. Deita-se na maca, é auscultado. O dou­tor faz uma cara feia. A enfermeira bonita sorri sem graça. Ronaldo, sem o desejar, fantasia um encontro com ela em qualquer dia, em qualquer lugar, para qualquer coisa.

O espectro da morte invade sua mente, faz desaparecer a en­fermeira que ali habitava por instantes. “Como encontrar? Poderei cair morto agora mesmo, a morte está chegando… acho que dessa eu não escapo.”

— Vamos fazer um eletro, depois um eco, talvez um holter. Depende… é – continua o doutor falando, enquanto olha curioso, ora os risquinhos do exame, ora a face medrosa de Ronaldo – típico de enfarte… ondas q r s, é… intervalo. Não há dúvida. Tudo obje­tivo, real… é caso para internar, operar, safena ou mamária. O cirur­gião decidirá, três ou quatro… depende… é, depende.

Ronaldo deitado, sem imaginar uma saída, recordava sua vida passada. Sua vida era simples, vulgar e também terrível. Após uma vida bastante livre e feliz, decidiu se casar. A esposa, sem razão alguma, começou a destruir a alegria e a ordem da sua vida. Num momento, ela tinha ciúmes infundados, em outro, exigia que ele a cortejasse para demonstrar amor, implicando com coisas insignifi­cantes, provocando cenas grosseiras diante de todos.

À medida que sua mulher se tornava mais nervosa e briguenta, mais ele transferia o centro de sua vida para seu trabalho, esforçan­do-se ao máximo para melhorá-lo cada dia mais, aumentando sua ambição de ser alguém, algum dia. Em casa, diante dos familiares, pouco exigia, a comida e o leito. Bastava uma pequena rusga em casa para que ele se voltasse para o mundo fora do lar, trabalhando mais e mais. Assim esquecia os dissabores que encontrava à noite e nos fins de semana.

Apesar de tudo, os filhos foram nascendo e a mulher foi fi­cando cada vez mais irritada e irritante. Eram poucos os milagrosos dias de uma atração amorosa, sempre de curtíssima duração. Logo após esses diminutos períodos de calmaria, ele era rapidamente lançado à tempestade de ódio continuado que lhe inundava a alma desajustada, revelando claramente o afastamento existente entre os dois cônjuges. Ronaldo ia se acostumando a tudo.

Um dos seus objetivos máximos consistia em libertar-se cada vez mais das contrariedades domésticas e dar a elas uma aparência inofensiva e decente. Para isso, ficava o mínimo possível com a mu­lher e quando isso era impossível, procurava ter junto a si e a mu­lher outras pessoas por perto, mesmos os mais estranhos à família.

Todo o interesse de Ronaldo se concentrou no mundo da advo­cacia, um trabalho que lhe agradava e o absorvia. Depois de muito es­forço, conseguiu uma promoção na firma em que trabalhava, o que o animou por algum tempo. Para mostrar riqueza, incentivado por sua mulher, decorou sua casa com tudo aquilo que foi considerado “belo” e “adequado” para pessoas da classe alta e de bem. O casal fazia tudo para ser considerado como pessoas de certa classe.

A casa de Ronaldo era de fato uma perfeita imitação de deze­nas de outras casas de Belo Horizonte, umas copiadas das outras. Entretanto, o casal imaginava-a totalmente original, isto é, única. Sentindo-se importante, não mais recebeu as pessoas considera­das pobres, moradoras de outros bairros, pessoas mais simples e com empregos menos rendosos, chegando mesmo a ter raiva dos pobres.

Pouco a pouco, e já há bastante tempo, Ronaldo havia co­meçado a sentir sensações estranhas. Assustado, foi consultar um famoso médico e professor da universidade. Após longa espera, foi recebido pelo ilustre doutor cheio de atos teatrais, um ar doutoral que Ronaldo conhecia bem, pois era essa mesma conduta que ele usava nas reuniões da empresa onde trabalhava.

Começou a consulta: as perguntas de praxe, a maioria delas desnecessárias, que forçavam respostas anteriormente já formu­ladas e totalmente inúteis. Depois de um silêncio como exigia o roteiro, as batidinhas aqui e ali e a percussão e a auscultação, que pediam respostas formuladas de antemão e que eram perfeitamen­te inúteis. Como nas diversas reuniões da empresa, o médico de um lado, e o paciente de outro, representavam a farsa encenada diariamente da relação médico-paciente.

O clínico, fingindo estar pensando, dizia: isto e aquilo indi­cam que o senhor tem isto e aquilo, mas se o exame que irei pedir – demora uns dias – não confirmar que o senhor tem isto e aquilo, devemos, sem dúvida, levantar a segunda hipótese de ter isto e aquilo. Por outro lado, supondo que o senhor sofre disto e daquilo, então pode-se concluir que as coisas andavam mal para seu lado…

Ronaldo, cabisbaixo, misturava as representações que inva­diam sua consciência – o exame médico e a vida familiar – e nenhu­ma delas lhe agradava.

A dor e o mal-estar não diminuíam. Ronaldo foi atrás de outros médicos, entre eles um homeopata e um acupunturista. Sua mulher, filhos e filhas, muito ocupadas com a vida social, as reuniões a que não podiam faltar, não tomaram conhecimento de seus problemas.

Na família ninguém se preocupava com ele. Novas consultas e novos tratamentos. Ronaldo ia piorando. Tentou voltar à vida que levou no passado: trabalhar, trabalhar, reorganizar a casa e o escri­tório. Tudo inútil, não houve melhora. Os colegas, atentos, espe­ravam sua morte e antes dela já indicavam o seu sucessor. Passou a usar antidepressivos, ansiolíticos, analgésicos, anti-hipertensivos e anti-histamínicos. Não houve melhoras. Seu maior e talvez único amigo era seu cão Dobe. Ronaldo usava todas as maneiras possíveis para manter esse amigo fiel bem junto dele. Outros médicos foram consultados e, nos piores dias, alguns foram até sua casa para o exame, todos usando os mesmos modos, as mesmas técnicas.

Cada médico procurado não se interessava pela vida ou mor­te de Ronaldo, mas apenas pelo seu coração, pulmão ou estômago. Lentamente, os familiares e amigos foram ficando irritados com suas queixas e sua conduta de doente. A doença de Ronaldo os aborrecia, ela perturbava a felicidade deles. Ronaldo lamentava sua fraqueza, sua terrível solidão, a crueldade dos ex-amigos e de Deus, que o abandonara.

“Por que razão cheguei a isso? Para que nasci? Que objetivo te induz a me fazer sofrer tanto assim?”- Ele se perguntava.

Ronaldo sabia que as respostas não viriam. Lembrou-se de tempos mais antigos ainda, de sua infância, mas não conseguiu visualizar mais o menino dentro dele. Tinha virado pó e levado pelo vento, espalhou-se. Ronaldo foi piorando até o desespero e a dor final.

Repentinamente, Ronaldo despertou de seus devaneios ao ouvir a estridente voz de seu médico atual:

— Vou arrumar um apartamento para você. Avise a família. Seu caso exige cuidados especiais. Precisa ficar aqui em repouso e sob vigilância médica constante.

— Não tenho família, doutor, moro… vivo sozinho. E abaixou a voz envergonhado de estar só. A família que tenho foi inventada por mim para os outros. Todos têm uma família. De tanto inventar, acabei também acreditando.

Hoje não sei bem se ela existe, ou não. Converso muito co­migo sobre ela. Não sei se vocês estão me entendendo. Ronaldo sabia mais a seu respeito do que aquele médico novato. Ele já tinha ouvido dezenas deles e não esperava mais nada de nenhum.

— Deve ter alguém – objetou o médico sem ouvir sua história queixosa e desinteressante. — Não pode ficar sozinho, nem andar sem auxílio, poderá morrer a qualquer hora. Os exames são obje­tivos, reais, não falham. Hoje ainda faremos outros me certificar. Entendeu? O já sabido… Acredita em Deus? Reze um pouco, lhe fará bem… nada melhor nesses casos.

— Sim e não. O meu Deus é o antigo, morreu. Hoje, meu Deus vive dentro de mim, só cuida dos meus problemas, não de outras pessoas. Ele só compreende minha linguagem particular.

Nove horas da noite. Ronaldo está no apartamento, espera so­litário talvez a morte. Chega o médico cansado e um pouco rouco, ainda com cheiro de cigarro saindo de sua respiração.

— Tudo como imaginei. Amanhã cedo, no mais tardar, à tar­de, cirurgia.

— Mas, doutor, preciso ir a casa. Não trouxe roupas. Nada! Nem a escova de dentes. Além disso preciso trocar a água e a comi­da do meu cão e do ratinho de estimação, eles moram comigo. Não tem ninguém em casa para ajudá-los. Se não, eles morrem.

— Não. Não convém, seu caso é grave. Você vai salvar os animais e poderá morrer…

— Mas, doutor… é… o pior é que… nem talão de cheque eu trouxe, falou rápido.

— Certo, concordou o médico. Já que não tem ninguém, vá com cuidado, não suba escada, não faça esforço, não fique preocu­pado. A emoção poderá ser fatal. Você poderá morrer… já lhe disse, pode ter outro enfarte. Teve sorte de ter escapado desse. A enfer­meira vai levá-lo até a portaria no carrinho e chamará um táxi.

Ronaldo ora, usa suas palavras próprias só para Ele. Conversa nos momentos difíceis com seu Deus particular, que não se comu­nica com mais ninguém… O médico retorna à conversa:

— Terá uma vida normal, ou quase normal… após a ponte. Virá aqui fazer exercícios, fisioterapia. Já ouviu falar?

— Sim… é…

— Com os safenados, gente como você, todos estão bem, felizes, pois escaparam, graças a Deus, da morte. Isso é normal nessa sua idade. Com sua vida sedentária, envelhecido, tudo isso acontece…

Ronaldo sai humilhado na cadeira de rodas, sem nenhuma es­perança. Rapidamente, quase correndo, entra no táxi que estava estacionado diante do hospital. Quando o carro partiu, aos poucos, foi ficando aliviado por afastar-se daquele lugar lúgubre.

Abriu o portão de seu edifício de três andares e sem elevador. Subiu a escada de 21 degraus – com “toda a leveza do seu ser” – ale­gre, degraus que jamais havia contado.

Tirou o paletó e a gravata. Aos poucos tirou todas as roupas. Vestiu um calção azul velho e confortável e caminhou até o banhei­ro, fazendo um longo xixi que o aliviou. Foi como se jogasse na privada sua preocupação. Observou com interesse sua urina ama­relada desaparecer com a descarga.

Você, leitor, escolhe um dos finais.

Primeiro:

Nesse instante, a dor violenta chegou mais forte do que nun­ca. Ronaldo contraiu-se todo, tentou agarrar a maçaneta da porta do banheiro, mas caiu no chão e começou a ter contrações em todos seus músculos. Assim permaneceu por um a dois minutos. Depois descansou, sem ter tido tempo de alimentar seu rato e cão, que o esperavam ansiosos.

Segundo:

Pensativo, ainda sem se decidir, Ronaldo foi até seu pequeno escritório procurar uma pequena lista de endereços necessários. Decidiu fazer uma ligação para um antigo amigo cardiologista.

Marca a consulta para às 10 horas da manhã do dia seguinte, ima­ginando: “A essas horas eu estaria sendo anestesiado, deitado na sala de cirurgia. Amanhã lá estará um outro, que não sou eu. Ainda bem”.

Chegou ao consultório e minutos depois a porta era aberta. Ronaldo recebeu abraços, sorrisos e esperanças do ex e, por que não, do atual amigo.

— Há quanto tempo! Sempre lembro da “república”, de nos­sas farras, as bebedeiras… Lembra-se?

A conversa continuou alegre, calma, cheia de lembranças agradáveis, de casos engraçados.

— O que foi? Você foi sempre forte… Aconteceu alguma coisa?

— Senti uma forte dor ontem. Aqui no peito, passou pelo braço… Ronaldo foi contando.

— Deixe-me ver. Respire fundo, outra vez. Ronaldo, ame­drontado, segurou a respiração.

— Não escuto nada, nada, de anormal, uma leve taquicardia talvez. Está nervoso? Lembra-se daquela mulher que você paque­rava? Encontrei-a, esses dias, ali na Praça Sete, naquele quarteirão fechado da Carijós. Estava na fila esperando o banco abrir… Tá ve­lha ! Acho que nós não estamos tão ruins assim… Tem gente que envelhece mais que outros. Vou fazer um eletro, assim terei mais segurança de que não existe nada.

— É porque nós nos olhamos todos os dias, vamos nos acos­tumando com as rugas e com tudo mais.

Uma enfermeira feia entra. Não sorri. Ronaldo a critica inter­namente: “Antipática”. Ela sai e ele se sente aliviado.

— É… não encontrei nada! Tudo dentro do esperado… devem ser as emoções, os estresses da vida, a mente… objetivamente nada, tá tudo bem. Pode voltar e continuar sua vida como antes. Ainda está trabalhando? Pode também continuar a fazer seus exercícios, beber sua pinga, ter suas transas. Tudo isso é bom para a saúde…

— Mas estou velho, a quantidade de anos nas costas é grande.

— Nada, o que vale é a qualidade de vida, a forma física. Você está ótimo.

Ronaldo abraçou seu velho amigo de farras. Despediu-se da enfermeira feia, sentindo-se culpado de tê-la criticado mentalmen­te, pois, após o “veredictum” final, ele começou a achá-la bela.

Saiu leve, caminhou pela rua achando a cor azulado do céu mais bonita, a cidade movimentada e alegre, as faces mostrando mais felicidade e simpatia.

Em certo momento, parou cheio de planos. Lembrou-se de sua casa, de seu ratinho. Perguntou-se, um pouco perdido: “Oh! Por que sou partido? Por que não sou uno, em vez de dois? Por que o real, o objetivo não se mistura com o espiritual, com o subjetivo? Por quê? Por que será?

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